Crise mudou a mentalidade alemã – e isso importa para os mercados

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução / Pixabay

A Alemanha sempre foi um exemplo de política fiscal rígida e prudente, com orçamento equilibrado.

Mas a pandemia do novo coronavírus fez a mentalidade econômica do país mudar o rumo e abrir a porta do cofre. Essa alteração tem repercussões significativas para os mercados financeiros.

É o que explica o artigo de Silvia Amaro, publicado no CNBC.

“Essa crise claramente levou a uma reviravolta notável na política alemã”, disse Carsten Brzeski, economista-chefe do ING Germany.

“Essa reviravolta significa, antes de tudo, livrar-se das medidas de austeridade, realmente usar a política fiscal em uma época em que as taxas de juros são negativas… mas também investir realmente em mais integração europeia”, disse ele.

Uma das lógicas de uma política fiscal austera é que o país tenha caixa para emergências. Não há na história recente da sociedade moderna uma urgência maior do que a que o mundo vive agora.

Conceito moderno

Um país não é uma empresa que precisa dar lucro. Ao contrário, ele precisa atender aos cidadãos, pagadores de impostos ou não, como sociedade.

É um acordo moderno para que as pessoas possam viver em um mínimo de harmonia.

Um país precisa ter dinheiro para fazer funcionar instituições, como polícias, Justiça, Congresso, Executivo etc., que gerenciem a sociedade de modo que tal harmonia seja possível.

O dinheiro de um país é o dinheiro para, por exemplo, o socorro de seus cidadão quando necessário.

Exemplos de tais necessidade há aos montes: guerras, tragédias naturais, crises sanitárias como esta, crises econômicas como a de 2008.

A Alemanha entendeu o que muitos liberais, especialmente no Brasil, com pouco alcance de visão, não querem ou não conseguem enxergar: o Estado não é inimigo, ele pode ser a balança, o apoio e o catalisador da economia.

Estado grande não é o problema. Estado robusto não é o problema. Estado ineficiente é, aí sim, um grande problema.

A Alemanha como nenhum outro país

O governo alemão anunciou mais de € 450 bilhões até agora em estímulos fiscais imediatos para proteger sua economia da crise em curso.

Isso representa 13,3% de seu Produto Interno Bruto (PIB) em 2019.

A ideia é que o dinheiro “poupado” com políticas fiscais austeras deva ser usado em momentos extremos. Esse é o caso.

A Alemanha conseguiu usar suas finanças públicas como nenhuma outra nação europeia. A maioria dos governos europeus optou pelo diferimento dos pagamentos de impostos e outras medidas que não necessariamente sobrecarregam suas finanças e aumentam seus déficits.

“Não havia apetite por financiamento por dívida (antes da pandemia)”, com base nos muitos anos de superávits orçamentários que a Alemanha estava passando, disse à CNBC Jens Suedekum, professor de economia internacional do Instituto de Economia da Concorrência de Dusseldorf.

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“Além disso”, escreve Amaro em seu artigo, “a chanceler alemã Angela Merkel anunciou em maio que apoiaria um programa de empréstimos em larga escala no nível da UE – algo que havia sido um tabu na política alemã por muitos anos”.

“Por isso, muitos analistas, preocupados com a estabilidade da zona do euro a longo prazo, elogiaram o anúncio de Merkel”.

“O fato de muitos membros do governo alemão terem dito que precisamos de solidariedade europeia e que precisamos de mais integração, acho que realmente marca uma enorme mudança no coração na política alemã”, disse Brzeski.

Recado aos investidores

Tal mudança mostrou aos investidores que a Alemanha estava comprometida em apoiar sua economia e a estabilidade da União Europeia. Os mercados, que sempre torcem o nariz para gastos excessivos de governos, receberam bem a mudança.

Entenderam que dessa vez os gastos não são “excessivos”, mas “urgentes” e “necessários”.

O principal índice de ações alemão, o DAX, subiu cerca de 48% desde que atingiu seu ponto mais baixo até agora em 2020, em 18 de março. O benchmark europeu, o Stoxx 600, subiu cerca de 31% no mesmo período.

Os investidores entenderam que a Alemanha vai fazer de tudo para não deixar a economia do país e da Europa estancar, não importa o tamanho da crise.

Com um recado claro desses, é mais seguro, em tese, investir.

Alemanha em melhor posição

Ao contrário da França, que abriu o cofre numa proporção de apenas 4,4% do seu robusto PIB, da Itália, da Espanha e de países da comunidade, a Alemanha explicitou o recado.

“A Alemanha está pronta para enfrentar o choque inicial da pandemia muito mais rápido e melhor do que o resto da zona do euro”, disse à CNBC Claus Vistesen, economista da zona do euro na Macroeconomia Pantheon.

“A perspectiva de uma Alemanha relativamente resiliente é sustentada ainda mais pelo fato de Berlim agora estar flexionando seriamente seus músculos fiscais”, acrescentou ele em nota no mês passado.

O Bundesbank estimou que a economia alemã reduzirá 7% este ano.

Entretanto, a retomada após a crise será mais vigorosa, algo 3% e 4% em 2021 e 2022.

“Em comparação, França, Espanha e Itália, onde a crise de saúde foi mais grave, deverão contrair mais de 10% em 2020, segundo o Fundo Monetário Internacional”, lembra Amaro, em seu artigo.

No entanto, o futuro da economia alemã dependerá de como esse estímulo fiscal será aplicado.

“No geral, a ameaça de um declínio na globalização e no multilateralismo não é uma boa notícia para a Alemanha, mas tem a capacidade de se fortalecer e a Europa para enfrentar esses desafios, e esse objetivo não mudou com o vírus”, disse Vistesen.