CPI da Covid: Calheiros pede prisão de Wajngarten em depoimento conturbado

Karin Barros
Jornalista com atuação nos dois principais jornais impressos da Grande Florianópolis por quase 10 anos. Costumo dizer que sou viciada em informação, por isso me encantei com a economia, que une tudo de alguma forma sempre. Atualmente também vivo intensamente o mundo da assessoria de imprensa e do PR.

Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Na continuidade dos depoimentos da CPI da Covid, nesta quarta-feira (12), Fabio Wajngarten, ex-secretário especial de Comunicação Social do governo de Jair Bolsonaro (sem partido), deu o depoimento mais conturbado desde a instalação da comissão.

O depoimento foi marcado por bate-boca, acusações de mentiras e até pedido de prisão de Wajngarten, feito pelo relator da comissão, Renan Calheiros (MDB-AL).

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O presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), afirmou que, se depender dele, não mandará prender Wajngarten. “Não sou carcereiro de ninguém”, declarou. Ele encaminhou o depoimento do ex-secretário ao Ministério Público.

Questionamentos

Quinta pessoa a depor à CPI, o ex-secretário especial de Comunicação Social Fábio Wajngarten foi questionado por senadores que integram a comissão sobre entrevista concedida à revista Veja em abril deste ano, um mês após deixar o cargo.

Na entrevista, Wajngarten afirma que o acordo com a farmacêutica Pfizer para fornecimento de vacinas contra a covid-19 não prosperou por “incompetência e ineficiência” da “equipe que gerenciava o Ministério da Saúde nesse período”.

No depoimento de hoje, o ex-secretário confirmou que o governo recebeu, em setembro do ano passado, uma carta da Pfizer ofertando doses da vacina e que o pedido ficou parado por, pelo menos, dois meses. Mas negou ter chamado de incompetente o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello.

“Incompetência é ficar refém da burocracia, morosidade na tomada de decisões é um problema em casos excepcionais como temos na pandemia. A não resposta da carta [da Pfizer], o não retorno no tempo adequado numa pandemia”, disse.

Acareação para prisão

Nas primeiras horas da oitiva, que começou por volta das 10h, após tensão gerada pelas respostas do publicitário, Renan Calheiros pediu uma espécie de acareação para verificar se havia ou não brecha para solicitar a prisão do depoente.

Por volta das 16h30, de acordo com o UOL, o senador pediu a prisão de Wajngarten por avaliar que ele realmente estava mentindo à Comissão Parlamentar de Inquérito.

“Vossa Excelência, mais uma vez, mente. Mentiu diante dos áudios agora publicados, mentiu por ter mudado a versão com relação à entrevista que deu e continua a mentir. […] O presidente pode até decidir diferentemente, mas vou, diante do flagrante evidente, pedir a prisão de Vossa Senhoria. Ele pode decidir diferentemente, mas vou pedir porque o espetáculo de mentira que vimos aqui hoje é algo que não vai se repetir e não pode servir de precedente”, disse Renan Calheiros (MDB-AL), relator da CPI da Covid.

Dúvidas no depoimento

De acordo com a Constituição, em oitivas realizadas por uma CPI, os intimados são obrigados a falar a verdade, sob risco de receberem voz de prisão caso seja confirmado, em flagrante, algo que não corresponda à realidade dos fatos.

Calheiros reclamou por diversas vezes sobre o comportamento de Wajngarten.

A seu ver, o publicitário e ex-membro do governo deu respostas escorregadias ou em contradição ao teor da entrevista que ele havia dado à revista Veja, no final de abril deste ano.

Na matéria, o ex-chefe da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) revelou ter participado de negociações para a compra de vacinas e chamou a equipe do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello de “incompetente” e “ineficiente”.

Omar Aziz apresentou requerimento pedindo o envio da gravação da entrevista de Wajngarten concedida à revista pelo diretor de redação da Veja, Maurício Lima.

Divulgação de áudio

Ainda durante o depoimento, segundo a UOL, a própria Veja divulgou áudio de trecho da entrevista em que o ex-secretário declara que houve “incompetência” na gestão da pandemia da covid-19 no país.

Ao ser perguntado se foi “negligência ou incompetência”, Wajngarten declara: “Foi incompetência. Quando você tem um laboratório americano com cinco escritórios de advocacia apoiando a negociação e tem do outro lado um time pequeno, tímido, sem experiência, é sete a um”.

A entrevista à Veja foi justamente a razão pela qual Wajngarten foi chamado a depor na CPI da Covid.

Por esse motivo, segundo contestações de senadores independentes e de oposição, endossadas por Aziz, Wajngarten deveria confirmar ou não os fatos narrados à revista em vez de tentar sair pela tangente.

Carta enviada pela Pfizer

Wajngarten confirmou ter realizado reuniões com o presidente da Pfizer no Palácio do Planalto, em Brasília.

O ex-chefe da Secom foi perguntado sobre ter ou não competências para negociar com a farmacêutica.

O publicitário afirmou ter aberto “as portas do Planalto” para que as negociações sobre o imunizante contra a covid-19 fossem realizadas.

Wajngarten também confirmou que uma carta enviada pela Pfizer e endereçada ao governo ficou dois meses parada.

No documento, a farmacêutica pedia ao governo brasileiro celeridade nas negociações e manifestava interesse em colaborar com o Brasil.

Calheiros questionou: “Vossa senhoria relatou que abriu as portas do Planalto aos diretores da Pfizer e os trouxe a Brasília para várias reuniões. Onde essas reuniões ocorreram?”, ao que o ex-secretário de Bolsonaro respondeu:

“A carta foi enviada em 12 de setembro, o dono do veículo de comunicação me avisa em 9 de novembro que a carta não havia sido respondida. Nesse momento, eu mando um e-mail ao presidente da Pfizer, que consta nessa carta. Respondi a essa carta, no dia em que recebi. Quinze minutos depois, o presidente da Pfizer do Brasil, Carlos Murilo, que virá aqui amanhã — respondi para Nova York — me liga. ‘Fabio muito obrigado pelo seu retorno’. No dia 9 de novembro, foi o primeiro contato”, contou Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação do governo Bolsonaro

O dono do veículo de comunicação citado seria Marcelo de Carvalho, da RedeTV, disse Wajngarten mais tarde, ao acrescentar que uma apresentadora do canal era casada com um diretor da Pfizer.

Doses ofertadas

Ao falar das reuniões que manteve com representantes da Pfizer, Wajngarten buscou minimizar o número de doses ofertadas pela farmacêutica inicialmente, dizendo que, “no começo da conversa, ela falava em irrisórias 500 mil vacinas”.

Sobre os ministérios que Wajngarten havia acionado para tratar sobre os assuntos relacionados à pandemia, ele afirmou que a Secom tinha uma área de articulação, mas que, pessoalmente, não tratou com outros ministros.

No entanto, o ex-secretário alegou ter sido muito próximo ao ministro Luiz Eduardo Ramos, “sempre muito próximo da Casa Civil”.

Devido ao histórico de polêmicas envolvendo Wajngarten, que costumava atacar adversários usando as redes sociais, senadores já se preparavam para uma audiência de maior nível de tensão, com embates verbais entre entre o depoente e opositores do governo.

As declarações de Wajngarten são tidas como fundamentais para o futuro da Comissão Parlamentar de Inquérito, pois se trata de um personagem com relação direta e próxima do presidente da República, que vivia a rotina do Palácio do Planalto e que participava de reuniões na sede do Executivo federal.

Responsabilidade pela lentidão na compra

Na entrevista à Veja, Wajngarten isentou Bolsonaro de responsabilidades pela lentidão no processo de compra de vacinas contra a covid e atribuiu a culpa ao Ministério da Saúde, então comandado pelo general Pazuello, que será ouvido pela CPI na semana que vem.

“O presidente está totalmente eximido de qualquer responsabilidade nesse sentido. Se as coisas não aconteceram, não foi por culpa do Planalto. Ele era abastecido com informações erradas, não sei se por dolo, incompetência ou as duas coisas.”

Para o publicitário, o ministério só não efetivou a compra de imunizantes de milhões de doses da vacina da Pfizer —uma das críticas que levaram à queda de Pazuello— por “incompetência e ineficiência”.

Wajngarten evitou, no entanto, fazer uma menção direta ao general: “Estou me referindo à equipe que gerenciava o Ministério da Saúde nesse período”.

Hoje ele também buscou se esquivar ao ser questionado sobre quem seriam os eventuais culpados no governo pelo “dolo” ou pela “incompetência”, e alegou haver uma burocracia muito grande na administração pública.

Campanha de governo

Fabio Wajngarten declarou não recordar quem foi o autor da campanha “O Brasil não pode parar”, produzida pelo governo federal contra o isolamento social.

Conforme a UOL, o publicitário alegou que, na época em que a mídia foi veiculada, estava em recuperação após ser diagnosticado com o coronavírus.

A resposta de Wajngarten foi dada diante de um questionamento feito pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), citando que o vídeo foi proibido pelo ministro Luís Roberto Barroso, do STF (Supremo Tribunal Federal).

O parlamentar alegou que a campanha incentivava as pessoas a irem para as ruas e retomarem os negócios, “contrariando as instruções de todas as instituições mundiais de prevenção à pandemia”.

O senador Humberto Costa (PT-PE) avaliou que a propaganda do governo federal tem responsabilidade sobre o avanço do número de mortos pela doença no país.

Indagado novamente se a concepção da campanha, “em tese”, não foi elaborada por ele, Wajngarten disse: “E nunca teve aprovação de ninguém. Nunca teve contato com ninguém.”

*Com Agência Brasil

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