Fertilizantes Heringer (FHER3) e grupo russo trocam acusações, após venda não ser concluída

Joana Kurtz
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Crédito: Banco de Imagens EnvatoElements/By BrianAJackson.

Desde que a venda da Fertilizantes Heringer (FHER3) para o grupo russo Uralkali não foi concluída, apesar de já ter obtido a chancela do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), os russos e a empresa têm trocado acusações graves.

Para o Uralkali, o balanço da empresa de fertilizantes, que enfrenta uma recuperação judicial, foi inflado. Já na avaliação da Heringer, o objetivo dos russos é forçar uma possível liquidação de seus ativos por montantes irrisórios. A informação consta de comunicados enviados nesta manhã ao mercado.

O grupo Uralkali solicitou ao juiz que invalidasse aprovação do plano de recuperação judicial da empresa.

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Segundo matéria publicada no jornal Valor Econômico em 20 de janeiro, os russos alegaram que o balanço da empresa estava inflado e apresentava inconsistências contábeis da ordem de R$ 700 milhões, o que não seria de conhecimento dos credores que aprovaram o plano de recuperação judicial em 3 de dezembro.

Além disso, a Heringer não teria provisionado R$ 184,6 milhões referentes a processos judiciais cuja perda é considerada provável.

Por fim, a auditoria contratada, a KPMG, também concluiu que havia problemas nos créditos tributários. De um valor total de R$ 534,8 milhões, R$ 337 milhões já teriam sido negados por autoridades tributárias.

No entanto, a Fertilizantes Heringer lembrou que as empresas do Grupo Uralkali não só compareceram na Assembleia Geral de Credores realizada no início de dezembro, como votaram favoravelmente ao plano.

Na ocasião, os russos não teriam manifestado qualquer divergência em relação aos números contábeis/financeiros apresentados ou feito qualquer outra ressalva.

Para a empresa brasileira, isso demonstra, “de forma cabal, que manifestação possui o único intuito de prejudicar a recuperação judicial e, em consequência, a possibilidade de soerguimento da companhia”.

Retaliação

Diz o comunicado da Fertilizantes Heringer: “Por razões alheias aos controladores e à companhia, mas também em decorrência da postura reprovável mantida pelo Grupo Uralkali ao longo das discussões contratuais, o negócio não foi concluído conforme pretendido.”

Para a Heringer, desde então, os russos vêm atuando judicial e extrajudicialmente, de forma “retaliatória” para, “de maneira absolutamente injustificada”, prejudicar a empresa, seus empregados e colaboradores, acionistas, credores e o mercado em geral.

O intuito do grupo russo seria aproveitar a momentânea dificuldade financeira da Heringer, para, ao final, obter para si vantagem indevida.

Além disso, durante as negociações, os russos teriam mantido postura “questionável”.

A Fertilizantes Heringer refuta, “de forma veemente”, qualquer alegação de irregularidades em suas demonstrações financeiras.

“A companhia é auditada há mais de 20 anos por grandes empresas de auditoria internacionais (Big Four) sem nunca ter tido qualquer ressalva em suas demonstrações financeiras, o que lhe garante absoluta tranquilidade a respeito da veracidade, seriedade e clareza com que suas atividades vêm sendo exercidas ao longo dos seus 52 anos de existência.”

A empresa está adotando todas as medidas cabíveis, seja no âmbito de sua recuperação judicial, seja no âmbito civil e criminal, no Brasil e na Inglaterra, contra o Grupo Uralkali e seus assessores, pelas inverdades que vêm sendo divulgadas. Inclusive, o grupo russo teria quebrado a confidencialidade assumida contratualmente.

“Durante o processo de negociação, o Grupo Uralkali adotou uma série de atitudes questionáveis, tais como, por exemplo, mudanças repentinas e sem qualquer aviso prévio de termos e condições essenciais do acordo que já haviam sido combinados e fechados entre as partes.”

Road show

As empresas do Grupo Uralkali teriam adotado outras medidas prejudiciais à Fertilizantes Heringer como, por exemplo, organizar “road shows” com investidores com o intuito de passar informações inverídicas a respeito da situação financeira, bem como “plantar” na imprensa a notícia do jornal Valor Econômico, diz.

Créditos tributários

A Fertilizantes Heringer diz desconhecer o detalhamento das alegações dos russos sobre os créditos tributários. “Porém, a empresa acredita que se referem a créditos tributários federais de PIS/Cofins e IRPJ/CSSL que estão sob discussão administrativa ou jurídica junto à Receita Federal e CARF, buscando sua restituição”.

“Em se tratando de tais créditos, a empresa vem obtendo reiteradamente decisões favoráveis quanto às restituições destes impostos. Entre os anos de 2011 a 2018, a Companhia recebeu em espécie a monta de R$ 290 milhões e, em 2019, foram recebidos a monta de R$ 126 milhões ao longo do ano”, explica.

“Além das recentes decisões favoráveis, o parecer jurídico dos advogados responsáveis pelos processos administrativos e judiciais é no sentido de que o êxito na recuperação dos créditos é provável e, por consequência, a decisão da empresa quanto à não realização de provisões de perdas dos correspondentes ativos a receber foi devidamente embasada por um parecer jurídico de um escritório renomado e independente.”