CPI: Pazuello diz que não foi orientado a indicar tratamento precoce

Victória Anhesini
Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie
1

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia do Senado nesta quarta-feira (19), negou que tenha assumido a pasta sob a condição de seguir ordens do presidente da República, Jair Bolsonaro.

O chamado “tratamento precoce” para a Covid-19 e adotado por Bolsonaro inclui medicamentos sem comprovação científica como a hidroxicloroquina. “Em hipótese alguma. O presidente nunca me deu ordens diretas para nada”, afirmou.

Conforme Pazuello, sua nomeação por Bolsonaro foi para “fazer as coisas andarem o mais rápido possível”. E, também, que a missão era “trocar a roda do carro com o carro andando”.

Sobre sua experiência para assumir o ministério, Pazuello lembrou as funções que exerceu ao longo da carreira. Entre elas, o comando de hospitais de campanha, como na Operação Acolhida, na fronteira com a Venezuela. “Sobre gestão e liderança, acho que nem preciso responder. É como responder se a chuva molha. Todo militar tem isso”, disse.

Portanto, aos senadores, o general avaliou ser apto para o comando da pasta da Saúde. Isso seria por ter, assim como outros ministros não médicos que ocuparam o posto, capacidade de ouvir, sensibilidade para a tomada de decisão rápida.

Quer começar o dia bem-informado com as notícias que vão impactar o seu bolso? Clique aqui e assine a newsletter EQI HOJE!

Imunidade de rebanho

Ao falar da tese da “imunidade de rebanho”, o ex-ministro Pazuello reconheceu que ela “é real”. Mas disse que não pode ser usada como única estratégia para imunizar a população.

“Que se tem uma imunidade a partir de várias pessoas, não há dúvida, mas como não se sabe o grau de força desses anticorpos, e por quanto tempo ele fica no organismo, não se pode estar apoiado apenas nesta tese. Tem que partir para a imunização com vacina”, afirmou.

Além disso, o ex-ministro disse que sua opinião sobre o assunto não foi formada por conselhos do deputado federal Osmar Terra, um dos defensores da tese. Também negou que o presidente Jair Bolsonaro tenha determinado que seguisse essa estratégia.

Recomendações da OMS

Pazuello disse que a Organização Mundial da Saúde (OMS), assim como a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), não impõe condições ao governo brasileiro. “Nossa decisão é plena, não somos obrigados a seguir nenhum tipo de orientação da OMS, da ONU, de lugar nenhum. Somos soberanos.”

De acordo com o ex-ministro, as posições da OMS eram claras, mas não contínuas. Isso se deve ao próprio desconhecimento da organização sobre a pandemia. “A OMS nos dava uma posição, mas cabia a nós escolher o que seguir”, acrescentou.

Pazuello minimizou manifestações do governo federal sobre medidas não farmacológicas, como isolamento social. Ainda, falou que como ministro sempre defendeu medidas protetivas.

“Sempre me posicionei da mesma forma: [favoravelmente] a medidas preventivas, incluindo o distanciamento social necessário em cada situação”, destacou. Pazuello acrescentou que durante a sua gestão sempre ressaltou a importância de medidas como uso de máscaras e lavagem das mãos.

Situação com as vacinas da Pfizer/BioNTech

Apesar das declarações do CEO da Pfizer, Carlos Murillo, e do ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, que à CPI disseram que o governo brasileiro ficou dois meses sem dar retorno à farmacêutica sobre proposta feita para aquisição de vacinas, o ex-ministro da Saúde disse que vai entregar documentos ao colegiado que, segundo ele, provam que houve respostas à empresa americana.

“Como assim não houve respostas? Nós tivemos 20 respostas à Pfizer”, destacou Pazuello. Ainda mais, o general detalhou aos senadores que os contatos com a farmacêutica começaram ainda em 2020. E que o preço e a quantidade de doses oferecidas pela empresa, por exemplo, estiveram entre os entraves para a negociação.

O ex-ministro afirmou ter passado setembro e outubro de 2020 analisando o contrato da farmacêutica. Ressaltou também que o Ministério da Saúde nunca fechou as portas e sempre quis comprar a vacina da Pfizer.

Investimentos

De acordo com o ex-ministro da Saúde, “nunca se investiu tanto em saúde no Brasil”. Segundo ele, o legado deixado pelos investimentos feitos pelo governo federal em estados e municípios proporcionará, de forma definitiva, uma melhora na estrutura em saúde ofertada pelos governos locais.

Pazuello disse que, em 2020, o Ministério da Saúde repassou aos demais entes da federação R$ 115 bilhões. Conforme o ex-ministro, foram liberados mais de R$ 500 bilhões, no total, às diversas ações relacionadas ao combate à pandemia.

Ao relacionar as ações tomadas enquanto chefiou a pasta, Pazuello falou sobre campanhas de orientação contra a propagação do vírus. Conforme o general, foram 11 campanhas e 271 vídeos institucionais sobre a capacidade de testagem e a criação de programas federais, como bancos genéticos para monitorar novas variantes do vírus.

STF

Pazuello lembrou que, embora a União disponibilize recursos para que estados e municípios executem as ações de saúde, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de abril de 2020 limitou essas medidas. Ele se refere à garantia aos governadores a tomada de decisões sobre medidas contra o coronavírus.

“Não há possibilidade de o Ministério da Saúde interferir na execução das ações sem usurpar competências dos estados e municípios. Isso seria possível no caso de intervenção federal em algum estado. O gestor pleno do SUS [Sistema Único de Saúde] é o secretário municipal de Saúde”, lembrou.

Sobre a relação com estados e municípios, Eduardo Pazuello destacou que a primeira medida foi desenvolver uma ferramenta de análise de riscos. Já na época, havia uma nota técnica que foi distribuída a todos os prefeitos. “Tomada a decisão, o ministério apoiava em todos os itens pedidos por prefeitos e governadores”, explicou.