Efeito manada: fuja desta armadilha nos investimentos!

Cristiane Donini
Socióloga, pesquisadora na área de Economia Comportamental e Psicologia Econômica.
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Você já deve ter ouvido a expressão efeito manada ou, no jargão popular, o comportamento “Maria-vai-com-as-outras”. Esse é um dos vieses comportamentais mais comuns e muito perigoso.

Por isso, neste artigo você vai saber o que é este viés comportamental e entender porque evitá-lo pode salvar sua vida financeira.

O que é e como surgiu a expressão efeito manada

Efeito manada é a atitude de fazer escolhas seguindo o comportamento de um grupo, sem analisar de forma crítica os motivos daquele comportamento. Em suma, equivale a agir por imitação pura e simples.

A imitação é o primeiro método de aprendizagem do ser humano desde o nascimento. Crianças pequenas imitam os gestos dos pais, e depois o de outras pessoas próximas. Ou seja, é da nossa natureza espelhar as atitudes dos grupos a que pertencemos.

Ao longo da vida, isso vai se repetindo. Lembra da sua adolescência, quando você fazia tudo o que fosse possível para pertencer ao grupo mais descolado da escola? Se vestia como eles, andava do mesmo jeito, ouvia o  mesmo tipo de música. Enfim, aposto que algumas vezes, você até ia a lugares que nem curtia tanto, mas, era onde todos iam.

Sim, o efeito manada nos acompanha desde sempre!

No livro “Sapiens – Uma breve história da humanidade”, Yuval Harari fala sobre o quanto foi importante ao longo da história, nossa capacidade de formar grupos e agir coletivamente. Conforme a obra, no caso dos nossos antepassados, andar em bandos e com isso se proteger de predadores, garantiu a continuidade da espécie.

O conceito de efeito manada surgiu da observação do comportamento instintivo de várias espécies animais, visando a proteção e sobrevivência.

Sobretudo, as finanças comportamentais apontam que o efeito manada é o responsável por levar os investidores a tomarem decisões baseadas na observação do que os outros estão fazendo, simplesmente pela crença de que se a maioria está seguindo determinado caminho, este deve ser o certo a fazer.

Por isso, aprender a evitar este viés de comportamento é fundamental para se proteger de potenciais danos nos investimentos.

Como o efeito manada acontece no cotidiano 

É provável que você já tenha ido a uma feira livre. Mais especificamente a uma banca de pastel. Você chega na feira, olha para duas bancas de pastel lado a lado. Uma lotada e com fila de espera, e a outra vazia. Em qual você vai?

Via de regra, as pessoas vão à banca que está lotada, mesmo havendo fila. Ou seja, tendemos a seguir o comportamento geral.

Quando você não tem informações suficientes (Qual banca faz o melhor pastel?) vai buscar referências no que os outros estão fazendo. Isto é, quanto mais pessoas tiverem feito uma determinada escolha, mais você se sente impelido a agir com o grupo. É o que a psicologia social chama de conforto da companhia. Você não quer errar sozinho, não é?

No ato de seguir comportamentos coletivos, está presente a aversão à perda: “todos vão se dar bem, eu não posso ficar de fora” e ainda o receio secreto: “os outros sabem algo que eu não sei”.

Pense mais uma vez em sua adolescência. Quando seus pais o proibiam de ir a uma festa, você rebatia: “Mas todo mundo vai”. E provavelmente a resposta era: “Se todo mundo pular de uma ponte, você também pula?” ou ainda, a clássica “você não é todo mundo”.

Essas respostas eram seus pais tentando te fazer sair da manada. Importante lição! Será que você aprendeu?

Se você não sabe pra onde ir, qualquer caminho serve.

(Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol)

A resposta que o gato Cheshire deu à Alice, serve para te alertar sobre o perigo do efeito manada. Quando pensamos em decisões financeiras, esse alerta vale ouro.

Leia até o final e entenda porque é importante sair da manada.

O efeito manada nos investimentos

Quando o assunto é investimentos, o risco de se deixar levar pelo comportamento coletivo é muito grande. Por exemplo, você vê no noticiário econômico que o número de investidores na B3 cresceu mais de 90% em 2020.

Se você ainda não investe em ações, ao ler esta notícia, sua primeira sensação é de que está perdendo oportunidades. A reação é querer entrar de imediato e comprar o que alguém te disse que está em alta e todos estão comprando.

É nessa hora que eu pego emprestado o bordão da sua mãe: Você não é todo mundo. Portanto, tenha cuidado. Deixar o destino da suas finanças ao sabor da euforia ou do pessimismo do mercado é muito arriscado.

Apesar do risco, esse tipo de comportamento é muito comum no mercado de capitais. Quando o Ibovespa está em alta, inúmeros investidores querem comprar ações, afinal, ninguém quer ficar de fora dos ganhos. Inversamente, quando o Ibovespa começa a cair, todos querem vender  e evitar perdas.

Além dos riscos individuais que este comportamento oferece, ele também contribui para a existência de bolhas especulativas, quando as bolsas sobem abruptamente, ou os crashs, quando ocorrem grandes quedas, sem que essas ocorrências estejam ligadas a fundamentos lógicos

Momentos em que a B3 viveu o efeito manada

Crises em curso no mercado sempre estão presentes. Algumas específicas em um segmento, outras de ordem macroeconômica. Isso faz parte dos ciclos de mercado e há mecanismos para se proteger dos efeitos dessas crises.

Há situações, entretanto, em que a reação do mercado a determinados acontecimentos torna-se exagerada. É quando observamos o efeito manada agindo sobre o emocional dos investidores.

A história do mercado financeiro no mundo todo acumula inúmeros exemplos dessas situações.

Continue a leitura e conheça dois casos recentes na bolsa de valores brasileira, onde o emocional do investidor se sobrepôs ao racional, trazendo perdas e também alguns aprendizados.

Joesley Day

 A crise política causada em maio de 2017 com a divulgação de um áudio entre Joesley Batista, da JBS, e o presidente Michel Temer, causou reações intensas no mercado.

A queda do Ibovespa em mais de 10% em menos de uma hora, fez com que a B3 acionasse o circuit-breaker (mecanismo usado para interromper as operações, visando acalmar os ânimos do mercado e restabelecer a racionalidade nas negociações).

O evento que viria a ficar conhecido no mercado como Joesley Day, resultou em quedas decorrentes do medo dos investidores que se movimentaram em bloco na mesma direção defensiva: vender suas posições.

Pandemia do coronavírus

Um exemplo recente do comportamento de manada dos investidores ocorreu em março de 2020, quando uma combinação de fatores levou incerteza e pânico aos mercados.

Queda no preço do petróleo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretando a pandemia global do coronavírus, e no Brasil uma crise política em andamento. Tudo isso culminou em queda histórica do Ibovespa: 30% no mês de março.

Entre 09 e 18 de março de 2020, houve seis momentos em que a B3 precisou acionar o circuit breaker. Um fato que nunca tinha ocorrido nesta magnitude.

Foi um momento em que o investidor precisou aprender da pior forma que o pânico é um péssimo conselheiro. Quem saiu vendendo sem refletir se havia lógica em fazê-lo, certamente perdeu dinheiro.

Por outro lado, aqueles que souberam controlar as emoções e tinham motivos sólidos que justificavam suas escolhas até então, tiveram boas oportunidades de compra, visto que as ações de excelentes empresas ficaram baratas naquele momento.

Como se proteger

Para não ser vítima do efeito manada, é importante ter uma estratégica clara, buscar informações consistentes com especialistas, entender as características de cada investimento e, sobretudo, desenvolver sua inteligência emocional.

Antes de tomar decisões de investimento, pondere se está preparado para manter a tranquilidade frente às oscilações do mercado e o foco nos seus objetivos.

  1. Defina metas

Para escolher os investimentos certos, você precisa ter claro o objetivo que tem com o dinheiro que está investindo.

  1. Faça um planejamento

Você tem metas a alcançar, portanto, precisa  traçar o roteiro que irá percorrer para isso. O que é preciso fazer? Quais as etapas? Em quanto tempo?

Um planejamento bem definido irá te ajudar a manter o foco.

  1. Controle suas emoções

Quando sentir-se tentado a abrir mão do seu plano para seguir o que a maioria está fazendo, reflita sobre suas reais motivações:

  • Por que eu quero fazer isso?
  • De que forma essa atitude irá me deixar mais próximo das minhas metas?
  • Tenho informações suficientes para tomar essa decisão?
  • Se isso der errado, estou preparado para as consequências?
  1. Mantenha o senso crítico

É muito importante saber questionar o senso comum e comparar as informações.

Avalie se há argumentos sólidos que justifiquem o comportamento coletivo e, por fim, reflita se segui-lo vai garantir que você cumpra o plano que traçou para alcançar suas metas.

Fazer este exercício irá te ajudar a racionalizar, evitando a tendência de seguir a onda.

Investir em ações de forma planejada, consciente e baseada em informações sólidas é uma excelente escolha. Assim como outras categorias de investimento também podem ser. O melhor investimento sempre será aquele que está de acordo com seus objetivos financeiros, momento de vida e perfil emocional.

Lembre-se que conhecimento é poder. Manter-se bem informado é o que irá te permitir saber quando seguir a maioria é uma boa estratégia e quando é apenas o seu emocional dominando suas escolhas.

(Por Cristiane Donini)

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