Bolsonaro pede a ministros que evitem falar sobre protestos

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Reprodução / Twitter

O presidente Jair Bolsonaro se viu obrigado a orientar sua equipe de governo e ministerial a evitar falar publicamente sobre a manifestação marcada para o dia 15, contra o Congresso Nacional. A repercussão foi amplamente negativa, desde que o próprio Bolsonaro compartilhou pelo aplicativo WhatsApp vídeos de apoio ao ato.

O presidente enviou pelo menos dois vídeos com imagens e sobreposição de fotos suas pelo aplicativo. Os vídeos têm trechos idênticos, como a frase que classifica Bolsonaro como um presidente “cristão, patriota, capaz, justo e incorruptível”. O ato do dia 15 de março está sendo convocado por movimentos de extrema-direita em defesa do governo e contra o Congresso Nacional.

O “protesto a favor” é uma reação à fala do ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, que chamou o Congresso de “chantagista” na semana passada.

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A conversa teve como interlocutores os ministros da Economia, Paulo Guedes, e da Secretaria de Governo, general Luiz Eduardo Ramos, durante cerimônia no Palácio da Alvorada: “rapaz, nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Fodam-se”, afirmou Heleno na terça-feira (18), em áudio captado pela transmissão de evento no Palácio da Alvorada. Ele ainda orienta o presidente Jair Bolsonaro a “convocar o povo às ruas”.

Forte reação

O ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, disse que o chamamento do presidente Jair Bolsonaro para ato contra a corte e o Congresso, “se confirmada”, revela “a face sombria de um presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de Poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está à altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República traduz gesto de ominoso desapreço e de inaceitável degradação do princípio democrático!!!”.

Foi mais longe, ao aventar possibilidade de impedimento: “o presidente da República, qualquer que ele seja, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República”, alertou.

Já seu colega Gilmar Mendes disse que “o respeito mútuo entre os Poderes são pilares do Estado de Direito, independente dos governantes de hoje ou de amanhã” e que as instituições devem ser honradas.

Forças de direita e de esquerda no espectro político também reagiram. Os últimos três presidentes da República eleitos pelo povo foram às redes para repudiar o movimento do atual ocupante do cargo.

Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) publicou em sua conta no Twitter que “a ser verdade, como parece, que o próprio Pr tuitou convocando uma manifestação contra o Congresso ( a democracia) estamos com uma crise institucional de consequências gravíssimas. Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto de tem voz, mesmo no Carnaval, com poucos ouvindo”.

Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) foi à mesma rede social para se manifestar: “Bolsonaro e o general Heleno estão provocando manifestações contra a democracia, a constituição e as instituições, em mais um gesto autoritário de quem agride a liberdade e os direitos todos os dias”.

Dilma Rousseff (2011-2016) também usou o Twitter para mostrar repúdio: “Bolsonaro e general Heleno estão atentando descaradamente contra a constituição e a democracia ao convocar manifestação contra o Congresso Nacional. Torna-se urgente e necessária forte resposta das instituições ou o país mergulhará, + uma vez, na escuridão das ditaduras”.

Já o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), publicou que “criar tensão institucional não ajuda o país a evoluir. Somos nós, autoridades, que temos de dar o exemplo de respeito às instituições e à ordem constitucional. O Brasil precisa de paz e responsabilidade para progredir”.

O mesmo caminho seguido pelo presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

Recuo

Diante de tantas vozes criticando a atitude do presidente da República, em conversas na manhã desta quarta-feira (26), Bolsonaro teve que recuar e dizer a aliados e a auxiliares que não está incentivando o protesto e que apenas reencaminhou em um grupo privado um conteúdo que lhe foi enviado.

Segundo relatos feitos ao jornal Folha de São Paulo, “o presidente avaliou que o fato de ele ter compartilhado o conteúdo não é algo grave e considerou que tem havido um exagero na repercussão do episódio. Para evitar novas críticas, no entanto, a ordem repassada pelo Palácio do Planalto é para que a equipe ministerial não compareça à manifestação de março para evitar um desgaste desnecessário com o Legislativo e o Judiciário”.

Ainda nesta quarta, Bolsonaro chamou de “tentativas rasteiras de tumultuar a República” as interpretações sobre ele ter compartilhado o vídeo.

Ele não negou ter enviado a mensagem. Afirmou usar esse aplicativo para trocar mensagens de “cunho pessoal”: “tenho 35 milhões de seguidores em minhas mídias sociais (Facebook, Instagram, YouTube e Twitter) onde mantenho uma intensa agenda de notícias não divulgadas por parte da imprensa tradicional. Já no WhatsApp tenho algumas poucas dezenas de amigos onde, de forma reservada, trocamos mensagens de cunho pessoal”, afirmou.

O ataque às instituições, porém, é recorrente entre os círculos bolsonaristas. Ao menos seis congressistas já manifestaram apoio à mobilização: Carla Zambelli (PSL-SP), Filipe Barros (PSL-PR), Guiga Peixoto (PSL-SP), Aline Sleutjes (PSL-PR), Éder Mauro (PSD-PA) e a senadora Soraya Thronicke (PSL-MS).

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