FGV: ainda sem impacto da pandemia, balança comercial tem superávit de US$ 4,7 bi

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução Pexels / Pixabay

O Indicador de Comércio Exterior (ICOMEX) da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indica que a pandemia do novo coronavírus, o Covid-19, ainda não impactou a balança comercial brasileira.

O último dado divulgado, de março, mostra que o superávit foi de US$ 4,7 bilhões, acréscimo de US$ 417 milhões em relação ao resultado apontado no mesmo mês de 2019.

Mesmo na comparação entre o primeiro trimestre deste ano com o do ano anterior, o impacto não foi grande: diminuição do superávit de US$ 9 bilhões para US$ 5,6 bilhões nos primeiros três meses de 2020.

Uma das razões pode ser o fato de que os contratos de exportação são de longa duração, o que demora para ser afetado por questões estruturais.

Covid-19 vai derrubar comércio internacional

Entretanto, a FGV lembra em seu relatório de análise divulgado nessa terça-feira (14), que embora os efeitos da pandemia não tenham sido sentidos nas estatísticas de comércio exterior, “um estudo divulgado no website da Organização Mundial do Comércio (OMC) estima que a queda no comércio mundial variará entre 12,9% (cenário otimista) e 31,9% (cenário pessimista)”.

E essas são apenas projeções preliminares. Ainda não se sabe a extensão nem a duração da crise.

Sem uma vacina para o Covid-19, não se sabe até quando as restrições sociais serão aplicadas.

Dados comparativos

Março teve aumento nas exportações de 10,4%, enquanto as importações subiram 10,6%, na comparação com o mesmo mês em 2019. Na comparação trimestral, as exportações recuaram em 9% de 2019 para 2020 e as importações aumentaram em 4,3%.

O índice ressalta o comportamento do volume dos fluxos de comércio.

“As exportações registraram variação positiva interanual de 13,0% e as importações, 14,6%, entre os meses de março”, explica.

Reprodução / FGV

O gráfico acima “mostra que desde outubro as exportações estavam recuando na variação mensal entre 2019 e 2020, à exceção de dezembro, quando ficou estagnada.

As importações, por outro lado, vinham aumentando, desde dezembro.

No estudo citado da OMC, é ressaltado que o comércio mundial já estava em ritmo de desaceleração, desde 2019, em função das tensões comerciais entre os Estados Unidos e a China. O comércio mundial recuou 0,1% entre 2018 e 2019”.

O gráfico abaixo mostra que os termos de troca subiram entre fevereiro e agosto de 2019, depois declinaram e ficaram estáveis desde dezembro de 2019.

“O comportamento dos termos de troca é influenciado pelo preço das commodities que representam cerca de 60% das exportações brasileiras, informa a FGV.

“Na comparação entre os meses de março de 2019 e 2020, os preços das commodities recuaram 1,6% e do trimestre aumentaram 1,9%. Esse resultado levou a uma queda de 2,4% no preço das exportações totais em março e de 0,1% na comparação dos trimestres de 2019 e 2020. Os preços das importações totais recuaram em 3,5% na comparação mensal e 2,5% entre os o acumulado até março de 2019 e 2020”, diz o relatório.

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O comportamento desfavorável dos preços das exportações significa que o crescimento das exportações fica dependente do aumento do volume, um resultado mais difícil de ser garantido num ano em que se espera uma recessão mundial.

Destaque para a CHina

China e Ásia são os mercados onde os índices de volume exportado mostra variações positivas na comparação entre o acumulado do ano até março de 2019 e 2020, como se vê no gráfico abaixo.

A FGV projeta que, no segundo semestre, “as exportações para a China poderão cair com a redução dos embarques da soja. No entanto, se a economia chinesa voltar a crescer no final do primeiro semestre, como mostram algumas projeções, é possível que seja observado um maior crescimento das vendas de carne e minério”.

“No caso da carne, no entanto, lembramos que se o acordo comercial com os Estados Unidos estiver em vigor, o Brasil poderá enfrentar maiores obstáculos para entrar no mercado chinês, em função das preferências concedidas aos Estados Unidos”, ressalta.

Produtos e setores

No mês de março, todos os setores registraram variação positiva em relação ao ano anterior.

O destaque é pra agropecuária, com aumento de 28,6%. Na indústria de transformação, o resultado foi influenciado pelas vendas de óleo combustível, com aumento de 310%.

“A variação mensal do volume exportado da indústria de transformação foi positiva para todas as categorias de uso, exceto bens de capital”, diz o relatório. “Ressalta-se o aumento de 6,2% para os bens de consumo duráveis, onde o aumento em valor de 320% de vendas de automóveis para o México explica em parte esse resultado”.

A expectativa de piora na demanda da economia deverá levar a uma queda nas importações nos próximos meses.

Abril

Na segunda semana de abril, a balança comercial registrou superávit de US$ 1,715 bilhão e corrente de comércio de US$ 5,944 bilhões.

Esse é o resultado de exportações no valor de US$ 3,829 bilhões e importações de US$ 2,115 bilhões.

Somando-se as duas semanas do mês, as exportações chegam a US$ 6,555 bilhões e as importações, US$ 4,045 bilhões, com saldo positivo de US$ 2,51 bilhões e corrente de comércio de US$ 10,6 bilhões.

No ano, as exportações totalizam US$ 56,076 bilhões e as importações, US$ 48,004 bilhões, com saldo positivo de US$ 8,072 bilhões e corrente de comércio de US$ 104,079 bilhões.

Perspectivas da FGV

“Projeções num mundo onde dominam as incertezas serão sempre sujeitas à revisões e erros”, especialmente durante uma crise pandêmica imprevisível, como é a do Covid-19.

“As expectativas são a de que o comércio mundial deverá apresentar um desempenho pior do que a crise financeira de 2009, quando o volume recuou 12,1%, mas já em 2010 ele cresceu 14,4%. Não só a queda em 2020 pode ser maior, mas a recuperação mais lenta. A crise do Covid-19 afetou o transporte de cargas e pessoas, canais de logística e as cadeias globais de valor”, analisa a FGV.

Surge um debate se os países irão rever suas políticas, em especial naqueles setores onde a dependência das importações é elevada. “Em outras palavras, o mundo será mais protecionista”, aposta.

“No momento, as políticas comerciais têm reagido às condições em cada país. Estados Unidos e países europeus restringem exportações e o Brasil zerou as alíquotas de importações de 177 produtos. Alguns desses produtos tinham alíquotas elevadas de 35% (17 produtos), 26% (6 produtos), 20% (4 produtos), 18% (29 produtos), 16% (21 produtos), 12% (40 produtos) e o restante alíquotas que variam de 10% (2 produtos) a 2% (16 produtos)”, lembra o relatório.

Uma segunda questão é se o país conseguirá obter os suprimentos necessários, em tempo de Covid-19.

Nesse momento o Brasil se depara com a questão de quanto cada país concorrente está disposto a pagar a mais; “e, no caso da China, além dos preços também conta a avaliação do parceiro ter boas relações”, nosso principal parceiro comercial.

Isso “sempre foi importante para assegurar as exportações das commodities brasileiras e, agora, também o é para ter acesso aos equipamentos médicos”, conclui.

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