Desastres ambientais: Vale (VALE3) e Braskem (BRKM5) pagam preço alto

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.
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Os desastres ambientais envolvendo operações da Vale (VALE3) e da Braskem (BRKM5) e seu impacto sobre as ações da empresa são verdadeiras aulas sobre o peso do tema ambiental no mercado.

Para quem é novo no mercado, é bom lembrar que a Vale se envolveu em dois grandes desastres relacionados à atividade de mineração. Primeiro em Mariana, depois em Brumadinho.

Já a Braskem está lidando com afundamento de solo e rachaduras em Alagoas, causadas pela atividade de mineração de sal-gema.

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Em meados de setembro, a Braskem anunciou um aumento nas provisões para compensar os problemas causados. O adicional foi de R$ 3,3 bilhões, o que eleva o total reservado no balanço para essa causa a R$ 8,5 bilhões.

O montante representa quase 50% do atual valor de mercado da companhia. Ou seja, é muito grande.

Confira agora, em detalhes, como os problemas ambientais impactam as empresas atualmente. Para entender a relevância que o tema está ganhando no mercado, leia esta reportagem.

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Múltiplos da Vale ainda são descontados

À primeira vista, pode parecer que a Vale já se recuperou totalmente do evento de Brumadinho. Principalmente depois que a empresa decidiu voltar a pagar dividendos pela primeira vez desde o ocorrido, em 2019.

Além disso, as cotações das ações já voltaram a operar a um nível superior ao dia do desastre.

No entanto, a recuperação da empresa ainda não foi total. Quando comparada com suas concorrentes australianas, a Vale ainda está subavaliada.

De acordo com o Credit Suisse, a empresa é negociada a 3,4 vezes EV/Ebitda (valor da empresa dividido pela geração de caixa). Ao mesmo tempo, sua concorrentes australianas têm múltiplo de 5,4 vezes.

“O mercado ainda penaliza a Vale, pois ela é menos alavancada e mesmo assim tem múltiplos mais baixos que as mineradoras australianas”, explica Leandro Saliba, sócio e gestor da Butiá Investimentos.

Boom do minério atenuou crise na Vale

No entanto, a situação poderia ter sido muito pior se a empresa não estivesse passando por um ciclo favorável do minério de ferro e do dólar.

Com a queda da produção de minério da Vale, o preço do insumo subiu no mercado internacional. Além disso, o dólar subiu muito, chegando a R$ 5,50. Esse conjunto de fatores impulsionou a receita da mineradora.

Mesmo com os provisionamentos para compensar os danos em Brumadinho, a empresa conseguiu manter suas finanças em dia. “O preço subiu e o dólar estava em alta, e por isso a Vale conseguiu passar bem pela situação”, explica Saliba.

Uma prova disso é que a Vale tem uma relação entre dívida líquida e Ebitda (alavancagem) perto de 0,3 vez, o que é muito baixa. Ou seja, indica saúde financeira.

No segundo trimestre, a empresa informou que já pagou R$ 3,9 bilhões em indenizações relacionadas ao rompimento da barragem.

Agora, a empresa está investido em tecnologias para não precisar mais de barragens como a de Brumadinho. Segundo Saliba, a nova diretoria da empresa está “muito empenhada” no assunto.

No ano passado, a Vale anunciou que vai investir R$ 1,5 bilhão para implementar uma tecnologia de rejeitos a seco para reduzir a utilização de barragens em suas operações.

Provisionamento da Braskem

No dia em que a Braskem divulgou as provisões adicionais para Alagoas, chegando a R$ 8,5 bilhões, as ações da empresa quase não se mexeram. Segundo o gestor da Butiá, isso ocorreu porque o papel já tinha passado por uma realização (movimento de venda) alguns dias antes.

No entanto, isso não significa que as ações da Braskem não devam mais sofrer por causa deste problema. “A provisão é muito grande e isso vai bater no bolso do investidor”, afirma Celso Lemme, especialista em Finanças Ambientais do Coppead/UFRJ. 

Segundo ele, o tema tende a ir ganhando mais relevância com o tempo. “Nem sempre o impacto aparece quando sai a notícia, isso é como um radar. Aparece primeiro um pontinho de alerta, e depois vai ficando maior”, avalia.

De acordo com Saliba, o grande provisionamento feito pela empresa impacta a sua saúde financeira. Isso porque retira recursos que eram voltados para a operação.

Diferenças entre Braskem e Vale

Uma diferença em relação ao que ocorreu com a Vale é que a Braskem não está passando por um ciclo favorável de mercado. Segundo o gestor da Butiá, o mercado de petroquímicos está passando por um momento desafiador.

Em julho de 2020, a agência de classificação de risco S&P rebaixou o rating da empresa de  ‘BBB-‘ para ‘BB+’, devido à alta alavancagem (dívida líquida/Ebitda). Segundo a S&P, o indicador deve ficar em 3,5 vezes em 12 meses, com riscos persistentes de deterioração.

“Com isso, a empresa paga mais caro quando vai a mercado para captar recursos”, explica o gestor da Butiá. Em julho,  a empresa levantou US$ 600 milhões na semana passada, numa operação híbrida, que mistura características de dívida com ações. Com prazo atípico de 60,5 anos, a emissão saiu a 8,5% ao ano, acima de outras operações da empresa, segundo o site Reset.

O peso da incerteza

Segundo Delton Carvalho, professor de direito da Unisinos, pós-doutor em direito ambiental e direito dos desastres, a legislação no Brasil não tem critérios bem definidos para o cálculo de danos neste tipo de evento. Com isso, a incerteza sobre o real custo financeiro é muito grande. 

Além disso, o Brasil adota uma teoria rígida e punitiva a respeito da reparação de danos. De acordo com o professor, a teoria usada é a de “risco integral”. Ou seja, não se admite nenhum excludente de responsabilidade. 

Vale citar, segundo o advogado, que o evento da Braskem não causou mortes, diferente dos eventos da Vale. Segundo o G1, o desastre de Brumadinho deixou 270 vítimas, entre mortos identificados e desaparecidos.

Apesar das diferenças, as duas empresas sentem o peso dos danos de imagem. “Eventos como estes têm um prejuízo tão grande, não só na imagem. Essas empresas ficam vinculadas a esses sinistros até a remediação total.”

Tecnologia pode ajudar

Daqui para frente, os especialistas esperam que as tragédias tenham deixado ensinamentos para as empresas brasileiras. Segundo o professor da Unisinos, as companhias têm estado mais atentas a esses riscos e buscado formas de gerenciá-los.

No caso das empresas que atuam com commodities, a saída é investir em tecnologia. “A tendência é colocar foco em inovação e tecnologia para gerar menos impacto”, afirma.

Já no caso de empresas que usam combustíveis fósseis, a solução é investir em fontes renováveis.

De acordo com o gestor da Butiá, empresas de commodities já são negociadas a múltiplos mais baixos que outras empresas. A exceção é a Suzano, que atua com reflorestamento, segundo ele. “O foco é investir em tecnologia para atender a pressão cada vez maior do investidor e do cliente”, afirma. Para ele, é um processo sem volta.

Se você ficou interessado em investir em empresas focadas em ESG, não deixe de conversar com seu assessor de investimentos.