Debêntures: emissões abertas ao público são retomadas

Natalia Gómez
Editora, é jornalista especializada no mercado de investimentos há 17 anos. Formada pela PUC-SP, teve experiências em veículos como Agência Estado, Valor Econômico e Revista Você SA; e na área de comunicação corporativa e relações públicas para instituições financeiras.

Com as turbulências causadas pela crise do coronavírus no mercado de dívida corporativa, as ofertas de debêntures em 2020, até o momento, foram realizadas no Brasil apenas com esforços restritos.

Ou seja, foram destinadas a um grupo limitado de investidores profissionais, sendo que os bancos coordenadores ficaram com uma grande fatia das emissões. Este tipo de operação é chamada no mercado financeiro de CVM 476.

No momento, existe uma sinalização de que isso deve mudar. Existem duas ofertas públicas de debêntures a caminho, e os participantes do mercado esperam que outras operações com esse perfil ocorram até o final do ano. Esse tipo de emissão, aberta a todos os investidores, é conhecida como CVM 400.

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As duas primeiras ofertas abertas aos investidores em geral esperadas para 2020 são da Eneva e da Usina Termelétrica Pampa Sul, pertencente à Engie.

Na prática, isso significa que as pessoas físicas terão a possibilidade de participar de emissões primárias de debêntures ainda este ano. Para entender o que é uma debênture, basta ler este artigo.

Engie lidera movimento

No último domingo (27), a Engie (EGIE3) informou que sua subsidiária Usina Termelétrica Pampa Sul submeteu à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) um pedido de registro de oferta pública de distribuição de 582.000 debêntures simples, em duas séries.

A oferta, que será aberta ao público, somará R$ 582 milhões. A emissão está marcada pra 15 de outubro de 2020.

Boa notícia para o investidor

No contexto atual de juros baixos, é interessante para o investidor ter um cardápio amplo de ativos de crédito privado.

Isso porque os títulos de dívida emitidos pelas empresas são vistos como um dos segmentos mais promissores da renda fixa daqui para frente.

Segundo o sócio fundador da Vero Investimentos, Álvaro Azevedo, emissões como a da Eneva podem ser uma boa pedida para as pessoas físicas por se tratar de uma empresa com rating triple A. Isso significa que ela tem a nota mais alta dada pelas agências de classificação de risco.

Ele ressalta, no entanto, que é preciso tomar cuidado com o prazo do investimento, que costuma ser longo nas debêntures. Por exemplo, a oferta da Eneva será feita em duas séries, com vencimento em 2030 e 2035. A primeira paga IPCA mais 3,90%, e a segunda IPCA mais 4,35%.

“O investidor precisa estar disposto a abrir mão da liquidez para entrar nestas operações”, destaca. Caso o investidor não se planeje, corre o risco de precisar vender o papel num momento negativo de mercado.

Outro cuidado é na escolha dos ativos. Seja sozinho ou com a ajuda do especialista, o investidor deve optar por companhias que tenham boas notas das agências de classificação de risco.

Ele cita nomes como Eneva, Petrobras, Vale, BR Foods e Klabin como exemplos de empresas que não tiveram nenhum evento negativo na crise. Ou seja, não deixaram de remunerar seus debenturistas.

Mercado de debêntures em retomada

A retomada do mercado de debêntures ocorre depois de uma forte crise vivida pelo setor nos primeiros meses da pandemia. Em março, os investidores entraram em pânico com as notícias sobre a Covid-19.

Com isso, muitos pediram resgates dos fundos de crédito (que investem em debêntures) e as emissões ficaram suspensas. Veja o que ocorreu com o índice Idex, da gestora JGP, que mede a rentabilidade deste mercado:

Os investidores que mantiveram suas posições durante a crise fizeram um bom negócio, pois o temido calote das empresas não aconteceu. Já quem vendeu na hora do pânico, acabou perdendo dinheiro, pois naquele momento havia poucos compradores no mercado de debêntures.

Com o passar dos meses, o mercado de debêntures foi voltando ao normal. As operações de emissão de novos títulos voltou a ocorrer, enquanto a negociação no mercado secundário foi retomada.

No acumulado de janeiro a julho deste ano, ocorreram 153 emissões, todas com esforços restritos (476). Elas movimentaram R$ 54,6 bilhões, segundo dados da Anbima.

A principal diferença com o ano anterior não é apenas no volume, mas no tipo de operação. Ao longo de 2019, o mercado teve 362 ofertas públicas com esforços restritos e 10 ofertas públicas. As operações levantaram R$ 169,9 bilhões e R$ 14,7 bilhões, respectivamente.

Vantagens das operações restritas

Para as empresas, a principal vantagem das emissões de debêntures com esforços restritos (476) é que elas são mais rápidas e baratas. Além disso, não exigem elaboração de prospecto, mas apenas o aviso da operação à Comissão de Valores Mobiliários. Isso acontece porque participam apenas investidores profissionais.

A empresa pode mostrar a oferta para 75 investidores, mas pode fechar negócio com apenas 50. Com isso, o ticket da operação costuma ser elevado – de alguns milhões de reais por investidor. Ao mesmo tempo, por ter um arcabouço regulatório menor, são ofertas rápidas.

“Por isso, é normal que as companhias procurem este tipo de operação em momentos de turbulência, já que elas ficam menos tempo expostas à volatilidade do mercado”, explica o porta-voz da Vero.

Já as ofertas públicas abertas a todos os investidores (400) são mais usadas em momentos positivos do mercado. Neste caso, as empresas precisam elaborar um prospecto e conseguem atingir um público muito mais diversificado. Com isso, o ticket destas operações por investidor é muito mais baixo, na casa dos R$ 1 mil.

Demanda dos bancos por debêntures

Embora o volume de ofertas esteja avançando, existe um detalhe importante. Nos últimos meses, a maior parte das debêntures ficaram nas mãos dos bancos coordenadores das ofertas.

Ou seja, não houve uma demanda dos fundos de investimento, que estavam sofrendo uma onda de resgates.

Segundo a Anbima, os intermediários e demais participantes das ofertas ficaram com 85,2% de todas as emissões, entre janeiro e julho de 2020. Um ano antes, a fatia era de 31,8%.

Ao mesmo tempo, os fundos de investimentos ficaram com apenas 9,8% das emissões de janeiro a julho de 2020. No ano passado, haviam abocanhado 59,7%.

De acordo com o sócio-fundador da Butiá Investimentos, Rodrigo Dias, foram as tesourarias dos bancos que deram mais liquidez ao mercado nos momentos mais difíceis da pandemia. “No entanto, isso começou a mudar nos últimos três meses”, destaca.

Depois de três meses de resgates (março a maio de 2020), esses fundos começaram a ter captação positiva. Em junho, a captação foi positiva em R$ 15 bilhões; em julho, ficou positiva em 17 bilhões. Já em agosto, chegou perto de R$ 19 bilhões, segundo relatório do Bradesco BBI.

“Isso mostra que o apetite dos gestores dos fundos por papéis no mercado primário aumentou, ao mesmo tempo em que estão fazendo desinvestimentos no mercado secundário”, afirma Dias.

Segundo ele, a expectativa é que a fatia dos bancos nas ofertas diminua daqui para frente, com maior apetite dos fundos.

Agosto mostrou aquecimento

Em agosto de 2020, chamaram atenção duas operações de grande porte, com esforços restritos.

Uma delas foi a captação de R$ 1,74 bilhão pela Cosan, em uma série única com prazo de 3 anos, a CDI mais 2,65%. Outra foi anunciada pela MRV, com a captação de R$ 500 milhões, prazo de cinco anos e taxa de CDI mais 2,4%.

Até o dia 27 de agosto, o mercado primário de debêntures havia registrado R$ 9 bilhões no mês, um aumento de 65% em relação ao mês de julho e o maior valor desde abril, no pico da pandemia, de acordo com o BBI.

“Essas novas operações mostram uma maior participação dos fundos de investimento, cujos resgates cessaram nos meses de junho a agosto”, destacou o banco. O prazo médio das emissões se alongou para cinco anos, contra três anos nas emissões de abril.

E as taxas das debêntures?

Uma parte expressiva do mercado de crédito privado oferece taxas de CDI mais 2% ou CDI mais 3%, considerando empresas de alto nível (conhecidas como triple A).

De acordo com Dias, os investidores estão pedindo mais prêmios do que pediam antes da crise. “Estas mesmas empresas de alta qualidade tinham ativos precificados em CDI mais 0,5% ou o,7%”, afirma.

Em sua visão, isso traz maior atratividade para este mercado. A grande questão que o investidor deve analisar é o risco envolvido na operação. Foi justamente este temor que provocou uma debandada de investidores neste mercado entre março e abril.

Segundo o porta-voz da Butiá, a percepção atual é de que a pior fase da crise já passou. Ele conta que a gestora participou de algumas assembleias de debenturistas porque as empresas revisaram os termos das debêntures (covenants).

No entanto, ele destacou que a gestora não enfrentou problemas com aumento de risco das empresas investidas. “O mercado de crédito passou por um bom teste, mas nossa visão é de que o mercado está se recuperando.”

No caso das debêntures atreladas ao IPCA, é possível encontrar ofertas com taxa de IPCA mais 3% a IPCA mais 4%. “Nesse caso, somente o juro real já é o dobro da Selic atual”, destaca o porta-voz da Vero.

Caso você tenha interesse em incluir este tipo de investimento em sua carteira, converse com um assessor de investimentos.

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