Embraer (EMBR3) ainda vai sofrer no curto prazo: vale comprar?

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Divulgação/Embraer

No início do ano, estava em curso na Embraer (EMBR3) uma mega operação para dividir a empresa e concluir o processo de venda de seu setor de aeronaves comerciais para a americana Boeing, em um negócio que renderia à brasileira US$ 4,2 bilhões.

De lá para cá, porém, tudo degringolou. Veio a pandemia e, em seguida, a  negociação com a Boeing foi encerrada abruptamente. Com o fechamento de fronteiras e as medidas de isolamento social, a encomenda de aeronaves despencou.

Não bastasse, a Embraer, que depende de diversas peças importadas para montar seus aviões, encara a alta do dólar em um cenário de crise e instabilidade globais.

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E tem ainda que lidar com calotes e cancelamentos de pedidos de companhias aéreas endividadas na crise.

As ações da Embraer, claro, vêm sentindo todos os impactos. Em 2 de janeiro deste ano, o ativo valia R$ 20,20. Em 9 de setembro, estava cotado a R$ 7,18, com queda de mais de 64%.

Balanço ruim no segundo trimestre

Se no início do ano a perspectiva era bastante positiva, o segundo trimestre foi um balde de água fria nos planos da companhia.

O período coincide com a quebra do acordo com a Boeing e também com o pior período da pandemia no Brasil.  Foi quando a empresa reportou um prejuízo líquido de R$ 1,68 bilhão, revertendo o lucro líquido de R$ 26,1 milhões do mesmo período do ano passado.

No trimestre, a Embraer entregou apenas quatro aeronaves comerciais e 13 executivas, contra 26 comerciais e 25 executivas no mesmo período de 2019.

Segundo o presidente Francisco Gomes Neto, a empresa vem tentando se adaptar à nova realidade, buscando reduções de custos e revisando seu plano estratégico até 2025.

Pendência judicial com a Boeing

Não bastasse o resultado financeiro ruim, a Embraer ainda atravessa um conflito jurídico com a Boeing.

A empresa americana argumenta que simplesmente exerceu seu direito ao rescindir o contrato de compra da área de jatos comerciais da Embraer. Ela acusa a brasileira de não cumprir condições contratuais consideradas fundamentais.

Para a Embraer, por outro lado, a desistência foi indevida. E revelou a falta de vontade da Boeing para concluir a transação. Isso aconteceu, segundo a Embraer, pela má condição financeira e pelos problemas de reputação pelos quais passava a Boeing.

No início de 2020, a companhia americana teve que encarar dois acidentes com vítimas fatais em voos do seu modelo 737 MAX. Além disso, a empresa já sentia, em abril, os impactos da pandemia.

Vale comprar Embraer na baixa?

Nesse contexto repleto de adversidades, será que vale apostar nas ações da Embraer enquanto elas estão em baixa?

Primeiro, vale dizer que a Embraer é uma empresa considerada como estratégica para o país. Especialmente no que diz respeito a desenvolvimento tecnológico.

Mas ela também habita o imaginário coletivo como parte do “Brasil que deu certo”. Foi estatal desde a sua criação quando abriu capital. Ou seja, de 1969 a 1994. E não por acaso, recebe até hoje demonstrações de que pode contar com algum “socorro” governamental.

Há, inclusive, uma proposta de “reestatização” que tramita no Congresso desde o fim das negociações com a Boeing. A proposta é do senador Jacques Wagner (PT-BA).

Fora isso, a pandemia dá os primeiros sinais de que não será eterna para a aviação civil.  Os voos domésticos tendem a ser retomados em velocidade mais rápida do que os internacionais. A Gol, por exemplo, divulgou nesta semana que teve aumento de quase 20% na demanda por voos nacionais em agosto.

Posição é ruim no curto prazo

“A posição da Embraer é realmente ruim no curto prazo”, diz Greco Salvatore Montagna, assessor de mesa de renda variável da EQI Investimentos.

“Sem a parceria com a Boeing, a Embraer não vai conseguir competir com a gigante formada pela fusão da Airbus com a Bombardier”, ele diz. E explica que a Boeing compete com a Airbus na venda de aviões comerciais. Já a Embraer compete com a Bombardier nos jatos executivos. Ou seja, com o fim das negociações entre Embraer e Boeing, ambas ficam em desvantagem perante a Airbus.

Entretanto, ele pondera, a sensação no mercado é que o pior da crise do coronavírus ficou para trás. Sendo assim, a recomendação para o investidor é acompanhar como as companhias aéreas se comportam daqui em diante. Se houver demanda aquecida por voos, o cenário tende a ficar menos ruim no longo prazo.

Mirae tem recomendação neutra; Bradesco BBI, de venda

Para a Mirae Asset, a recomendação é neutra para os papéis da Embraer, mantendo com preço-alvo R$ 10.

Já para o Bradesco BBI, a recomendação é de venda, com preço-alvo de US$ 4 (R$ 21,24).

Em relatório, os analistas do banco avaliaram como positivo o corte recente de 12,5% da força de trabalho da empresa – com 900 demissões e 1,6 mil adesões ao plano de demissão voluntária.

A decisão ajuda a Embraer a reduzir custos fixos para superar a crise em que se encontra. Mas, ainda assim, a concorrência com a Airbus deve ser brutal. E não há, até o momento, nenhuma fusão, aquisição ou parceria em vista que seja capaz de impulsionar as ações para cima, concluem.