Desvalorização cambial persistente acende ‘sinal amarelo’ no BC

Marcello Sigwalt
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O baixo nível de atividade econômica, aliado à desvalorização veloz do real nos últimos dias, acendeu o sinal amarelo em torno da atuação do Banco Central (BC) no mercado cambial nas próximas semanas, período em que o quadro dos ‘estragos’ causados pelo novo coronavírus deverá ficar mais nítido.

Enquanto isso, predomina a dúvida dos especialistas quanto à melhor calibragem da autarquia para manter o câmbio em equilíbrio, lançando mão de leilões de swap, em volumes maiores, na tentativa de conter a disparada da moeda norte-americana.

“Temos reservas da ordem de US$ 350 bilhões. Portanto, o BC tem bala na agulha para fazer intervenções mais significativas”, avalia o economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Mauro Rochlin, que considera “tímida” a atuação da autarquia, cujos leilões de swap ainda são considerados pequenos pelo mercado..

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Remédios eficazes

Como ‘remédios’ mais eficazes para arrefecer o ímpeto da desvalorização cambial, Rochlin receita a venda de um volume maior de swaps, combinada com a venda expressiva de reservas cambiais no mercado spot, mas ele faz uma ressalva.

“Seria mais interessante que o BC realizasse reuniões extraordinárias, ou seja, sem anúncio prévio ao mercado, com o objetivo de manter a Selic em 4,25% ao ano, contrariando a tendência do mercado de apostar numa queda mais acentuada da taxa”.

O fator surpresa, no mercado e na guerra, daria, assim, menos munição aos especuladores de plantão, no entendimento do economista da FGV.

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Fuga de capitais

Essa decisão de ‘segurar’ a Selic, segundo ele, manteria a sua atratividade em relação à taxa de juros norte-americana, cortada em meio ponto percentual pelo Federal Reserve (Fed), recentemente. Nos últimos três anos, a Selic despencou de 14% para 4%, acentuando a fuga de capitais no período.

“Manter estável a taxa significa, além de aumentar o spread e a rentabilidade dos títulos brasileiros (em comparação com o similar ianque), favorece, na ponta, a estabilidade cambial e de preços no país”, explica o economista.

A última ata do Copom, porém, deixou subentendido que o BC deverá baixar ainda mais a Selic na sua próxima reunião, a princípio, prevista para o próximo dia 18. “Mais do que saber onde pode ganhar, o investidor está mais interessado em descobrir onde não vai perder com essa crise”, analisa Rochlin.

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Sobre a epidemia global, o economista da FGV disse acreditar que “os fatos (relacionados à doença) sejam menos graves do que a interpretação desses, embora o mercado se mova pelas versões, não pelos fatos”, ironiza.

Por fim, Rochlin lembra que a desvalorização cambial atinge hoje de forma indistinta todas as moedas dos países emergentes (Argentina, Chile e Turquia) que, apesar de possuírem economias mais frágeis que a brasileira, estão sendo menos cobiçadas pelos especuladores, ao contrário do real.

Pressão inflacionária

Sobre a sinalização do Comitê de Política Econômica (Copom) do BC, de que pretende reduzir, ainda mais a Selic – para 3,5% ao ano – até o final do ano, o economista-chefe da Arazul Capital, Rafael Leão, diz que a medida poderá exercer nova pressão sobre os preços internos.

“O BC deve manter as intervenções com swap para deter as oscilações do mercado cambial, até porque a apreciação excessiva do câmbio acaba tendo impacto inflacionário mais à frente”.

Leão explica, também, que o governo federal ainda não precisou recorrer às reservas cambiais do país para conter movimentos especulativos. “No ano passado, apenas parte delas foi aplicada na redução da dívida bruta do país”.

Um dos termômetros da volatilidade dominante, os juros futuros DI para 2023, em apenas um dia – de quarta (4) para quinta-feira (5) – subiram meio ponto percentual, passando de 4,74% para 5,2% ao ano.

Ao contrário do pensamento corrente, Leão sustenta que a aversão ao risco em relação a países emergentes, como o Brasil, já estava em curso antes do aparecimento do novo coronavírus (COVID-19). “A propagação global da doença só acelerou um processo em curso, que se expressa na desvalorização diária da moeda nacional”.

Em lugar da epidemia global, o economista-chefe chama a atenção para o crescente déficit do balanço de pagamentos do país, que chegou a US$ 50,762 bilhões no ano passado, embora este tenha sido inteiramente coberto pelo investimento direto, que superou os US$ 79 bilhões, em igual período.

Crise à vista

Leão vai além e ‘fareja’ o cheiro de uma crise financeira internacional às portas. “Com o câmbio futuro já precificado em R$ 5, talvez o governo seja obrigado a tomar medidas impopulares, complicando, ainda mais, o avanço das reformas no Congresso”, avalia.

Na sua avaliação, os problemas econômicos decorrentes de uma guerra comercial – como a protagonizada por EUA e China – serviram de terreno fértil para políticas nacionalistas, o que também prejudica as exportações brasileiras àqueles mercados.

O economista-chefe aponta que o conflito comercial entre os Estados Unidos e a China também contribuiu de forma decisiva para deprimir o movimento das exportações brasileiras para o país asiático, que se encontra em franca desaceleração econômica.

A natureza da economia brasileira, que possui maior capacidade de captação líquida que os demais emergentes, acaba sendo uma desvantagem para o país, assinala Leão, por atrair um tipo de investidor interessado “somente em fazer hedge, se capitalizar aqui, partindo, em seguida, para outro mercado”.

No campo doméstico, o economista-chefe comenta que a turbulência política recorrente no Brasil ajudou a intensificar a fuga de capitais do mercado nacional, que aguarda definições importantes na pauta de votações do Congresso, como a reforma tributária, trabalhista, entre outras.

Nesse aspecto, Leão propõe que poderia ser adotado, em caráter de emergência, um dispositivo legal que permitisse ao Executivo manobrar o Orçamento, em favor da conclusão de obras paralisadas, “o que melhoraria o nível de investimento e a atividade econômica”.

Retomada

Embora considere haver pouco espaço atualmente para empreender uma política fiscal ‘em profundidade’, Rochlin ressalta que ela é o único antídoto para o veneno do crescimento pífio, ou ‘pibinho’, para alguns, como o de 1,1% do PIB, no ano passado.

“Acho que a redução de juros teria menos eficácia para incentivar a atividade do que medidas na direção das reformas. Se um acordo entre o governo e o Congresso fosse viável, as reformas poderiam ser encaminhadas mais rapidamente”, avalia o economista da FGV, para quem a iniciativa poderia aumentar o nível de confiança dos investidores e das famílias, mesmo que no médio prazo.

Nessa seara política, porém, permanece a dúvida com relação à (real) capacidade de articulação política do Executivo. “Grande parte do crédito pela aprovação da reforma da Previdência se deve, sobretudo, ao Congresso Nacional”, reconhece.