Dólar: Várias camadas de crise explicam disparada; cenário deve piorar

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

A alta do dólar já era gritante nas últimas semanas, em meio à crise do coronavírus e à tendência de queda da taxa básica de juros.

Mas a intensificação da crise política no Brasil causada pela saída do Ministro Sérgio Moro acrescentou outra camada de problemas que explicam a disparada da moeda norte-americana.

Hoje, o dólar passou de R$ 5,70, e se aproxima da marca histórica de R$ 6.

Como se não bastassem as más notícias, os especialistas ainda alertam que o cenário deve se agravar ainda mais, levando o dólar a novas máximas no futuro.

Coronavírus como pano de fundo

Com o avanço da pandemia mundial, investidores de todo mundo começaram a ter maior aversão ao risco.

Em busca de proteção, os investimentos migraram para alternativas mais seguras, deixando para trás os investimentos em países emergentes, como o Brasil.

Os investimentos em dólar são considerados como um porto seguro pelos investidores em momentos de turbulência. Isso fez com que a moeda se valorizasse muito nas últimas semanas.

“A pandemia trouxe um impacto econômico insesperado e jamais visto. O investidor partiu em busca de segurança”, explica Jefferson Laatus, estrategista chefe do grupo Laatus.

Queda do juros agravou o quadro

Para piorar a situação, o Banco Central decidiu reduzir ainda mais a taxa básica de juros (Selic) para tentar dar algum ânimo para a economia.

A tendência de baixa já vinha ocorrendo, e agora um novo corte na taxa está sendo esperado pelo mercado.

Com isso, os investidores têm uma razão adicional para retirar o capital dos investimentos no Brasil.

Isso ocorre porque a Selic é a taxa referência para a rentabilidade de muitos tipos de investimentos em real. Com isso, a atratividade local diminui ainda mais.

Crise política é a cobertura do bolo

Por si só, a crise do novo coronavírus já seria o suficiente para chacoalhar o câmbio. No entanto, o que deu mais um empurrão para a cotação da moeda foi a crise política brasileira.

Hoje, a saída do ministro Sérgio Moro acentuou o desgaste do governo de Jair Bolsonaro, que já havia sido impactado por vários motivos.

Um dos mais emblemáticos foi a demissão do ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Mais recentemente, o anúncio do Plano Pró-Brasil sem a presença do ministro da economia, Paulo Guedes, ajudou no desgaste.

O grande temor do mercado é uma queda de Guedes, que era visto como o possível salvador da economia brasileira na época das eleições.

“A crise política vem roubando a cena, há desgaste de todos os lados”, explica Laatus.

Segundo Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest, as tensões políticas acertam em cheio a confiança dos investidores no país. “O investidor vê com maus olhos a falta de coordenação política e acaba não querendo investir aqui”, explica.

Por isso, ela destaca que a desvalorização do real ante o dólar tem sido maior do que outras moedas emergentes.

Cenário deve piorar para o dólar

Diante da várias camadas de problemas, o cenário para o dólar tende a se agravar, na visão dos especialistas.

De um lado, a saída de Moro deve trazer ainda mais calor ao debate político. “O tom deve subir cada vez mais”, avalia Laatus.

Além disso, o contexto da pandemia mundial continua gerando grandes preocupações.

Não bastassem as questões de saúde, a desaceleração econômica mundial também cria condições críticas para a economia brasileira, levando o dólar para as alturas.

“É bem provável que o dólar siga bem pressionado por causa de toda essa incerteza que estamos vivendo”, afirma Cristiane.

Na visão do diretor de estratégia e Inovacao da Meu Câmbio, Mathias Fischer, o mercado vai aguardar agora as definições de nomes no governo e atuações do Banco Central, mas continuará buscando proteção.

“Nossa visão é que a tendência de alta continua”, destacou.