CRI e CRA: o que são e como funcionam os certificados imobiliários e do agronegócio

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Divulgação

Você sabia que é possível investir no setor do agronegócio e no mercado imobiliário brasileiro por meio da renda fixa? Os CRIs e CRAs são dois tipos de investimentos que dão ao investidor mais uma forma de diversificação de sua carteira. Mas o que são exatamente o CRI e o CRA?

Vamos às definições:

  • CRI: Certificados de Recebíveis Imobiliários
  • CRA: Certificado de Recebíveis do Agronegócio

Eles são títulos de renda fixa que são emitidos por companhias securitizadoras, a fim de financiar, como os próprios nomes já dizem, os mercados imobiliário e agrícola.

Eles podem ser de dois tipos: pré-fixados (quando a taxa de rentabilidade é pré-determinada) ou pós-fixados (quando a rentabilidade é atrelada a algum indexador e, portanto, não é conhecida no momento do investimento).

Qualquer semelhança com as LCIs e LCAs não é mera coincidência!

Detalharemos mais especificamente cada item ao longo deste artigo.

Mas, de forma resumida, ao investir em um CRI ou um CRA, você não tem um banco como intermediário. E é justamente por isso que estes investimentos oferecem melhores taxas de rentabilidade.

Cabe ressaltar também que muitos dos emissores destes certificados são consideravelmente maiores que os grandes bancos e maiores até mesmo que o FGC.

Tenho perfil para investir em CRI e CRA?

Antes de continuar aprendendo sobre CRI e CRA, vale lembrar que cada investidor tem um perfil diferente e para cada perfil e necessidade de investidor há uma forma mais indicada. Ou seja, um “melhor tipo de investimento”.

Para conhecer o seu estilo, e receber uma sugestão mais adequada, sugerimos que você faça um Teste de Perfil de investidor.

Estes investimentos estão em franco crescimento em vista da dificuldade dos bancos em oferecer novos produtos para estes mercados.

Isso por que os mercados agrícola e de imóveis já viveram os seus dias mais gloriosos.

O boom imobiliário, num passado recente, rendeu excelentes oportunidades de investimentos oferecendo ótimas taxas para quem investiu em LCIs, por exemplo.

Com o enfraquecimento da economia houve uma desaceleração natural do mercado, baixando com isso, as taxas oferecidas pelas instituições financeiras.

A boa notícia é que ainda é possível investir em imóveis e no agronegócio com uma rentabilidade bastante atrativa.

E mais: os CRIs e CRAs são livres de Imposto de Renda.

Qual a relação entre CRI e CRA e LCI e LCA?

É possível fazer uma relação entre estes investimentos para facilitar o entendimento, mas também é importante destacar as suas diferenças.

Em comum, além de apostarem nos mesmos mercados (imobiliário e agronegócio), ambos investimentos são isentos de Imposto de Renda.

Mas as semelhanças param por aí.

Diferentemente de uma LCI/LCA, que é um título gerado por instituições financeiras (bancos), CRI e CRA só podem ser gerados por uma companhia securitizadora. Explicaremos o que são e como funcionam mais adiante.

Outra diferença entre eles é que CRI e CRA não são protegidos pelo FGC (Fundo Garantidor de Crédito).

É muito importante salientar que o fato de não ter a garantia do FGC não classifica investimentos em CRI e CRA como investimentos não-seguros. Isto por que cada emissor possui um rating, também conhecido como nota de risco.

O rating é a nota atribuída à empresa que representa a sua capacidade de pagar suas dívidas. Esta nota é dada por agências de classificação de risco. As principais são: Standard & Poor’s, Moody’s e Fitch Ratings, que controlam uma parcela de mais de três quartos do mercado global de avaliações de risco.

Assim, é possível escolher um CRI ou CRA de um emissor confiável e de baixo risco. Em muitos casos, as garantias oferecidas chegam a ser maiores que o banco onde você costuma investir em renda fixa.

Para quem são indicados CRI e CRA?

Geralmente indica-se investimentos em CRI e CRA para quem tem uma carteira com um aporte maior ou também para quem procura diversificação da carteira.

Os investimentos em CRI e CRA tendem a ter uma rentabilidade mais alta que os investimentos de renda fixa tradicionais (LCI, LCA, CDB, LC, etc) em virtude do “risco maior”.

Lembrando novamente que existem diversas emissões com grandes garantias de emissores confiáveis que tornam esse risco muito baixo.

É sempre interessante fazer cálculos para comparar e ver quem rende mais.

Importante ressaltar que os certificados de recebíveis são investimentos com vencimento de médio/longo prazo. Há opções com vencimentos de pelo menos um ano, podendo chegar a mais de 15 anos.

Não existe valor mínimo de investimento em CRI e CRA. Mas muitos estão disponíveis por cerca de R$ 1 mil.

Investidor Qualificado

Investidores em geral podem investir em CRI e CRA, porém algumas emissões são disponibilizadas somente para investidores qualificados.

O investidor qualificado, segundo a norma 409/04 da CVM, é quem possui mais de R$ 1 milhão em aplicações financeiras.

Caso você se enquadre nesta condição, basta assinar junto ao banco ou corretora em que você investe, o termo de investidor qualificado, garantindo acesso a todas as emissões do mercado.

O Estado tenta “proteger” o investidor mais leigo destes investimentos mais “sofisticados”, que o governo considera mais arriscados.

Mesmo que você estude e entenda perfeitamente o funcionamento dos CRIs e CRAs, conheça a emissão com todos os detalhes e entenda sobre os riscos envolvidos. Se não for um “investidor qualificado” você é proibido de investir por causa desta norma.

Mas afinal, como funcionam os recebíveis do agronegócio?

Vamos imaginar uma empresa que trabalha no ramo do agronegócio, uma produtora de milho por exemplo.

Digamos que ela resolva renovar todo o seu maquinário de campo, como colheitadeiras, tratores, etc.

Ela procura um banco ou uma cooperativa de crédito e faz os seus financiamentos a uma taxa média de 12% ao ano com um prazo de 60 meses.

O banco (ou cooperativa) quer esperar até o final do prazo para receber o seu dinheiro de volta. Por isso, emite um CRA e vende para investidores os seus créditos e estes investidores, então, receberão os juros do período.

CRI CRA fluxo de emissão de CRA

E como funcionam os recebíveis imobiliários?

Vamos imaginar uma empresa do ramo imobiliário, como uma construtora ou incorporadora por exemplo.

Suponhamos que ela construiu um prédio de 20 andares com um total de 40 apartamentos.

Vamos dizer que a construtora vendeu todos os apartamentos financiados ao preço de R$ 1 milhão cada.

Vamos considerar um prazo médio de 60 meses nos financiamentos à taxa de IGPM + 1% ao mês.

Se a construtora aguardar todo esse tempo para receber os pagamentos, ela demorará 60 meses para ter todos os R$ 40 milhões, mais os juros do período, para reaver o dinheiro dela investido e assim ter o seu lucro final do empreendimento que fez.

Por fim, para que ela tenha este dinheiro antecipadamente e consiga continuar os seus negócios, até mesmo para lançar outro empreendimento, ela emite um CRI e vende os seus créditos para investidores que ganharão os juros do período.

CRI CRA- Fluxo de emissão de CRI

E qual o papel de uma securitizadora?

As securitizadoras são empresas que compram créditos e securitizam. Ou seja, transformam estes créditos em títulos para serem vendidos posteriormente a investidores.

As securitizadoras são as únicas empresas autorizadas a emitir os CRI e CRA no país.

Quanto rende um CRI e CRA?

Os CRIs e CRAs podem ter todos os tipos de remuneração. Vamos dar alguns exemplos:

CRI E CRA- Opções de rendimento

  • Prefixada: 10% ao ano;
  • Pós-fixada: 110% do CDI;
  • Pós-fixada + taxa fixa: CDI+ 1,2 ou CDI – 0,8;
  • Inflação + taxa fixa: IPCA+8% ou IGPM+7%.

Cada emissão de CRI ou CRA tem sua própria rentabilidade. Ela depende muito da qualidade do emissor do título, da sua capacidade de honrar o pagamento, das garantias que o emissor oferece, etc.

Vale lembrar que o rendimento para o investidor de CRI e CRA é isento de impostos de renda e IOF.

Mas atenção: o ganho de capital, caso o investidor venda o titulo antecipadamente no mercado secundário, não é isento.

Você sabe o que é o mercado secundário?

Quando é o banco (ou empresa, securitizadora, etc) que emite um título para venda, isto é o mercado primário.

Mercado secundário é quando os primeiros compradores destes títulos revendem para terceiros. Assim, eles passam a ser comercializados diretamente entre os demais compradores, sem a anuência da CVM.

A flutuação do preço no mercado secundário acontece devido a diversos fatores, principalmente relativo a notícias da empresa emissora, da taxa de juros e do contexto do setor no qual a empresa atua.

mercado secundário e primário

CRIs e CRAs podem ter pagamento de juros e amortizações mensalmente, trimestralmente, semestralmente, anualmente ou somente no vencimento.

Cada título tem a sua característica, então antes de investir, consulte os detalhes do título que irá comprar.

Sobre a segurança de se investir em CRI e CRA

Para que um CRI e um CRA seja originado é preciso ocorrer a securitização.

Para a sua realização é necessário seguir uma série de procedimentos incluindo a constituição do denominado Termo de Securitização, com os seguintes itens:

  • Identificação do devedor;
  • Valor nominal de cada crédito que lastreie a emissão;
  • Indicação das garantias dos títulos, quando houver;
  • Identificação dos títulos emitidos.

Geralmente é instituído um regime fiduciário que garante a separação do risco do emissor. Ou seja, se a securitizadora vier a quebrar, o fluxo de pagamentos para os investidores se mantém pois os recebíveis ficam separados do patrimônio da securitizadora.

Porém, mais uma vez é importante ressaltar: antes de comprar um CRI ou CRA, observe o rating (classificação de risco) do emissor dos créditos.

Por que caso os devedores dos recebíveis que compõem o lastro do CRI ou CRA não quitarem suas obrigações junto à securitizadora, o investidor poderá deixar de receber ou ter atrasos no recebimento.