Crise global deve ‘desidratar’ PIB brasileiro este ano

Marcello Sigwalt
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Crédito: Crédito: Portal NTC

Mesmo sem que o mercado disponha, ainda, de dados econômicos mais consistentes sobre o impacto do novo coronavírus sobre a economia global, especialistas ouvidos pelo portal EuQueroInvestir concordam que a tendência é de desaceleração do PIB nacional este ano.

Nesta quarta (11), o Ministério anunciou uma previsão de crescimento de 2,1% do PIB, acima, portanto, dos 1,99% projetados pelo mercado.

“Levando em conta todos os fatores que envolvem a disseminação da doença pelo mundo, nossa estimativa é de um crescimento de 1,6% do PIB este ano”, revela o economista da Tendências Consultoria Integrada, Thiago Xavier.

Ritmo lento

Coopera para essa perspectiva o fato, lembra ele, de que, desde 2017, “o Brasil apresenta um quadro de atividade fraca e ritmo lento de crescimento”.

Mais do que o acerto em torno de índices, na economia real, prossegue Xavier, já é possível identificar problemas em alguns segmentos industriais diretamente dependentes da China – que enfrenta forte recuo da atividade econômica.

Dependência da China

“É previsível que tenhamos problemas de desabastecimento em segmentos dependentes de insumos chineses, como robótica, eletrônica e vestuário, entre outros”, aponta.

Mesmo trabalhando com um cenário de um efeito temporário da epidemia, Xavier entende que o coronavírus é um fator importante de incerteza para investimentos, o que aumenta o risco de desabastecimento em escala mundial.

Também o comércio local deve se ressentir da redução drástica das viagens, sobretudo às de negócios, por conta do aumento da aversão ao risco, mas de contágio da doença.

“Nesse cenário, é bom lembrar que a economia, no final do ano passado, apresentou resultados abaixo do esperado. A projeção inicial era de 1,8%, mas não passou em 1,1%”.

De qualquer forma, a Tendências trabalha com a possibilidade de que os efeitos do coronavírus deverão ser mais intensos neste primeiro semestre, até se reduzirem ao longo do segundo.

Indústria sem crescimento

Sobre a expectativa do mercado do que o governo pretende fazer em relação à atividade econômica, Xavier destaca a grave situação da indústria de transformação nacional, que apresentou crescimento nulo ano passado, sem perspectivas de melhora.

Tal situação, segundo o economista, torna-se mais dramática, levando em conta a recessão argentina e de outros parceiros comerciais latino-americanos, importadores de bens de capital e serviços do Brasil.

Remédios “anti-crise”

Para que a previsão oficial do PIB se mantenha, o diretor-adjunto de Macroeconomia do IPEA, Francisco Santos, receita como ‘remédios’ o uso, por parte do governo, das políticas fiscal e monetária.

“O monitoramento dos índices de inflação poderá levar o Executivo a adotar algum afrouxamento monetário”, admite Santos.

No campo fiscal, apesar do teto de gastos, o diretor-adjunto do Ipea entende ser possível remanejar recursos “para gastos emergenciais, em caso de calamidade pública”, sem ferir a legislação.

Sobre o eventual repique inflacionário, decorrente da epidemia global, Santos visualiza dois choques importantes, mas ainda pouco claros. São eles a baixa abrupta do petróleo e o choque de demanda, devido à retração econômica do gigante asiático.

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O “muro” das reservas

No que toca ao risco de novos ataques especulativos contra o real, Santos disse acreditar que a existência de reservas cambiais, no montante calculado em US$ 350 bilhões, traz muita segurança para a defesa da moeda nacional.

Além disso, o diretor-adjunto do Ipea assinala que o diferencial de juros praticados entre Brasil e Estados Unidos tende a favorecer o primeiro, “reduzindo a pressão sobre o câmbio”.

“O câmbio pode, até, se desvalorizar mais, mas isso não significa necessariamente que o país ficará mais vulnerável, pois as reservas são hoje uma garantia importante contra movimentos especulativos”, conclui.