Crise: salvar pequenas e médias empresas é a prioridade para grandes bancos

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Novo Oeste

A busca de alternativas que preservem pequenas e médias empresas foi um dos pontos de consenso da live que reuniu, de forma inédita, CEOs de alguns dos principais bancos do país para debater a crise, sob a moderação do ex-presidente do Banco Central (BC), Ilan Goldfajn, atual presidente do conselho do Credit Suisse.

“Esse valor não é realista”, disparou o presidente do Itaú Unibanco, Cândido Bracher, ao comentar o pacote emergencial de R$ 40 bilhões para garantir, por dois meses, a folha de pagamento de pequenas e médias empresas.

Conta mais salgada

Na sua avaliação, o montante da ajuda deveria ser de, pelo menos R$ 750 bilhões. “Não tem como atravessar uma crise dessas com R$ 40 bilhões, R$ 50 bilhões. Vamos gastar R$ 750 bilhões e terminaremos com uma dívida pública equivalente a 90% do PIB”, prevê.

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Para Bracher, mais importante do que o valor da dívida pública é a sinalização do governo federal, no sentido de conferir “credibilidade à austeridade fiscal que será imposta após à crise”. Ele sugere, ainda,  que a ajuda federal à folha de pagamento contemple um contingente maior de empresas.

Linha ‘engenhosa’

“Hoje, essa linha de crédito abrange folhas de pagamento de até dois salários mínimos, de empresas com faturamento anual de R$ 360 mil a R$ 10 milhões. É uma linha engenhosa, mas poderia ser estendida aquelas com faturamento acima de R$ 10 milhões por ano”, propõe.

Ao lembrar que os bancos estão renovando as operações e estendendo prazos de obrigações, Bracher antecipou que, depois da crise, “vamos ver que ritmo de retomadas do pagamentos será viável, em negociações que devem se alongar pelos próximos três anos”.

FGC

Para o CEO do Itaú Unibanco, enquanto as empresas de maior porte têm como recorrer ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC), as grandes poderão negociar o acesso a recursos junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Entendimento

Mas, para que a retomada econômica se consolide, Bracher condiciona a existência de entendimento entre Executivo e Legislativo, que transmita ao mercado segurança, seja no controle da dívida pública, como também ao manter baixas as taxas de juros.

Adepto da tese de que a taxa básica de juros (Selic) poderia baixar até para 2% ao ano, o dirigente do Itaú Unibanco adverte para a necessidade de manter o controle da dívida, impedindo que despesas correntes cresçam mais rapidamente do que as receitas correntes.

“Dessa forma, ganha-se tempo para administrar a situação, como outros países já fazem, há décadas”, receitou.

Redesenho do sistema

“Em 2008, teria sido muito mais difícil reagir à crise do que agora”, admite o CEO do Santander Brasil, Sérgio Rial, ao ressaltar o apoio estratégico da tecnologia financeira nesse momento de transição.

“Tivemos que testar os limites da tecnologia financeira disponível”, acrescenta. Neste aspecto, Rial vai além e afirma que a saída dessa transição vai exigir o “redesenho da indústria financeira atual, em que os bancos terão de cumprir um papel social mais efetivo”.

Salto digital

Rial avalia que os canais digitais, em razão da crise, deram um salto, em que as metas para cinco anos vão se cumprir em apenas um. “Isso demandou uma flexibilização do setor financeiro que, certamente, trará ainda muitas lições para todo o setor”, emenda.

Desemprego e inadimplência, reconhece ele, são preocupações recorrentes do mercado financeiro. “Não sabemos o tamanho da inadimplência, mas isso também vai depender do tempo em que vai durar a crise e se algum medicamento for descoberto no médio prazo”, torce.

“Daí a necessidade de garantir que o dinheiro chegue na ponta, no assalariado”, completa.

Risco de crédito

Sobre o problema do risco de crédito, depois que a turbulência atual se dissipar, Rial chamou a atenção de seus pares sobre o trabalho realizado, nos últimos 18 meses, pela maior parte das empresas brasileiras, no sentido de fortalecer sua saúde financeira e estrutura de capital.

“Com exceção do setor aéreo, que vai precisar de uma solução estruturante e dos demais setores, que se encontram em boa posição, o de serviços é um dos mais ‘machucados’ pela   crise”, reconhece.

Selic ajuda

Apesar da situação delicada, Rial destaca a possibilidade de negociar prazos mais elásticos para as pequenas e médias empresas, em razão do patamar baixo da Selic – hoje em torno de 3,75% ao ano.

“Prazo antes era tema de grande empresa. Agora não é mais. Portanto, se conseguirmos trabalhar bem a questão do prazo, privilegiando aqueles que podem chegar lá na frente, acho que isso será uma das grandes soluções”, analisa.

Private Equity

Quanto aos bancos, o CEO do Santander entende que as instituições poderão montar fundos de private equity. “Isso porque as empresas, além do prazo, vão também querer contar com esse instrumento na sua estrutura de capital”, comenta.

Sobre o mercado em dólar, ‘que secou e não retornou’, Rial entende que o governo ou uma grande empresa poderia atuar em fundos soberanos, o que seria uma “boa notícia”.

Normalização recente

Questionado pelo moderador sobre a necessidade de o governo adotar novas medidas para assegurar a liquidez da economia, o CEO do Bradesco, Octávio Lazari Júnior lembrou que, em meados de março passado, a busca de liquidez estava “exacerbada”, mas que esse ‘surto’, segundo ele, já estaria superado e a demanda, normalizada.

BC no secundário

Sobre a iniciativa do Banco Central (BC) – igualmente voltada à liquidez –  de atuar no mercado secundário, Lazari Júnior a considerou muito ‘oportuna’, uma vez que a autoridade monetária deve ter “liberdade para atuar em momentos de crise”.

Economia de guerra

O CEO do Bradesco entende que o governo teve agilidade em tomar medidas contra a crise, ao citar a decisão de utilizar os R$ 800 bilhões – que seriam economizados, em dez anos, com a reforma da Previdência – para injetar liquidez na economia.

Outra providência, aplaudida por ele, foi a ajuda emergencial que assegurou recursos de R$ 600 para atendimento à faixa mais carente da sociedade.