Dívidas de empresas saltam em dólar, mas sem efeito caixa

Marco Antônio Lopes
Editor. Jornalista desde 1992, trabalhou na revista Playboy, abril.com, revista Homem Vogue, Grandes Guerras, Universo Masculino, jornal Meia Hora (SP e RJ) e no portal R7 (editor em Internacional, Home, Entretenimento, Esportes e Hora 7). Colaborador nas revistas Superinteressante, Nova, Placar e Quatro Rodas. Autor do livro Bruce Lee Definitivo (editora Conrad)

Crédito: Divulgação

Em meio à disparada do dólar, que acumula alta de 46,10% em um ano, grandes empresas registraram prejuízos bilionários.

Com boa parte das dívidas em dólar, as empresas foram obrigadas a registrar as perdas com variação cambial.

Mesmo que não tenham efeito sobre o caixa, companhias como Petrobras, Suzano e JBS amargaram enormes prejuízos.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, citando dados do Banco Central, a dívida total em dólar das empresas no Brasil está em US$ 482 bilhões – o equivalente hoje a R$ 2,846 trilhões, ante R$ 1,939 trilhão em janeiro.

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Petrobras (PETR3 PETR4) no primeiro trimestre

A Petrobras (PETR3 PETR4) registrou prejuízo líquido de R$ 48,523 bilhões no primeiro trimestre deste ano e atribuiu o resultado ao dólar.

De acordo com a petroleira, o prejuízo ocorreu principalmente devido ao impairment (perdas por desvalorização de ativos)de R$ 65,3 bilhões.

A revisão das premissas de longo prazo para o Brent frente ao novo cenário mundial também contribuíram para esse número.

A estatal explicou: “Nossos resultados também foram impactados pela queda do Brent e pelas perdas com variação cambial decorrentes da forte desvalorização do real frente ao dólar”, acrescentou.

O resultado financeiro negativo somou R$ 21,178 bilhões, alta de 221% ante o quarto trimestre e aumento de 151% frente o primeiro trimestre do ano passado.

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Variação cambial

Segundo a empresa, o aumento é oriundo, principalmente, da maior despesa com variação cambial e monetária.

Já o Ebitda ajustado recorrente chegou R$ 36,925 bilhões, avanço de 27% no ano.

Esses números revelam indicativos, como aponta relatório da Elite Investimentos: “Apesar do prejuízo bilionário reportado no primeiro trimestre, o Ebitda e o fluxo de caixa livre ficaram acima das projeções.”

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A Elite explica: “A petroleira demonstrou um bom desempenho operacional, um comprometimento na redução do seu lifting cost e despesas operacionais, e uma boa geração de caixa livre e operacional. A empresa conseguiu minimizar os efeitos da crise no curto prazo,por ter um lifting cost baixo em relação a outros players.”

Análise de relatório da BTG Pactual também ressalta o desempenho da empresa, pontuando: “O Ebitida ficou estável em relação ao último trimestre. A cifra de R $ 37 bilhões, no primeiro trimestre, ficou 23% acima das nossas expectativas, apesar dos preços mais baixos do petróleo.

O BTG lembra ainda que “a perda líquida de R$ 48 bilhões reflete principalmente despesas não-operacionais e um montante de R$ 65 bilhões relacionado ao impacto da desvalorização do real na dívida da empresa em moeda estrangeira.”

Suzano (SUZB3) reporta prejuízo, mas tem bons números

A Suzano reportou prejuízo líquido de R$ 13,4 bilhões no primeiro trimestre de 2020, alta de 10,9 vezes ante o prejuízo de R$ 1,229 bilhão de igual período do ano anterior.

Os números também foram fortemente impactados pela desvalorização do real contra o dólar na dívida em moeda estrangeira do grupo.

A informação consta do balanço da companhia divulgado nesta quinta-feira (14), informando que a linha de variação cambial foi negativa em R$ 12,4 bilhões em meio à valorização de 29% do dólar ante o real do período.

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De acordo com a empresa, o impacto sobre o resultado terá “efeito caixa somente nos respectivos vencimentos” da dívida.

Outro indicador que veio abaixo foi o resultado de operações com derivativos de cerca de R$ 9 bilhões, também afetado pelo câmbio.

Mas o crescimento do Ebitida ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de, 10%, somou R$ 3,03 bilhões.

A projeção dos analistas para o Ebitda era de R$ 2,45 bilhões, segundo dados da Refinitiv.

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Análise Suzano

Em relatório a clientes, o BTG Pactual avaliou positivamente o resultado da Suzano, mesmo diante do prejuízo reportado.

Segundo os analistas Leonardo Correa e Caio Greiner, o destaque ficou por conta do Ebitda, que ficou 21% acima do estimado pela instituição: “O Ebitida foi de R$ 3,02 bilhões, 21% ao estimado por nós. E foi 23% a mais que o trismestre anterior e 10% maior que o do mesmo período em 2019.”

“Atribuímos o ritmo principalmente a volumes de celulose muito mais fortes (16% acima do esperado) e menores custos de caixa de celulose (-8%)”, analisam.

Os analistas da BTG assinalam: “Consideramos esses resultados de alta qualidade, com boa geração de fluxo de caixa livre, estocagem de celulose para níveis normalizados, custos de madeira muito mais baixos, captura de sinergia intacta.”

“A dívida líquida da Suzano aumentou acentuadamente para R$ 66 bilhões (em linha com a que esperávamos), principalmente devido ao efeito da forte depreciação do real sobre sua dívida em dólar”, aponta o BTG.

“Mas a estratégia de hedge da empresa gerará bilhões em perdas (dependendo do câmbio, em torno de R $ 5,7 bilhões nos próximos dois anos), mas acreditamos que isso seja amplamente precificado pelo mercado”, pondera o relatório.

“No geral, continuamos argumentando que esse nível de câmbio gera um aumento substancial para os acionistas, mesmo com essas perdas temporárias”, acrescentam.

JBS (JBSS3) e o fator câmbio

O frigorífico JBS (JBSS3) teve prejuízo de R$ 5,9 bilhões no primeiro trimestre de 2020 por conta do fator câmbio.

Significa dizer que as operações da companhia foram afetadas pela forte valorização do dólar frente ao real.

Em igual período do ano passado, a empresa havia obtido lucro de R$ 1,09 bilhão.

De acordo a empresa, o resultado foi impactado pelo efeito não caixa da variação cambial de R$ 8,2 bilhões no primeiro trimestre do ano.

Sem o efeito da variação, a JBS teria reportado lucro líquido ajustado de R$ 803,2 milhões.

JBSS3: plano operacional

Já no plano operacional, a receita líquida somou R$ 56,5 bilhões, alta de 27,3%, com elevação em todas as linhas de negócios no comparativo anual

Conforme o balanço, o destaque ficou por conta da JBS USA Beef, com alta de 21,8%, a Pilgrim’s Pride, com alta de +33,5%, e a Seara, com alta de 39%.

Segundo o relatório, tanto a JBS USA Beef quanto a Pilgrim’s Pride foram impactadas pela variação cambial do período.

Já o resultado operacional medido pelo Ebitda (lucro antes de impostos, juros, depreciação e amortização) ajustado foi de R$ 3,9 bilhões, aumento de 22,6% no comparativo anual.

Segundo a empresa, além da linha financeira, o efeito cambial também fez a dívida líquida da companhia aumentar de R$ 48,7 bilhões para R$ 57 bilhões.

Consta no relatório que a JBS fechou o trimestre com R$ 18,5 bilhões em caixa.

Azul (AZUL4): variação cambial e marcação a mercado

Azul (AZUL4) reportou um prejuízo de R$ 6,135 bilhões no primeiro trimestre de 2020, revertendo o lucro líquido de R$ 125,3 milhões no mesmo período de 2019.

De acordo com a companhia, o resultado foi impactado negativamente pelas perdas com hedge, depreciação do real e pelo ajuste do valor da sua fatia na TAP.

O prejuízo excluindo variação cambial e marcação a mercado totalizou R$ 975,3 milhões, principalmente relacionado com o ajuste do valor justo de sua participação na TAP de R$ 618,5 milhões e as perdas com hedge de combustível.

O lucro antes juros, impostos, depreciação e amortização (Ebtida, na sigla em inglês) somou R$ 654,2 milhões no período, uma retração de 9,7%.

A margem Ebtida alcançou 23,3%, baixa de 5,1 pontos percentuais.

Os custos e despesas operacionais somaram R$ 2,629 bilhões, um aumento de 19,8%.

O resultado financeiro foi uma despesa de R$ 5,941 bilhões no trimestre, um crescimento de 24,8 vezes sobre as perdas financeiras de igual período do ano passado.azul-resultado-financeiro

A Azul explica que o resultado foi impactado pelas perdas com hedges, depreciação do real e o aumento da dívida relacionada a aquisição de 20 aeronaves.

Impacto no balanço da Sabesp (SBSP3)

A Sabesp (SBSP3) reportou um prejuízo de R$ 657,9 milhões no primeiro trimestre de 2020, revertendo o lucro líquido de R$ 647,3 milhões no mesmo período de 2019.

Segundo a empresa, o resultado foi influenciado pela valorização do dólar e do iene frente ao real, afetando de forma relevante as despesas financeiras sobre empréstimos e financiamentos em moeda estrangeira.

O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês) ajustado somou R$ 1,483 bilhões, uma redução de 3,9%.

A margem Ebitda ajustado ficou em 36,7%, baixa de 3,1 pontos percentuais.

O resultado financeiro foi uma despesa de R$ 1,980 bilhão no período, um aumento de R$ 1,829 bilhão em comparação com as perdas de igual período do ano passado.

A empresa explica que o resultado foi impactado principalmente pelas variações cambiais sobre empréstimos e financiamentos. A desvalorização do real perante ao dólar e o iene.

Os custos e despesas somaram R$ 2,536 bilhões, uma elevação de 17,6%.sabesp-balanco-minFonte: Sabesp

Análise da Sabesp

A XP investimentos avaliou: “Temos uma avaliação negativa dos resultados do primeiro trimestre da Sabesp, dado que os números do EBITDA ajustado ficaram abaixo das estimativas e do consenso.”

“Também destacamos como negativo o impacto significativo da variação monetária da depreciação do real sobre a parcela significativa dos passivos denominados em moeda estrangeira”, completa.

“Mas esse efeito deva ser menor daqui em diante após a conversão da dívida de US$ 494,6 mihões com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para reais”, pondera a análise da XP.

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