Financial Times: analistas prevêem real ainda mais desvalorizado em 2020

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/Pixabay

O jornal inglês Financial Times (FT) ouviu três grandes bancos estrangeiros e a previsão é que o real, a moeda que mais se desvalorizou este ano, pode ir ainda mais ao fundo e chegar a R$ 6 por dólar. Analistas do Goldman Sachs, JPMorgan e HSBC só discordam de quando isso vai acontecer.

O mais pessimista é o JPMorgan, que prevê o dólar a R$ 6 já em junho. O Goldman Sachs dá três meses para o real chegar a esse patamar de desvalorização frente à moeda norte-americana. E o HSBC é mais “otimista”, com a expectativa de que a barreira de R$ 6 por dólar seja atingida – e ultrapassada – no final do ano.

Já o Credit Suisse, que não foi consultado pela matéria do Financial Times, também acredita que a moeda dos EUA chegue a R$ 6,20. O real foi classificado como “tóxico” pelo banco europeu.

“Nossas visões não mudaram. Continuamos pessimistas com o real, com meta inalterada de dólar a 6,20 reais”, disse o banco, em comunicado, reiterando a previsão feita no último dia 13 de maio.

Real: a pior moeda do mundo

O real é hoje a moeda que mais perdeu valor no mundo. Levantamento feito pelo Estadão/Broadcast com base em 43 moedas negociadas no mercado à vista mostra que o dólar havia se valorizado 45,64% ante o real este ano, até a sexta-feira (15).

Na sequência, aparecem o rand sul-africano (alta de 32,52% do dólar) e o peso mexicano (avanço de 26,77% da moeda americana).

Mês a mês

No primeiro dia de 2020, o dólar estava cotado a R$ 4,0195. Nos 31 dias de janeiro, a moeda norte-americana só perdeu valor frente ao real por sete vezes, a maior no dia 22, com variação negativa de 0,71%, quando já valia R$ 4,1829. O mês fechou com desvalorização do real em 6,54%.

Fevereiro começou com a pandemia do novo coronavírus ainda longe de chegar à América do Sul e o problema maior no mundo ainda era o embate comercial entre Estados Unidos e China, além do início das primárias democratas para a presidência estadunidense.

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Assim, o dólar estava a R$ 4,2480. Fechou o mês com uma variação de 4,46%, cotado a R$ 4,4736.

Já no mês de março, o novo coronavírus dava as caras pelo Brasil. Pior: a crise inédita do petróleo, que culminou com a cotação do WTI abaixo de zero, em abril. O governo Jair Bolsonaro não só ignorava os riscos da pandemia que aportava no país, como participava de manifestações “a seu favor”.

Assim, o dólar que começou em 1º de março a R$ 4,4744, fechou o mês com variação de 16,35%, cotado a R$ 5,2053. Em abril, mais alta: 5,42%, com a moeda chegando a R$ 5,4875. Em 13 de maio, o dólar atingiu seu pico, a R$ 5,8870, mas durante o dia 8 do mesmo mês, chegou a valer R$ 5,9917.

O acumulado do ano é de uma alta do dólar em 38,60%, um ganho frente ao analisado pelo Estadão.

Financial Times descreve “rasteira”

“O Brasil recebeu uma enorme rasteira” da pandemia, disse ao FT, Luis Costa, do Citibank.

No final de 2019, os estrangeiros estavam empolgados e viam o Brasil de 2020 com bons olhos. Paulo Guedes tinha o protagonismo necessário para fazer as reformas que os investidores esperavam e a expectativa era de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2%.

Entretanto, tudo desabou em dois meses. De repente, Guedes perdeu o protagonismo e sua defesa de um Estado menos inchado foi atropelada por uma necessidade mais importante: aportar dinheiro em contas de trabalhadores desamparados e pequenas e médias empresas paralisadas pelas medidas de isolamento social.

Bolsonaro seguiu desdenhando da crise e das mortes no seu quintal e o Brasil chega ao final de maio como um dos três países com mais casos confirmados do novo coronavírus (mais de 310 mil até o dia 22) e com mais de 20 mil mortos. Isso realizar testes suficiente.

Não há horizonte nesse cenário. Os empresários forçam os governos estaduais a retomarem a economia diante de um gráfico que mostra a ascensão da curva brasileira como um foguete que não demonstra perder fôlego tão cedo.

Previsões sombrias

Novas reduções para o PIB, a inflação e a taxa Selic no Brasil foram estimadas na segunda-feira (18) pelo Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central.

Nas projeções das instituições financeiras consultadas, o PIB deve registrar uma queda de 5,12% até o final do ano. A queda vem se confirmando semanalmente.

Na semana anterior, o boletim indicava uma retração de 4,11%. Duas semanas antes, menos 3,76%. E há quatro semanas, menos 2,96%.

Já a expectativa para a Selic, a taxa básica de juros, que era de 2,50%, agora, é de 2,25%. Há quatro semanas, ela era de 3%.

A previsão para o câmbio subiu de R$ 5 da última semanas para R$ 5,28. Há quatro semanas, a expectativa era por R$ 4,80. Todas ainda longe dos R$ 6 previstos pelos analistas ouvidos pelo FT.

Altos riscos políticos

“O Brasil tem altos riscos políticos e, enquanto isso, as taxas de juros são muito baixas”, disse Xueming Song, gerente de portfólio do DWS Group, ao Financial Times. “O tratamento dado pelo chefe da nação brasileira à pandemia não aumentou a confiança”, analisou.

“É improvável que o ritmo de declínio que vimos continue, mas esperamos que o real enfraqueça um pouco mais”, afirmou Song.

Entre os riscos políticos está o constante embate de Bolsonaro com as instituições democráticas, especialmente com o Congresso Nacional e com os governadores de estado.

Os pedidos de impeachment se acumulam na mesa de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, que não pretende colocar em pauta tal discussão.

Para Maia, “impeachment tem que ser visto com paciência e equilíbrio, o açodamento não é bom”.

Fuga de dólares

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, “a partir de março, com a intensificação da crise provocada pelo novo coronavírus, muitos países passaram a enfrentar um movimento de fuga de dólares. Isso foi percebido em especial entre os emergentes, onde investidores estrangeiros passaram a desfazer investimentos e remeter recursos a outros países”.

“Apenas em março, deixaram o Brasil US$ 14,9 bilhões pela via financeira. Em abril, foram mais US$ 6,8 bilhões. O segmento reúne os investimentos estrangeiros diretos e em carteira, remessas de lucro e pagamento de juros, entre outras operações”, reporta.