E-commerce na bolsa: queridinhas até quando?

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

As empresas de e-commerce se tornaram as queridinhas do mercado acionário desde o início da pandemia. Afinal, sem poder sair de casa com segurança, as pessoas passaram a fazer compras online com uma intensidade cada vez maior nos últimos meses.

Não é à toa que as ações da Magazine Luiza (MGLU3), da Via Varejo (VVAR3) e da B2W (BTOW3) estão no seu valor mais alto da história. E em níveis muito acima do patamar pré-crise.

Por atuarem de forma consistente no comércio virtual, essas empresas conseguiram oferecer ao investidor o que poucas companhias podem fazer: continuar operando com resiliência durante uma pandemia mundial.

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Mas não é só isso. Outros fatores explicam o rali destas ações, como o avanço da pessoa física na bolsa e a escalada das ações de empresas de tecnologia nos Estados Unidos. Além disso, a saída do investidor estrangeiro do Brasil tirou força das ações dos setores mais tradicionais da B3.

Agora, com a aproximação da temporada de balanços das empresas abertas, o mercado poderá avaliar como se comportaram as companhias de varejo online durante a pandemia.

Embora os especialistas acreditem que os dados serão muito positivos, é natural que exista uma dúvida no ar. Afinal, até quando a valorização da “Nasdaq” brasileira pode continuar?

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Por enquanto, os fundamentos para o setor seguem muito positivos. Ninguém espera uma decepção nos resultados que serão divulgados em breve, o que pode gerar novas altas nas ações.

No entanto, em algum momento do futuro é esperado que os investidores voltem a prestar atenção em outros setores da bolsa.

Confira tudo que está mexendo com o mercado e quais são as expectativas dos especialistas.

Fundamentos são fortes até o momento

Até o momento, todos os dados divulgados sobre o varejo online sustentam a visão positiva do mercado sobre estas empresas.

Por exemplo, antes da pandemia, as estimativas apontavam crescimento entre 15% e 25% das vendas do comércio eletrônico em 2020.

Atualmente, estes números se situam entre 60% e 70%. As estimativas são do fundador e diretor-geral do Grupo GS& Gouvêa de Souza, Marcos Gouvêa de Souza, em artigo publicado recentemente.

Além disso, ele estima que a participação do comércio eletrônico no varejo total em 2020 pode dobrar em termos percentuais. Com isso, pode chegar perto ou superar os 10%.

Os dados são ainda mais impressionantes quando consideradas as informações que vazaram da Via Varejo.

No último dia 20, a empresa publicou no seu perfil do Twitter aumentos significativos nas vendas online. Os dados eram de maio e junho, na comparação com igual período de 2019.

A publicação mostrou uma alta de 2.500% nas vendas de câmeras e games. O avanço foi de 1.900% em televisores e 1.500% em equipamentos de som.

Outro dado positivo é o aumento nos downloads de aplicativos de e-commerce. Somente nos primeiros cinco meses de 2020, o volume de instalações de apps de e-commerce representou 68% de todo o ano de 2019. Os dados são do RankMyAPP.

Rali do e-commerce

As ações das empresas responderam de forma intensa a essa tendência. O gráfico abaixo mostra o comportamento da MGLU3 nos últimos cinco anos. Além da forte escalada vista após o início da pandemia, fica claro que a empresa está bem acima dos níveis históricos.

Somente em 2020, o papel se valorizou quase 80%, num período em que o Ibovespa cai quase 10%.

Comportamentos semelhantes são encontrados nas ações de Via Varejo (VVAR3) e B2W (BTOW), enquanto a maior parte das empresas do Ibovespa está no negativo este ano. Outra que sobe, mas não tanto, é a Lojas Americanas (LAME3), com alta de cerca de 40% no ano.

Efeito no e-commerce pode ser de longo prazo

De acordo com os especialistas, tudo indica que as empresas tiveram excelentes resultados nos últimos meses. Isso deve permanecer enquanto durar a pandemia, mas pode até se prolongar para o longo prazo.

Isso porque o comportamento do consumidor está mudando, e o hábito de fazer compras pela internet pode ter vindo para ficar. Desta forma, o impacto positivo sobre estas empresas parece ser estrutural.

Além disso, muitos varejistas de menor porte devem encerrar as operações devido à pandemia. A expectativa é que as grandes varejistas da bolsa devem capturar essa participação de mercado, de acordo com o economista da EQI, Pedro Ivo.

Segundo Flávio Franco, da mesa de operações daEQI Investimentos, o mercado está voraz na compra de ações dessas companhias devido ao seu potencial de crescimento.

“Os múltiplos destas empresas são muito altos, no patamar de startups, porque o mercado está comprando em função do potencial de crescimento”, explica.

Cópia e cola dos EUA

A valorização das empresas de tecnologia também ocorreu nos Estados Unidos. Lá, o índice da bolsa Nasdaq, que concentra empresas de tecnologia, acumula alta de quase 20% ao ano. Ao mesmo tempo, o índice Dow Jones está no negativo este ano (queda de quase 6%), enquanto o S&P 500 sobe apenas 0,8%.

Companhias como Amazon, Apple, Microsoft, Google e Facebook são as responsáveis pelo avanço da Nasdaq, segundo o economista da EQI.

A valorização dessas ações não atraiu apenas os investidores norte-americanos, mas de todo o mundo – inclusive brasileiros que investem lá fora via fundos de investimentos.

Como não existem empresas com este perfil listadas no Brasil, aqui quem surfou a onda foram as empresas de e-commerce.

Além disso, outros fatores contribuíram para a valorização das varejistas na bolsa.

Um deles foi a queda da taxa Selic, que motivou muitos investidores a deixarem parte dos investimentos em renda fixa. Com isso, o fluxo de dinheiro para a bolsa de valores aumentou.

Outro fator que favoreceu este movimento foi a maior participação da pessoa física na bolsa. Segundo Alan Gandelman, CEO da Planner, as pessoas foram atraídas pela resiliência deste setor durante a crise.

“Ficou claro que essas companhias continuaram vendendo, e aparentemente aumentaram as vendas”, afirma.

Além disso, têm boa capacidade de distribuição e logística, de forma independente dos correios. “Isso levou o investidor para esses papéis, da mesma forma que aconteceu com a Amazon nos EUA.”

De olho nos balanços das empresas

Agora, a temporada de balanços das companhias vai mostrar até que ponto o e-commerce conseguiu se expandir na pandemia.

Também ficará mais claro se as vendas físicas dessas redes de lojas conseguiram ser totalmente compensadas (ou até mesmo superadas) com as vendas online.

“O mercado vai avaliar se as vendas online conseguiram sanar os problemas de fechamento de lojas durante o período da pandemia”, diz João Dibo, analista de ações da Rio Bravo.

Na temporada de balanços, é importante o investidor ficar atento aos resultados. Isso porque uma eventual decepção do mercado em relação aos balanços pode levar a uma correção nos preços das ações.

Migração de recursos pode ocorrer

Segundo Flávio Franco, da mesa de operações daEQI Investimentos, existe a possibilidade de que ocorra alguma rotação de recursos no mercado futuramente, com parte deles  trocando o setor de tecnologia por outros, como o de bancos, cujos preços das ações não subiram durante a crise.

Em outras palavras, os bancos podem ser vistos como uma boa oportunidade, enquanto as varejistas ficaram mais caras.

“É natural que ocorra em algum momento esta ‘rotation’, pois os gestores percebem que os valores subiram muito e começam a vender”, explica Franco.

Além dos bancos, outro segmento que poderia absorver parte deste fluxo de investimento são as empresas de commodities, como minério, petróleo e carnes. Isso porque elas vão mostrar nestes balanços um forte aumento de receita devido à alta do dólar.

Isso deve ficar ainda mais evidente depois que a pandemia passar e o investidor estrangeiro voltar para a bolsa. A porta de entrada desses investidores são empresas mais líquidas, como Vale, Petrobras e bancos.

“Quando as coisas ficarem mais calmas e as perspectivas de Brasil melhorarem, o estrangeiro vai voltar a comprar Brasil, e com certeza vai comprar os setores mais tradicionais”, explica Pedro Ivo.

Enquanto isso não ocorre, o esperado é que as empresas de e-commerce continuem no centro das atenções, com espaço até para renovar as máximas.

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