Crise deve fazer surgir uma geração de “superpoupadores”

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A crise econômica gerada pela pandemia de coronavírus irá produzir uma “geração de superpoupadores”. Esta é a opinião de Morgan Housel. Ele é sócio da empresa de capital de risco Collaborative Fund e autor do artigo “The Psychology of Money”.

Em sua visão, os “superpoupadores” terão aversão ao risco e isto poderá remodelar o mercado financeiro nos próximos anos.

“Quando você, de repente, percebe que o mundo é muito mais frágil do que se pensava, você passa a ter um apetite muito menor por riscos”, disse à CNBC.

“Mesmo que a crise acabe amanhã, o que passamos já foi grave o suficiente para deixar um impacto geracional. E ela não vai acabar amanhã, que fique claro”, alertou.

“Acredito que teremos uma geração menos ousada nos investimentos. Com mais consciência de que ‘perder’ algumas oportunidades não é ruim, desde que você tenha proteção”, avaliou.

Para Housel, a crise e a velocidade dos desdobramentos econômicos da pandemia já alteraram a percepção e a capacidade de otimismo quanto ao futuro.

Perguntado se os “superpoupadores” não iriam prejudicar a produção dos países e influenciar negativamente o Produto Interno Bruto (PIB), ele defendeu que sim. Mas que, ao mesmo tempo em que haveria menos investimento, haveria uma sociedade mais “robusta e forte financeiramente”. “Teríamos um sistema em que seríamos realmente mais capazes de gerenciar e absorver futuros choques”.

Ele lembrou que grandes choques econômicos alteraram por diversas vezes os hábitos dos consumidores. E agora seria um destes momentos, em que os consumidores passariam a preferir economizar a gastar em meio às incertezas.

Crise poderia mudar comportamento do consumidor?

A proporção de americanos que afirmam preferir economizar aumentou significativamente após a crise financeira de 2008, segundo o instituto Gallup. Em sua pesquisa de 2019, mais de 60% dos entrevistados afirmaram que passaram a guardar dinheiro depois da crise.

Na última terça-feira (31), a empresa de finanças pessoais Bankrate publicou uma pesquisa que revelou que 52% dos americanos já cortaram gastos em resposta à pandemia.

Mark Hamrick, analista econômico sênior da Bankrate, avaliou, no entanto, que pode ser prejudicial as gerações mais jovens se tornarem avessas a risco.

“Na crise de 2008, notamos que, especialmente os mais jovens, deixaram de confiar no mercado de ações”, disse. “Desta forma, estas pessoas deixam de lucrar e garantir uma aposentadoria confortável”, defendeu.

Paul Donovan, economista-chefe da UBS Global Wealth Management, disse à CNBC que se mantém cético quanto à ideia de que esta crise irá alterar de maneira drástica a mentalidade do consumidor.

“A Grande Depressão mudou o comportamento nos Estados Unidos porque foi muito devastadora e durou um longo tempo. Agora, esperamos que o incidente seja relativamente curto”, defendeu.
Ele ressaltou ainda que as políticas para manter empregos, que vem sendo adotadas por muitos países, é um dado muito positivo e que não deixa as pessoas inseguras. “Mesmo com redução do salário, os empregos estão sendo mantidos. Isto dá segurança”, afirmou.