Moro relata pressão de Bolsonaro: “Quero apenas a PF do Rio”

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O ex-ministro da Justiça Sergio Moro relatou, em depoimento prestado no último sábado (2) na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Curitiba, ter recebido mensagem de Whatsapp que indicaria pressão do presidente Jair Bolsonaro pela escolha do comando da PF do Rio de Janeiro.

O depoimento, que durou oito horas e meia e acabou transcrito em dez páginas, foi divulgado na íntegra nesta terça (5). Diante de investigadores da PF e de procuradores, Moro disse que houve tentativas do presidente de interferir politicamente na corporação.

Deu detalhes de conversas, avisou que existem gravações de reuniões com ministros que podem comprovar essa declaração. Apresentou mensagens trocadas com o presidente sobre pedidos de exonerações do então chefe da PF. Reportou diálogos com ministros militares do governo sobre essas solicitações.

Moro confirmou aos investigadores em Curitiba o que tinha afirmado na data em que deixou o governo, no último dia 24 de abril. Disse que o presidente obrigou o então ministro da Justiça a trocar o comando da PF.

O depoimento relaciona também episódios e diálogos que ainda não tinham sido levados a público por Moro. O ex-ministro contou, por exemplo, que Bolsonaro fez a ele um pedido para nomear o superintendente da PF do Rio, em março último: “Você tem 27 superintendências, eu quero apenas a do Rio”, disse o presidente, segundo narrou o ex-ministro da Justiça na PF.

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Moro: ‘crime’ deve ser analisado por ‘instituições competentes’

De acordo com Moro, o presidente não explicou o interesse que tinha ao exigir esse posto.

Quando pediu demissão, no dia 24 de abril, Moro afirmou que Bolsonaro procurava interferir politicamente na PF, ao mandar demitir o agora ex-diretor-geral, Maurício Valeixo.

Moro afirmou aos investigadores da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR), que pediu apuração do caso e que não acusa Bolsonaro de um crime.

Ponderou que essa análise é de responsabilidade das ‘instituições competentes'”.

Mas, nas dez páginas do depoimento, Moro afirma ter sofrido pressão de Bolsonaro desde agosto de 2019 para indicar alguém de sua confiança para o comando da PF.

Entre os pedidos de Bolsonaro, havia o de trocar a superintendência da PF do Rio e de demitir Valeixo — o que resultou, no último dia 24, na saída de Moro do governo e na exoneração do diretor da PF.

No depoimento, Moro informou que não assinou a exoneração de Valeixo. Disse também que Bolsonaro sempre demonstrou interesse em interferir no comando da PF e que gostaria de ter no posto “alguém de sua confiança”.

Após a repercussão do depoimento, Bolsonaro disse que poderia se reunir com o advogado, ainda hoje, para debater sobre as acusações formalizadas.

O presidente voltou a afirmar que não tentou interferir na PF. Afirmou ainda que cogita divulgar trechos de conversas, em áudio e texto, com conteúdos que poderiam comprometer o ex-ministro, de acordo com o que publicou a Folha de S. Paulo.

Cobranças

Moro disse, no depoimento, que um dos motivos alegados por Bolsonaro para exonerar Valeixo foi uma “falta de empenho” na investigação de Adélio Bispo, no caso da facada contra o então candidato a presidente, antes do 1º turno das eleições de 2018.

O ex-juiz da Lava Jato afirmou que a investigação não prosseguiu por causa de uma decisão judicial, que impediu a perícia do celular de Adélio. Moro diz que Bolsonaro sabia dessa decisão da justiça.

Moro disse que Bolsonaro reclamava também da lentidão do processo que envolvia Bolsonaro e os filhos do presidente na investigação do assassinato da vereadora Marielle Franco, ocorrido em 2018, no Rio de Janeiro.

O presidente também cobrava de Moro sobre a investigação no STF de deputados ligados a Bolsonaro.

Gravações

Além desses relatos, o ex-juiz declarou que Bolsonaro precisa registrar à investigação as razões pelas quais considerava exonerar Maurício Valeixo. o diretor-geral da PF, trocando-o pelo diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem.

Moro assinalou que Ramagem é amigo de Bolsobaro e de seus filhos.

O depoimento menciona a data de 22 de abril, dois dias antes de sair do governo. Segundo Moro, nesse dia Bolsonaro insistiu, durante uma reunião ministerial, que fossem trocados o superintendente da PF do Rio de Janeiro e Valeixo. Pediu também relatórios de inteligência da PF.

Moro afirmou que, na mesma reunião, o presidente avisou que, caso não ocorressem as mudanças no posto de superintendente da PF do Rio, ele exoneraria o diretor-geral e o próprio então ministro da Justiça.

De acordo com Moro, há gravações dessas reuniões. Elas contaram com participações de chefes das pastas e assessores do Planalto.

Mais: no dia 23 de abril, depois de se reunir com Bolsonaro, Moro conversou a respeito da demissão de Valeixo com ministros militares do governo, como Walter Braga Netto, da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, e Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional.

Moro disse ainda que não assinou a exoneração do então chefe da PF.

O ex-juiz declarou ainda aos investigadores que guardou mensagens do presidente e que elas deveriam ser inclusas no inquérito aberto no STF, a pedido da Procuradoria Geral, para apura se as acusações de Moro são autênticas.

Bolsonaro responde a Moro

Na entrada do Alvorada, o presidente comentou sobre o depoimento de Sergio Moro à Polícia Federal, em que o ex-ministro teria entregado documentos para tentar comprovar a tentativa de interferência do presidente na PF.

“Vou ler com atenção o processo, talvez esteja o meu advogado hoje a noite aqui, para poder responder as demais acusações. Se bem, pelo que parece, em nenhum momento ele fala que eu cometi crime. E sim, o MP [Ministério Público], o ministro do Supremo, que é o dono do inquérito, deve me investigar, ouvir ministros e outras pessoas para dizer se talvez eu cometido um crime”, afirmou Bolsonaro.

Relatórios de inteligência

Segundo Bolsonaro, na última reunião de ministros com a participação de Sergio Moro, no dia 23 de abril, ele cobrou relatórios de inteligência de todas as forças de segurança do governo, não apenas da PF.

“Eu cobrei do serviço de inteligência da Aeronáutica, da Marinha, do Exército, da Abin [Agência Brasileira de Inteligência]… da Polícia Federal, relatórios de inteligência. Cobrei de público, tinha uns 20 ministros presentes, mais presidentes de bancos. Cobrei relatórios de inteligência. Não tem acusação de corrupção [contra mim]”.

“Isso é um crime”, diz Bolsonaro

Bolsonaro mostrou a jornalistas, conforme informou reportagem da Agência Brasil, trecho de uma troca de mensagens dele com o ex-ministro Sergio Moro, por aplicativo de celular, para comprovar que ele não estava tentando interferir na Polícia Federal (PF).

Também disse que o ex-ministro divulgou informações reservadas do governo para a imprensa.

Moro deixou o cargo de ministro da Justiça sob a justificativa de que o presidente estaria tentando a PF com objetivos políticos.

“O Sergio Moro foi correndo entregar o telefone para a Globo. Inclusive, ele tinha peças de relatórios pessoais de coisas que eu passava para ele. Entregar para a Globo isso? Isso é um crime federal, talvez em curso na Lei de Segurança Nacional”, afirmou o presidente na entrada do Palácio da Alvorada, residência oficial.

Troca de mensagens

O presidente se referia a uma troca de mensagens revelada pelo ex-ministro ao Jornal Nacional, da TV Globo, no último dia 24 de abril. De acordo com a reportagem da emissora, o presidente teria enviado uma matéria do site O Antagonista para o ex-ministro para justificar o pedido de troca de comando da Polícia Federal.

A matéria do site falava sobre a investigação, em inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), de “10 a 12” parlamentares aliados do governo.

“Isso [a reportagem] realmente eu passei pra ele”, disse o presidente.

Em seguida, ele mostrou parte da troca de mensagem entre os dois na qual Sergio Moro classifica como “fofoca” a notícia sobre a investigação de parlamentares aliados do presidente.

“É sinal que ele teve acesso ao processo, e diz que é fofoca”, acrescentou o presidente.

Bolsonaro também disse que o ex-ministro vazava informações que poderiam ter caráter confidencial. “Eu confiava nele, tanto é que passava passava extrato de informações com chefes de Estado e com inteligência de fora do Brasil”.

Interferência da PF

No mesmo dia da saída de Moro do governo, o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para apurar as declarações feitas pelo ex-ministro da Justiça, em coletiva realizada.

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal, autorizou, na segunda (27 de abril), a abertura de inquérito para apurar as declarações do ex-ministro da Justiça contra o presidente Jair Bolsonaro,

Na sexta, Celso de Mello determinou que a Polícia Federal teria prazo de cinco dias para ouvir as acusações de Sergio Moro contra Jair Bolsonaro. O que foi feito no sábado, em Curitiba.

O depoimento do ex-ministro da Justiça Sergio Moro na Superintendência da Polícia Federal, na capital paranaense, terminou no fim da noite do sábado (2). Teve duração aproximada de oito horas e meia.

Mudança no comando

Após a saída de Valeixo, Bolsonaro queria que o novo diretor-geral da PF fosse Alexandre Ramagem, conhecido da família Bolsonaro e amigo do filho Carlos, vereador no Rio de Janeiro pelo Republicanos.

Mas o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, barrou a posse de Ramagem, alegando “desvio de finalidade”.

Bolsonaro desistiu de Ramagem, mas acabou empossando Rolando Souza, bastante ligado a Ramagem.

O primeiro ato de Souza foi trocar a chefia da superintendência do Rio de Janeiro, foco de interesse da família de Jair Bolsonaro.

Carlos Henrique Oliveira, atual comandante do estado, foi convidado para ser o diretor-executivo, número dois na hierarquia da PF, deixando o comando do Rio de Janeiro, exatamente como queria o presidente.

Moro na defensiva

No depoimento na PF, Moro diz que ministros seriam testemunhas das acusações de interferência do presidente na PF.

No depoimento, Moro afirmou que Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional) e Walter Souza Braga Netto (Casa Civil) estavam presentes quando o presidente ameaçou demiti-lo por resistir a trocar Valeixo na diretoria-geral da PF.

Os ministros não se pronunciaram.

Foram orientados pela área jurídica do governo a não darem declarações públicas sobre as reuniões que participaram.

Mas Augusto Aras, o Procurador-Geral da República (PGR), pediu ao ministro relator do caso no STF, Celso de Mello, ouvir os três.

Agora, o ex-juiz afirmou, em documento enviado ao ministro Celso de Mello, que abriu mão do sigilo do depoimento de sábado, por querer evitar “interpretações dissociadas de todo o contexto das declarações”.

Diligências

O ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou hoje (5) as diligências solicitadas pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, no inquérito que apura suposta tentativa de interferência na Polícia Federal (PF).

Na mesma decisão, o ministro decidiu retirar o sigilo do depoimento prestado pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro à PF, no sábado (2).

Ao deixar o governo, Moro acusou o presidente Jair Bolsonaro de interferência na corporação.

No pedido encaminhado ontem (4) ao relator, Aras pediu autorização para a tomada de depoimento de três ministros, seis delegados da Polícia Federal (PF), da deputada Carla Zambelli (PSL-SP), além da realização de perícias.

As medidas foram tomadas após o Moro prestar depoimento.

Até às 21h30 de hoje, mesmo com a decisão favorável à retirada do sigilo, a oitiva do ex-ministro não tinha sido anexada ao andamento processual eletrônico do STF.

A defesa de Moro e a PGR concordaram com a retirada do sigilo.

“Os estatutos do poder, em uma República fundada em bases democráticas, não podem privilegiar o mistério nem legitimar o culto ao sigilo: consequente necessidade de este Inquérito transcorrer sob a égide do postulado da publicidade”, decidiu Celso de Mello.

No pedido encaminhado ao relator, o procurador-geral da República também solicitou a cópia de uma reunião realizada no dia 22 de abril entre o presidente Bolsonaro, o vice-presidente, ministros e presidentes de bancos públicos, e os comprovantes das assinaturas de exoneração a pedido do ex-diretor da PF Maurício Valeixo.

Desde a exoneração de Moro, o presidente nega que tenha pedido para o então ministro interferir em investigações da PF.

Trechos do depoimento de Moro

Eis alguns trechos do depoimento, divulgados hoje:

“Na Superintendência da Polícia Federal em Curitiba no Estado do Paraná, (…) Sergio Fernando Moro (declarou)

QUE perguntado sobre sua definição sobre interferência política do Poder Executivo em cargos de chefia no âmbito da Polícia Judiciária, respondeu que entende que seja uma interferência sem uma causa apontada e portanto arbitrária;

QUE durante o período que esteve à frente do Ministério da Justiça e Segurança Pública, houve solicitações do Presidente da República para substituição do Superintendente do Rio de Janeiro, com a indicação de um nome por ele, e depois para substituição do Diretor da Polícia Federal, e, novamente, do Superintendente da Polícia Federal no Estado do Rio de Janeiro, que teria substituído o anterior, novamente com indicação de nomes pelo presidente;

QUE na sua gestão preservou a autonomia da Polícia Federal, em relação a interferência política e pediu demissão no dia 24 de abril de 2020, com o mesmo objetivo (..)”

QUE durante a sua coletiva ocorrida em 24 de abril de 2020 narrou fatos verdadeiros, cujo objetivo era esclarecer os motivos de sua saída, preservar autonomia da Polícia Federal, da substituição de Diretor e de Superintendentes, sem causa e com desvio de finalidade, como reconhecimento posteriormente pelo próprio Supremo Tribunal Federal em decisão proferida no dia 29 de abril que suspendeu a posse do DPF ALEXANDRE RAMAGEM;

QUE perguntado se identificava nos fatos apresentados em sua coletiva alguma prática de crime por parte do Exmo. Presidente da República, esclarece que os fatos ali narrados são verdadeiros, que, não obstante, não afirmou que o presidente teria cometido algum crime;

QUE quem falou em crime foi a Procuradoria Geral da República na requisição de abertura de inquérito e agora entende que essa avaliação, quanto a prática de crime cabe às Instituições competentes;

QUE em agosto de 2019 houve uma solicitação por parte do Exmo. Presidente da República de substituição do Superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro, RICARDO SAAD;

QUE essa solicitação se deu de forma verbal, no Palácio do Planalto;

QUE não se recorda se houve troca de mensagens sobre esse assunto;

QUE não se recorda se alguém, além do declarante e do Exmo. Presidente da República tenha presenciado essa solicitação;

QUE no entanto, reportou esse fato tanto ao Diretor da Polícia Federal, MAURÍCIO VALEIXO, como ao Dr. SAAD; (…)

Reunião no Palácio do Planalto

Outros trechos mostram bastidores da saída de Moro no governo:

“QUE o Declarante reuniu-se em seguida com os ministros militares do Palácio do Planalto e relatou a reunião com o Presidente;

QUE a reunião foi com os Ministros Generais RAMOS, HELENO e BRAGA NETTO;

QUE o Declarante informou os motivos pelos quais não podia aceitar a substituição e também declarou que sairia do governo e seria obrigado a falar a verdade;

QUE na ocasião o Declarante falou dos pedidos do Presidente de obtenção de Relatórios de Inteligência da PF, que inclusive havia sido objeto de cobrança pelo Presidente na reunião de conselho de ministros, oportunidade na qual o Ministro HELENO afirmou que o tipo de relatório de inteligência que o Presidente queria não tinha como ser fornecido;

QUE os Ministros se comprometeram a tentar demover o Presidente,

QUE o Declarante retornou ao MJSP na esperança de a questão ser solucionada;

QUE logo depois vazou na imprensa que o Planalto substituiria VALEIXO e que, em decorrência, o Declarante sairia do governo;

QUE o MJSP foi contatado por muitos jornalistas e políticos querendo confirmar, mas que o Declarante entendia que não poderia confirmar, já que tinha esperança de que o Presidente mudaria de idéia;

QUE à tarde do dia 23 de abril de 2020, recebeu uma ligação do Ministro RAMOS indagando se seria possível uma solução intermediária, com a saída de VALEIXO, mas a nomeação de um dos nomes que o Declarante já havia informado antes, a saber: FABIANO BORDIGNON ou DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante informou que haveria um impacto ao governo e à sua credibilidade, mas que, garantida a nomeação técnica e de pessoa não proximamente ligada à familia do presidente, a solução seria aceitável;

QUE ligou para o Diretor VALEIXO, que concordou com a substituição sugerindo o nome de DISNEY ROSSETI;

QUE o Declarante ligou em seguida ao Ministro RAMOS e então manifestou a sua concordância, mas ressaltou que seria a única mudança e que não concordava com a troca pretendida do superintentdente da SR/RJ;

QUE o Ministro RAMOS ficou de levar a questão ao Presidente e de retornar, mas não o fez;

QUE à noite do dia 23 de abril de 2020, recebeu informações não oficiais de que o ato de exoneração do Diretor VALEIXO havia sido encaminhado para publicação;

QUE buscou a confirmação do fato no Planalto com os ministros BRAGA NETTO e RAMOS, tendo o primeiro informado que não sabia e o segundo informado que iria checar e retornar, mas não o fez;

QUE, durante a madrugada do dia 24 de abril de 2020, saiu a publicação, o que tornou irreversível a demissão do Declarante;

QUE o Declarante não assinou o decreto de exoneração de MAURÍCIO VALEIXO e não passou pelo Declarante qualquer pedido escrito ou formal de exoneração do Diretor VALEIXO;

QUE na manhã do dia 24 de abril de 2020, encontrou-se com VALEIXO e ele lhe disse que não teria assinado ou feito qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que, na noite do dia 23 de abril de 2020, teria recebido uma ligação do Planalto na qual o Presidente teria lhe dito que ele, VALEIXO, seria exonerado no dia seguinte e lhe perguntado se poderia ser “a pedido”;

QUE VALEIXO disse ao Declarante que como a decisão já estava tomada não poderia fazer nada para impedir, mas reiterou que não houve, nem partiu dele, qualquer pedido de exoneração;

QUE VALEIXO poderá esclarecer melhor o conteúdo dessa conversa;

QUE perguntado em regra, como ocorrem as exonerações no âmbito do Ministério da Justiça e como se dá o processo de assinatura no Diário Oficial da União, respondeu

QUE pedidos de nomeação e de exoneração são assinados eletronicamente pelo Declarante e enviados ao Palácio do Planalto;

QUE não delegava essa função a subordinados;

QUE decretos assinados pelo Presidente da República e em concurso com o Declarante, quando sua origem era um ato produzido pelo MJSP, o que seria o caso da exoneração do Diretor VALEIXO, sempre eram assinados previamente pelo Declarante, pelo sistema eletrônico SIDOF, antes de encaminhados ao Planalto;

QUE nunca, pelo que se recorda, viu antes um ato do MJSP ser publicado sem a sua assinatura, pelo menos, eletronicamente;

QUE em virtude do ocorrido decidu exonerar-se e informar em pronunciamento coletivo os motivos de sua saída;

QUE o Declarante entendeu que havia desvio de finalidade na exoneração do Diretor MAURÍCIO VALEIXO, à qual se seguiria a provável nomeação do DPF ALEXANDRE RAMAGEM, pessoa próxima à família do presidente, e as substituições de superintendentes, tudo isso sem causa e o que viabilizaria ao Presidente da República interagir diretamente com esses nomeados para colher, como admitido pelo próprio Presidente, o que ele chamava de relatórios de inteligência, como também admitido pelo próprio Presidente;

QUE reitera que prestou as declarações no seu pronunciamento público para esclarecer as circunstâncias de sua saída, para expor o desvio de finalidade já reconhecido pelo Supremo Tribunal Federal e com o objetivo de proteger a autonomia da Polícia Federal;

QUE reitera que em seu pronunciamento narrou fatos verdadeiros, mas, em nenhum momento, afirmou que o Presidente da República teria praticado um crime e que essa avaliação cabe às instituições competentes;

QUE posteriormente, no mesmo dia 24 de abril de 2020, o Presidente da República fez um pronunciamento no qual confirmou várias declarações feitas pelo Declarante, como a de que o presidente poderia substituir o Diretor Geral, os superintendentes, qualquer pessoa na pirâmide do Poder Executivo Federal; que o Presidente da República, apesar disso, apesar disso, não esclareceu o motivo pelo qual realizaria essas substituições, salvo que o Diretor VALEIXO estaria cansado mas, mais uma vez, o Declarante reitera que o cansaço do diretor VALEIXO era oriundo das pressões por suas substituição e de superintendentes;

Que o Presidente também reconheceu que uma da causas para a troca seria a falta de acesso a relatórios de inteligência da PF, mas que, como o Declarante já esclareceu acima, o Presidente já detinha esse acesso, do que legalmente poderia ser acessado, via SISBIM e ABIN;

Que ademais, como dito acima, nunca houve pelo Presidente, um pedido ao Declarante de algum relatório específico de inteligência propriamente dito e que, portanto, não teria sido atendido;

Que, quanto às informações ou relatórios sobtre investigações sigilosas em curso, o Presidente nunca pediu nada da espécie ao Declarante ou ao Diretor VALEIXO, até porque, ele sabe que não seria atendido;

Que o Presidente também alegou como motivo da exoneração de VALEIXO uma suposta falta de empenho da Polícia Federal na investigação de possíveis mandantes da tentativa de assassinato perpetrada por ADÉLIO;

Que a Polícia Federal de Minas Gerais fez um amplo trabalho de investigação e isso foi mostrado ao Presidente ainda no primeiro semestre do ano de 2019, numa reunião ocorrida no Palácio do Planalto, com a presença do Declarante, do Diretor VALEIXO, do Superintendente de Minas Gerais e com delegados responsáveis pelo caso;

Que na ocasião, o Presidente não apresentou qualquer contrariedade em relação ao que lhe foi apresentado;

Que essa apresentação ao Presidente decorreu da sua condição de vítima e ainda por questão de Segurança Nacional, entendendo o Declarante que não havia sigilo legal oponível ao Presidente pelas circunstâncias especiais;

Que a investigação sobre possíveis mandantes do crime não foi finalizada em razão de decisão judicial contrária ao exame do aparelho celular do advogado de ADÉLIO;

Que o Presidente tinha e tem pleno conhecimento desse óbice judicial;

Que o Declarante entende que antes do final das investigações não é possível concluir se ADÉLIO agiu ou não sozinho e que, de todo modo, o Declarante, ao contrário do que afirmado publicamente pelo Presidente da República na data de hoje (02 de maio de 2020) jamais obstruiu essa investigação, ao contrário, solicitou à Polícia Federal o máximo empenho e ainda chegou a informa à AGU, na pessoa do Ministro ANDRÉ MENDONÇA, da importância de que a AGU ingressasse na causa para defender o acesso ao celular, não pelo interesse pessoal do Presidente, mas também pelas questões relacionadas à Segurança Nacional;

Que o Presidente, no pronunciamento de sexta-feira 24 de abril, também reclamou da falta de empenho do Declarante e da Polícia Federal para esclarecer as declarações do porteiro de seu condomínio acerca do suposto envolvimento do Presidente no assassinato de MARIELLE e ANDERSON;”

 

*com Agência Brasil

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