Fed teme por intensificação da crise em nova onda do Covid-19

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)

Crédito: Flickr

O Federal Reserve divulgou, nesta quarta-feira (20), a ata do reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês), realizada de 28 a 29 de abril de 2020, em que manteve as taxas de juros próximas do zero.

Os dirigentes do Fed disseram, no documento, que o banco teme por uma nova onda de coronavírus no médio prazo, com forte impacto na economia.

As restrições impostas na atividade econômica e na circulação de pessoas para frear o avanço da doença já provocam retração no PIB, queda nos investimentos, paralisação de setores como o das empresas aéreas e de turismo, queda na indústria e desemprego, com risco de recessão.

O cenário pessimista, provocado por uma volta dos índices altos da doença, inclui, afirma o banco,”uma série de incertezas e de riscos”.

A Covid-19 deixou no país, até esta quarta (20), quase 300 mil mortos e infectou mais de 1,5 milhão de pessoas.

“O surto da doença e as medidas tomadas para proteger a saúde pública estavam prejudicando gravemente a atividade econômica nos Estados Unidos e no exterior. Uma nova onda do vírus deve intensificar a crise a médio prazo”, afirmam os dirigentes do Comitê.

O comitê entende que há possibilidade de uma nova onda da doença voltar a fechar a economia no segundo semestre.

Por esse motivo, a instituição pede ao governo dos EUA “uma defesa mais robusta de apoio fiscal em decorrência da fragilidade econômica causada pela forte queda das atividades durante a pandemia”.

Queda expressiva do PIB

Segundo o Fed, espera-se para este ano “uma queda expressiva do PIB real, pressão por alta da inflação e aumento da taxa de desemprego”.

Esse quadro deve impactar a economia americana também em 2021.

“Indicadores econômicos já apontavam para uma extraordinária contração do PIB no segundo trimestre”, diz a ata do FOMC.

O Fed mencionou que a crise deverá impactar o setor bancário e causar falências de empresas e alta nos índices de desemprego.

“A economia americana pode sofrer ainda mais restrições no segundo semestre”, prevê o Comitê.

Compra de ativos

O Fed sugere a compra de ativos para garantir crédito a empresas e famílias afetadas pela crise.  O Fed assegura estar comprometido a “utilizar todas as ferramentas para apoiar a economia do país.”

Segundo o Comitê, os gastos dos consumidores não voltarão à normalidade após reabertura da economia, que vem ocorrendo em parte do país.

A ata do Fed lembra que atividades das empresas e investimentos caíram “drasticamente com a pandemia”. Os dirigentes afirmam temer que as demissões temporárias se tornem permanentes.

Os dirigentes assinalaram que os preços baixos da energia podem provocar onda de falências no setor, caso os valores se mantenham nesse patamar.

Análise

De acordo com análise da jornalista Márcia Pinheiro, do serviço do Bom dia Mercado, a Ata do FOMC, do Federal Reserve, “foi dura e, em grande parte, cheia de alertas sobre a incerteza do futuro da economia global, em função do coronavírus.”

“Mas, ao menos para as bolsas, foi só uma transcrição bem editada dos discursos dos integrantes do Fed recentemente. Repetiu, contudo, a frase mágica: de que o BC americano fará tudo o que puder para impulsionar a economia, como vem afirmando o presidente da instituição, Jerome Powell”, prossegue a avaliação das jornalistas do BDM.

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“Por isso, ganhou fôlego a expectativa de que mais medidas de estímulo do Fed estão no forno. À medida que vários estados americanos começaram a relaxar as restrições à atividade econômica, cresceu novamente a esperança de uma recuperação no médio prazo”, acrescenta.

O índice Dow Jones subiu 1,52% (24.575,90 pontos); o S&P 500, +1,67% (2.971,61); e o Nasdaq, +2,08% (9.375,78). Em São Paulo, a bolsa acompanhou NY com mais comedimento.

O Ibovespa fechou em alta de 0,71% (81.319,45 pontos), com giro de R$ 22,5 bilhões.

Apoio a economia

A pandemia do coronavírus, que fez o governo americano injetar trilhões na economia, foi o motivo principal que norteou a determinação do Fed  de manter as taxas de juros entre 0% e 0,25% no final de abril.

O comitê alegou que “estava empenhado em usar toda a sua gama de ferramentas para apoiar a economia dos EUA neste momento desafiador, promovendo assim suas metas máximas de emprego e estabilidade de preços”

“A pandemia do coronavírus causou imensas dificuldades humanas e econômicas”, observava o FOMC.

O comunicado prosseguia: “O vírus e as medidas tomadas para proteger a saúde pública estão induzindo acentuados declínios na atividade econômica e um aumento nas perdas de empregos.”

Taxas negativas

O Federal Reserve dos Estados Unidos pode considerar cortar as taxas de juros para negativo, caso outra aconteça uma segunda onda do novo coronavírus no país. Entretanto, essa política monetária não seria “muito útil”, disse na quinta-feira (14) à CNBC um estrategista do Goldman Sachs.

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Taxas de juros negativas

Dias antes da divulgação da ata do Fed, o presidente da instituição, Jerome Powell, reiterouque o banco central não está considerando taxas de juros negativas neste momento, mesmo quando outros bancos centrais – como o Banco da Inglaterra – pareciam estar abertos à idéia, diz a CNBC.

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Quando perguntado sobre o que poderia mudar a mente do Fed sobre taxas de juros negativas, Zach Pandl, co-chefe de estratégia global de câmbio, taxas e mercados emergentes da Goldman Sachs, levantou a possibilidade de uma segunda onda de casos de coronavírus que poderiam prejudicar a recuperação econômica futura.

“Se a economia tiver outro grande contratempo, como uma segunda onda de infecções, isso realmente levaria a recuperação para fora do curso, e abriria a possibilidade de uma série de ações adicionais”, disse ele à CNBC.

Primeiro passo: política fiscal

No entanto, Pandl diz que, mesmo nesse cenário, uma política fiscal seria o primeiro passo a ser dado: “não acho que reduzir as taxas para um território negativo possa ser muito útil, mesmo nesse ambiente”.

“Mas, quem sabe, os formuladores de políticas vão querer tentar coisas novas se a economia estiver realmente lutando por um período de tempo”, acrescentou. “Portanto, nesse cenário, talvez eles possam considerar os juros negativos, caso contrário, acho que é uma probabilidade muito baixa neste momento”.

Pandl, entretanto, não chegou a explicar o motivo de achar que as taxas de juros negativas “não seriam úteis”. O certo é analistas duvidam da eficácia de tal política, citando a experiência de alguns países europeus e do Japão que lutam para reenergizar suas economias, mesmo depois de adotar taxas negativas há anos.

Fed espera vacina

Nesse domingo (17), Powell, afirmou que uma recuperação total da economia dos Estados Unidos depende de uma vacina contra o coronavírus. Só assim a confiança da população poderia retornar a níveis suficientes de retomar o consumo.

“Supondo que não haja uma segunda onda do coronavírus, acho que você verá a economia se recuperar de forma constante até o segundo semestre deste ano. Para que a economia se recupere completamente, as pessoas terão que estar totalmente confiantes e talvez tenhamos que aguardar a chegada de uma vacina”, afirmou.

Essa é uma análise que encontra eco em vários locais do mundo. Achatar a curva ou fazê-la apontar para baixo não garante que as pessoas vão retomar seu estilo de vida pré-pandemia. Ainda haverá empregos a ser recompostos e capacidade de consumo a ser retomado.

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