Disputa pela Laureate acaba dia 13: entenda o que está em jogo

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

Ser Educacional (SEER3), Yduqs (YDUQ3) e Ânima (ANIM3), três dos maiores grupos educacionais do país, travam uma disputa pela norte-americana Laureate.

Em jogo, estão 11 instituições de ensino, 50 campi e 267 mil alunos. Mas, mais do que isso, o que essas empresas buscam é a liderança em um setor que vem sofrendo fortemente os efeitos da pandemia, mas que, no longo prazo, poderá ser muito favorecido por estes movimentos de fusão e aquisição.

Entenda nesta reportagem por que a Laureate está sendo tão cobiçada e quem deve levar a melhor nesta disputa.

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Disputa tem data marcada para acabar

Tem data marcada o fim da disputa pela Laureate. Até 13 de outubro podem ser apresentadas propostas de compra pela empresa de educação norte-americana.

Isto acontece porque, em uma jogada inicial, o grupo Ser Educacional fez uma proposta que continha uma cláusula de “go shop”, ou seja, aberta a receber outras ofertas por determinado período.

O lance total da Ser, entre pagamentos, ações e incorporação de dívida, é estimado em R$ 4 bilhões.

A Yduqs, que há tempos ensaiava fazer uma oferta pela Laureate, foi pega de surpresa pela movimentação e reagiu apontando que tem condições de fazer uma proposta melhor.

Na sequência, Ânima e Cruzeiro do Sul se mostraram interessadas, mas também não oficializaram uma oferta.

O fato é que, para garantir o negócio, qualquer uma delas precisará apresentar números mais agressivos.

Caso nada surpreendente se apresente até dia 13, o negócio com a Ser Educacional (SEER3) estará fechado, dependendo apenas da aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

De olho no market share

A disputa pela Laureate acontece porque, na verdade, todos buscam uma fatia maior do mercado da educação.

A Ser Educacional andaria várias casas na busca pela liderança, chegando mais perto das líderes Cogna e Yduqs. Ela iria do oitavo para o quarto lugar, com 450 mil estudantes.

Já a Yduqs chegaria à liderança, com 1 milhão de alunos, ultrapassando a Cogna (COGN3), hoje o maior grupo educacional do país, com 844 mil estudantes.

“A educação, e o ensino superior em particular, não possui muitos ativos à venda. Então, para quem quer expandir via aquisição, a Laureate é uma das poucas oportunidades”, afirma Fernando Siqueira, gestor da Infinity Asset.

Fora isto, os ativos da empresa são bons. Ela é mais conhecida pelas marcas FMU e Anhembi Morumbi, em São Paulo. Mas dispõe de muitas vagas em cursos de medicina, área sempre apontada como propícia ao crescimento. Isto porque os estudantes de medicina pagam altas mensalidades e muito dificilmente abandonam o curso. “A evasão é muito baixa. E como há pouca oferta de cursos de medicina, se alguém sai, você repõe rapidamente”, explica Siqueira.

Outro ponto que pode ser uma oportunidade é a implantação do ensino online nas instituições da Laureate. “A empresa não vinha conseguindo extrair muito desses ativos. E os interessados que se apresentam têm potencial para melhorar a operação, especialmente no ensino a distância”, diz.

Ser segue como favorita

O desenho apresentado até aqui leva a crer que a Ser Educacional ficará mesmo com a Laureate. São duas as razões para isso.

A primeira é que ela leva vantagem junto ao Cade. Segundo a consultoria Hoper, entre as três maiores empresas interessadas na compra da Laureate (Ser, Yduqs e Ânima), apenas a Yduqs poderia enfrentar problemas de concentração de mercado junto ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). A concentração aconteceria no Rio de Janeiro, onde a Yduqs já detém 33,4% do mercado.

Além disso, caso a Laureate desista do negócio com a Ser, terá de pagar uma multa de R$ 180 milhões, como prevê o contrato firmado.

Com a concretização do negócio, o atual controlador e fundador do Grupo Ser, Janguiê Diniz, continuará no comando da empresa. Ele hoje detém 57,36% das ações e passará a deter 32,1% da nova companhia. Ainda assim, será o maior acionista individual e com direitos de acionista principal.

O que pode pesar diante das outras ofertas

Nos bastidores, a americana Laureate tem declarado que pretende se desfazer de todo o negócio de educação fora dos Estados Unidos até o fim deste ano. Por essa razão, uma proposta em dinheiro, sem troca de ações, seria mais bem vista pela matriz. E daí reside uma boa chance para a Yduqs.

“A Yduqs tem uma posição financeira melhor do que a Ser. Se pagarem em dinheiro, pode ser que levem. No entanto, existe a questão do Cade”, pondera Siqueira.

Para ele, muito dificilmente os outros interessados, além e Ser e Yduqs, devem apresentar proposta significativa, por se encontrarem em situação financeira mais delicada.

Uma possibilidade que ele aponta é a Yduqs ficar com a Laureate e, caso o Cade se oponha ao negócio, a empresa passar por um fatiamento, com os grupos menores assumindo alguns ativos.

Por que a Laureate quer deixar o país?

A Laureate é uma empresa norte-americana presente em diversos continentes. Recentemente, ela deu início a um processo de desinvestimento, a fim de pagar dívidas e se reestruturar.

A empresa já deixou o Chile e iniciou vendas no Peru, no México, na Austrália e na Nova Zelândia. Esta semana, vendeu a Inti Education, da Malásia, para a Hope Education Group, de Hong Kong, por US$ 140 milhões.

Desfazer-se das instituições no Brasil faz parte deste plano global.

“Há tempos atrás, a Laureate realizou um enorme esforço de expansão pelo mundo. Ela voava em céu de brigadeiro e realizou diversas aquisições. No Brasil, começou com a compra da Anhembi Morumbi”, lembra Carlos Monteiro, consultor de gestão estratégica para instituições de ensino superior.

Depois, ele afirma, a Laureate foi adquirindo a Universidade Potiguar em Natal, a Unifacs, na Bahia, a Uninorte, em Manaus, a Universidade Ritter dos Reis, em Porto Alegre, e a UniFMU, de São Paulo. “Após toda essa euforia compradora, a Laureate resolveu se desfazer dos ativos”, ele diz.

Para ele, as jogadas estratégicas da companhia foram apostas mal feitas, tanto do ponto de vista da gestão quanto acadêmico.

“O modelo acadêmico não seguiu o modelo de rede. Cada instituição adquirida seguia seu próprio modelo. Portanto, os ganhos de escala eram ínfimos ou inexistentes”, explica.

No segundo trimestre deste ano, a Laureate global relatou um prejuízo de US$ 307,8 milhões.

De acordo com comunicado da Ser, no Brasil, a receita líquida da Laureate no Brasil foi de R$ 2,2 bilhões nos 12 meses findos em 31 de março de 2020. E o Ebitda (lucro antes de juros) foi de R$ 413 milhões.

A dívida líquida, excluindo endividamento com a matriz, é de R$ 623,3 milhões. O cálculo foi feito com base na contabilidade da Ser e com informações gerenciais não auditadas.

Setor passa por dificuldades

A verdade é que, apesar da disputa que envolve milhões sugerir o contrário, o setor de educação atravessa um momento muito ruim. E quem investe nele deve ter em mente que a recuperação virá no longo prazo.

“A educação superior depende de emprego. Eu tenho emprego, tenho salário, consigo pagar a faculdade. Mas isto desde que eu acredite que vou ter esse salário por três, quatro anos”, diz Siqueira. “O cenário não está nada favorável, estamos em um ciclo econômico ruim”, complementa.

O setor já vinha de um baque sofrido com a redução drástica do financiamento estudantil via Fies. E veio, então, a pandemia, que acertou em cheio a educação.

Primeiro, com a necessidade do distanciamento social para impedir a proliferação do vírus, que fechou as salas de aula.

Depois, de maneira inesperada, as escolas tiveram que investir pesado na transição para um modelo digital de ensino.

Na sequência veio a inadimplência e a evasão, com a renda familiar ficando incompatível com a manutenção da mensalidade.

Por fim, o gasto com pessoal, que representa boa parte dos custos de uma escola, não pode ser reduzido de maneira significativa, mesmo com as salas de aula  fechadas.

Como resultado, as empresas do setor tiveram resultados muito ruins, especialmente no segundo trimestre – o mais impactado pela crise que teve início no Brasil no final de março.

Cogna (COGN3) teve um prejuízo de R$ 451 milhões. A Yduqs (YDUQ3), prejuízo de R$ 79,5 milhões.

O grupo Ser Educacional (SEER3) registou lucro de 54,7 milhões, mas ainda assim com perda de 7,3% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Já a Ânima surpreendeu, mesmo com cenário de pandemia. Ela reverteu prejuízo em lucro de R$ 8,9 milhões. E teve queda na taxa de evasão de 6,7% para 6,5%.