CPI da Covid: Mandetta diz que alertava Bolsonaro sobre pandemia

Matheus Miranda
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Divulgação/Agência Brasil

O ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, disse que alertava constantemente o presidente Jair Bolsonaro sobre o risco da covid-19. O ex-titular da pasta prestou depoimento nesta terça-feira (4) na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da covid-19.

De acordo com o ex-ministro, as orientações eram passadas de forma sistemática. Porém, o presidente parecia não compreender a gravidade da situação. Disse ainda que foram feitas projeções sobre o número de mortos.

Quando perguntado sobre a vacinação, o ex-aliado disse que poderia ter iniciado antes. Segundo ele, o país estaria preparado para ter iniciado a imunização contra o novo coronavírus já em novembro de 2020.

CPI da Covid: governo teria decreto sobre cloroquina

Ainda em seu depoimento, o ex-ministro também argumentou que teria visto um decreto de inclusão do tratamento à covid-19 na bula da cloroquina.

Porém, relatou que o presidente da Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária, Antonio Barra Torres, havia avisado que não seria possível fazer essa alteração.

O ex-ocupante da pasta da Saúde disse ainda que o presidente teria um grupo de aconselhamento paralelo. E que esse grupo alertava sobre as consequências de não seguir as recomendações científicas.

O ex-ministro Luiz Henrique Mandetta disse em seu depoimento na CPI da Pandemia que viu uma minuta de um documento da Presidência da República para que a cloroquina tivesse na bula a indicação para tratamento da covid-19. Segundo ele, o presidente Jair Bolsonaro parecia ouvir “outras fontes” que não o Ministério da Saúde.

Isolamento social e carta ao presidente

Aos senadores, o ex-ministro da Saúde considerou que até abril de 2020 – à época que respondia pela pasta – as políticas de isolamento social eram “adequadas” para aquele momento da pandemia. “Adequado por causa do índice de transmissão do vírus. O vírus era muito competente. Nós estamos com um sistema que não tinha naquele momento condição de responder”, justificou.

Mandetta acrescentou que escreveu uma carta em defesa do isolamento para o presidente, que foi entregue em uma reunião com outros ministros no Palácio do Alvorada.

O relator da CPI, senador Renan Calheiros (MDB-AL), questionou Mandetta se o ministério recebeu alguma proposta técnica sobre a ideia de “isolamento vertical” por parte da Presidência da República. Mandetta negou.

No isolamento vertical, o objetivo é aumentar a imunidade das pessoas, isolando apenas os grupos de risco da covid-19. Mandetta afirmou que pelo fato de o vírus ser “competente em sua transmissão”, o isolamento horizontal que envolve toda a população seria adequado no início da pandemia.

Perguntado sobre o aumento da produção de cloroquina pelo laboratório químico e farmacêutico do Exército, o ex-ministro disse aos senadores que a ordem para o aumento da produção do fármaco não partiu da Saúde. Aos senadores, Mandetta afirmou que a única coisa em relação à cloroquina que a pasta fez, após consulta ao Conselho Federal de Medicina (CFM), foi na direção do chamado uso compassivo da medicação.

Luiz Henrique Mandetta disse a CPI que cobrava da Anvisa uma fiscalização mais rigorosa em portos e aeroportos quanto à entrada de pessoas vindas de países com registros da covid-19, mas reconheceu que o número de fiscais é insuficiente. Apesar da defesa, o ex-ministro acredita que mesmo uma ação mais intensa da agência não seria suficiente para conter a chegada e o espalhamento da doença pelo país. “Não havia como fazer proibição de voos”, avaliou.

Depoimento de Pazuello é adiado

Outro ex-ministo, o general Eduardo Pazuello, não deverá comparecer para dar seu depoimento. A CPI havia marcado para esta quarta-feira (5), a depoimento do militar. Porém, um ofício da Secretaria-Geral do Exército informou que Pazuello teve contato com dois servidores do Poder Executivo que foram diagnosticados com covid-19.

A senadora Eliziane Gama (Cidadania-MA) lembrou que o ex-ministro não poderá comparecer para dar depoimento, mas que fora visto sem máscara recentemente em um shopping de Manaus (AM).

A CPI da Covid tem como objetivo investigar ações e eventuais omissões do governo federal perante a pandemia. O senador Omar Aziz (PSD-AM) é o presidente. E o senador Renan Calheiros (MDB-AL) é o relator da comissão.

O depoimento do ex-ministro da Saúde foi então remarcado para o dia 19 de maio, que cairá em uma quarta-feira. O presidente do colegiado Aziz sugeriu a data e a submeteu à votação simbólica dos membros.

O ex-ministro chegou a sugerir a alternativa de manter o seu depoimento na data original, mas feita de maneira remota. Aziz, no entanto, fez questão da presença do ex-ministro no plenário da comissão.

Eduardo Pazuello, que comandou o Ministério da Saúde por dez meses durante a pandemia, deve ser questionado, entre outros assuntos, sobre o problema da falta de oxigênio em Manaus, o número de mortos e infectados pela doença e a demora na compra de vacinas.

*Com Agência Brasil