Eleições americanas: com Biden ou Trump, ações vão continuar subindo

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / YouTube

Dia 3 de novembro terminam as eleições presidenciais norte-americanas. Os eleitores irão escolher se mantém o atual ocupante da Casa Branca, o republicano Donald Trump, ou se trocam de presidente, elegendo o democrata Joe Biden.

Para os investidores preocupados em como o mercado de ações reagirá com o resultado, a história oferece uma lição importante: as ações tendem a subir independentemente de qual partido controla Washington, mostra reportagem do The Wall Street Journal.

Uma análise dos dados do S&P 500 que remontam à década de 1930 revelou que certos padrões surgiram ao longo desses 90 anos.

BDRs, Day Trade, Unicórnios e novos IPOs.

Hoje é dia de insights para investir em 2021.

Os analistas perceberam que, em média, os mercados de ações e de títulos apresentam desempenho mais fraco no ano anterior às eleições presidenciais do que em outras épocas.

Em média, as ações proporcionam ganhos de cerca de 8,5% no ano. Mas no ano que antecede as eleições presidenciais, os ganhos totalizam menos de 6%.

Os mercados de títulos forneceram resultados semelhantes, com retornos de cerca de 6,5% no ano que antecedeu as eleições presidenciais, em comparação com os 7,5% dos demais anos.

O que normalmente acontece após as eleições

Existem algumas variáveis ​​que podem afetar o desempenho do mercado de ações, aponta o Wall Street Journal.

Depois de uma eleição, os retornos do mercado de ações tendem a ser um pouco menores no ano seguinte, enquanto os títulos tendem a apresentar um desempenho ligeiramente superior após a eleição.

Isso é estatística. História. Pode haver alguma exceção no futuro, claro.

Não parece fazer muita diferença qual partido assume o cargo.

Entretanto, faz diferença se o controle da Casa Branca muda de mãos. E isso é importante.

Quando um novo partido chega ao poder, os analistas descobriram que os ganhos do mercado de ações são, em média, de 5%.

Quando um presidente é reeleito ou um partido mantém o controle da Casa Branca, elegendo um sucessor, os retornos foram um pouco maiores, de 6,5%.

Além disso, o nome de quem é eleito presidente é apenas um fator a ser considerado.

Isso porque o controle do Senado é fundamental para trazer mudanças reais na política em relação a impostos, gastos e regulamentação.

Se os democratas tomarem o Senado nas eleições de 2020 (hoje, a maioria é Republicana), isso poderia resultar em impactos de curto prazo no mercado.

Uma varredura democrata teria um impacto ainda maior se os Democratas do Senado conseguissem eliminar a regra de obstrução, permitindo que os projetos fossem aprovados por maioria simples.

E se houver uma varredura, aumenta a possibilidade de impactos significativos no mercado.

No momento, uma varredura republicana parece extremamente improvável, e as chances de uma varredura Democrata aumentam constantemente.

Probabilidades altas

Hoje, republicanos são “donos” do Senado e da Casa Branca. Os Democratas, da Câmara dos Representantes (a Câmara dos Deputados deles).

Primeiro, entende-se que a chance de isso se manter é considerada de média para alta, o que manteria o impasse político que vemos hoje, por exemplo, com a dificuldade de aprovar um pacote de estímulo à economia.

A manutenção do quadro deixaria os mercados “amigáveis”, lembra o Wall Street Journal.

Entretanto, a chance dos democratas manterem a Câmara e pegarem a Casa Branca, com os Republicanos mantendo o Senado, é considerada de média para alta. Nada mudaria na questão do impasse político e o mercado ainda estaria “amigáveis”.

O mesmo acontece se os Democratas pegaram o Senado e mantiverem a Câmara, com os Republicanos reelegendo Trump: mercados “amigáveis” e o impasse político maior, porque o governo federal teria que negociar ainda mais com a oposição. Essa probabilidade é média apenas.

No caso de uma varrida dos Democratas, pegando Senado, Câmara e Casa Branca, probabilidade vista como média para alta, não haveria impasse político, mas a expectativa é de um mercado com maior volatilidade.

Probabilidades baixas

O mesmo acontece com a baixa probabilidade dos republicanos varrerem Congresso e Casa Branca.

Republicanos conseguirem maioria no Senado e na Câmara, com os democratas assumindo a Casa Branca, é visto como uma possibilidade extremamente baixa, o que manteria o impasse político, embora os mercados fossem “amigáveis” a essa alternativa.

Perto do impossível é chance de democratas assumirem a Casa Branca, o Senado e perderem a Câmara. Os mercados seriam “amigáveis” a essa possibilidade, que manteria o impasse político, atesta o Wall Street Journal.

Por fim, muito baixa é a chance de Republicanos continuarem na Casa Branca, tomarem a Câmara, mas perderem o Senado. Isso manteria o impasse e deixaria ainda os mercados “amigáveis”.

Histórico das eleições

Na análise de 90 anos do índice S&P 500, do terrível ano de 1929 a 2019, um partido controlou ambas as câmaras do Congresso e a presidência em 45 desses anos.

O S&P 500 em média subiu 7,45% durante esses anos. O índice subiu 30 vezes e caiu 15 vezes, diz a reportagem do The Wall Street Journal.

Nos outros 46 anos, quando houve uma divisão no governo (partidos diferentes controlando as casas do Congresso e a Casa Branca), o índice subiu 7,26% em média, subindo 29 vezes, caindo 16 vezes e permanecendo inalterado uma vez.

“Não estamos encorajando ninguém a tentar fazer algo heróico neste momento”, disse ao Wall Street Journal David Jilek, estrategista-chefe de investimentos da Gateway Investment Advisors, que ainda alertou que tudo pode acontecer nos mercados financeiros.

Eleições conturbadas

Além disso, há outro dado histórico que os investidores podem considerar.

O período entre o dia da eleição e o dia da posse tem sido bastante tranquilo para o mercado de ações.

Em 1968, 1976, 1980 e 1992 – todas as eleições que viram um novo partido ganhar a Casa Branca – nem o S&P 500 nem o Dow Jones moveram-se mais de 3,2% em qualquer direção.

Certamente, alguns ciclos eleitorais recentes foram diferentes. Sempre há exceções e essa é outra lição a se tirar.

Após a vitória surpresa do presidente Trump em 2016, o S&P 500 subiu 6,2% antes de sua posse nas apostas dos investidores por maiores gastos com infraestrutura, menores impostos corporativos e cortes nas regulamentações.

Em 2008, o índice despencou 20% do dia da eleição para o dia da posse, na esteira do desastroso colapso do Lehman Brothers.

E em 2000, o S&P 500 caiu 6,3% durante o mesmo período após a famosa eleição contestada entre o vice-presidente Al Gore e George W. Bush, que acabou vencendo.

Em 2020

Embora as preocupações de uma eleição contestada este ano tenham diminuído recentemente, à medida que a liderança do ex-vice-presidente Joe Biden (vice de Barack Obama) aumentou nas pesquisas, alguns analistas ainda estão fazendo comparações com 2000.

Naquela época, o mercado de ações era dominado por empresas de tecnologia, mas buscando nova liderança após o estouro da bolha pontocom.

A incerteza nos dias seguintes à eleição acelerou uma mudança no mercado, rememora o The Wall Street Journal.

Outra eleição caótica poderia produzir o mesmo resultado.

O Nasdaq Composite, de alta tecnologia, teve um desempenho muito inferior ao de seus pares no período após a disputa de 2000.

No dia seguinte à eleição, quando ficou claro que nem Bush nem Gore tinham os votos no colégio eleitoral necessários para garantir a vitória, o S&P 500 caiu 1,6% e o Dow caiu 0,6%. O Nasdaq perdeu 5,4%.

Há, sim, uma probabilidade de isso acontecer em 2020, embora uma chance que tenha se reduzido.

Contestação

Mais: há o problema da contestação de Trump com relação ao resultado, já que ele vem questionando o voto pelos correios há meses, chegando a interferir negativamente no serviço postal nacional.

Na segunda-feira (26), o plenário do Senado dos Estados Unidos vai votar, muito provavelmente a favor, a nomeação da juíza Amy Coney Barrett para a Suprema Corte.

Na quinta (22), o Comitê Judiciário da Casa aprovou a indicação da juíza por 12 votos a 0 — isto é, os dez senadores democratas do comitê se abstiveram de votar.

Com a juíza assumindo a cadeira vaga pela superstar progressista Ruth Bader Ginsburg, morta em 18 de setembro último, os conservadores ganham maioria e uma possível, embora remota, judicialização da eleição daria vantagem a Trump. Em tese.

Entretanto, isso seria péssimo para os mercados, como foi em 2000.

Haveria consequências em todo o mundo, incluindo o Ibovespa, no Brasil, que recentemente recuperou a marca dos 100 mil pontos.

Sistema eleitoral norte-americano

O sistema eleitoral dos EUA funciona por meio de colégios eleitorais.

Vence a disputa não quem tem maior número de votos, mas quem alcançar a maioria absoluta de votos dos delegados, ou seja, 270 dos 538.

Cada estado tem direito a um determinado número de delegados, proporcional à representatividade no Congresso. E essa é uma conta que o mundo dificilmente entende.

De acordo com as pesquisas eleitorais recorrentes, Biden venceria Trump facilmente se as eleições terminassem hoje. Tal prognóstico inclui estados que são historicamente Republicanos.

Mas é uma eleição altamente imprevisível.

Eleitores já foram às urnas

Até o dia 21 de outubro, quase 40 milhões de norte-americanos já votaram.

O número é do Projeto Eleições nos EUA (United States Elections Project), e equivale a 25% dos 156 milhões de eleitores registrados na última eleição presidencial, em 2016, segundo informa O Globo.

“Essa modalidade de voto ganhou mais adeptos em 2020, principalmente devido à pandemia do novo coronavírus”, escreve o jornal carioca.

“Em comparação, nessa mesma época em 2016, o número dos que já haviam votado era de 5,9 milhões de eleitores — ao todo, naquele ano, 57,2 milhões de americanos votaram antes do dia do pleito”, segue.

Não há obrigatoriedade de voto por lei. Vota quem quer. Por isso, os partidos precisam se esforçar não só para convencer o eleitor a apreciar sua plataforma de governo, como para fazê-lo votar de fato.

Como este ano é atípico, por conta da pandemia, espera-se um menor comparecimento às urnas e quem convencer mais eleitores do seu lado a votar pode sair vencedor.

Certamente, é um dos motivos da imprevisibilidade do pleito, que pode destruir qualquer pesquisa prévia.

Os mercados, claro, não gostam de incertezas. Se não houver um vencedor claro no dia da eleição, é provável que o mercado de ações experimente alguma volatilidade de curto prazo.

Casa Branca: setores da economia e políticas

Segundo a US Bank Association, que fez uma análise do impacto das eleições em alguns setores da economia, há impactos a serem observados.

De acordo com a organização, as políticas de ambos os candidatos podem afetar alguns setores e questões importantes.

O setor de saúde é aquele que frequentemente mostra maior volatilidade em uma eleição presidencial.

Saúde

Neste ano, os efeitos sentidos nas empresas de saúde dependerão dos resultados eleitorais. Se os Democratas vencerem, muitos preveem uma postura mais dura sobre os preços dos medicamentos, uma posição que pode pressionar as indústrias farmacêutica e de biotecnologia.

Além disso, a política do ex-vice-presidente Joe Biden que se afasta mais dramaticamente do status quo é uma opção pública de seguro-saúde.

Uma vitória no Biden pode sinalizar incertezas futuras ou mesmo fraquezas no setor.

Assim, essa fraqueza na saúde pode ser uma oportunidade de compra, dada a maior intervenção do governo para mudanças na apólice de seguro no passado.

Tecnologia

O destino de grandes ações de tecnologia parece marginalmente vinculado a uma vitória de Biden.

Contudo, se Trump vencer, a ação regulatória pode se intensificar em seu segundo mandato.

O Trump Administration Justice Department, liderado pelo procurador-geral William Barr, está se preparando para lançar uma ação antitruste contra várias grandes empresas de tecnologia.

Os Democratas podem tomar ações semelhantes, embora sua abordagem provavelmente seja menos rigorosa.

Comércio internacional

A política comercial não será afetada apenas por quem ocupa a Casa Branca, dados os amplos poderes comerciais concedidos ao Executivo, mas também se o Senado permanecer nas mãos dos Republicanos, porque o Congresso tem autoridade para aprovar novos acordos comerciais.

Além disso, Biden e Trump têm abordagens amplamente divergentes para o comércio e a questão do engajamento ou confronto com a China.

Por exemplo, Biden adotou um tom muito menos conflituoso e provavelmente tentaria mudar as práticas comerciais da China.

Em seu governo, a diplomacia internacional e as organizações multinacionais, como a Organização Mundial do Comércio, dariam o tom, em vez da abordagem amplamente unilateral da administração Trump.

Impostos

Se Biden se tornar presidente, ele prometeu não aumentar os impostos sobre indivíduos que ganham menos de US$ 400.000 por ano.

Ele planeja aumentar os impostos para indivíduos que ganham mais do que esse valor, mas alguns dos detalhes tornam seu plano de impostos menos progressivo do que parece inicialmente.

Os contribuintes de maior renda provavelmente irão recuperar a dedução total do imposto estadual e local sob o plano Biden, atualmente limitado pela lei tributária de 2017 do presidente Trump.

Entretanto, quando se trata de impostos corporativos, Biden precisaria de um Senado Democrata para aprovar seu plano de aumentar a alíquota estatutária de impostos corporativos para 28%, ante os atuais 21%.