Coronavírus pode retardar ambições chinesas na Nova Rota da Seda

Felipe Moreira
Felipe Moreira é Graduado em Administração de empresas e pós-graduado em Mercado de Capitais e Derivativos pela PUC - Minas, com mais de 6 anos de vivência no mercado financeiro e de capitais. Apaixonado por educação financeira e investimentos.
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Crédito: Reprodução/Pixabay

A pandemia de coronavírus ameaça atrapalhar a Iniciativa do Cinturão e Rota (ICR), conhecido como a Nova Rota da Seda. Isso afetaria diretamente os planos da China em se tornar uma superpotência. As informações são da Deutsche Well.

O contingenciamento por causa do vírus está paralisando e atrasando os projetos da ICR. As medidas para evitar a propagação do coronavírus impedem que trabalhadores e suprimentos cheguem as obras.

Projetos bilionários foram impactados na Indonésia, no Camboja, na Malásia, no Sri Lanka e no Paquistão.

As intenções mundiais de Pequim pode ser atrapalhadas ainda mais por problemas econômicos internos que estão sendo acirrados pela pandemia, o que pode limitar a capacidade das instituições financeiras chinesas de ostentar em projetos no exterior, uma vez que estão ponderando entre os gastos com saúde e recuperação econômica e a concessão de empréstimos no exterior, apontou um relatório da empresa de consultoria nova-iorquina Rhodium.

O apetite de instituições financeiras chinesas em conceder empréstimos externos também pode ser reduzido por “avalanche de renegociações [da dívida]” que parece estar a caminho devido aos impactos econômicos da pandemia, acrescentou.

A pandemia é o mais recente desafio enfrentado pela China no projeto ICR, gigantesco projeto de desenvolvimento de infraestrutura global bancado sobretudo por Pequim.

Antes do coronavírus, o projeto já estava sofrendo com a desaceleração econômica da China, com as críticas de alguns países beneficiários aos altos custos do projeto e com acusações de práticas predatórias de empréstimos.

“A China não concederá os enormes empréstimos que vimos no passado, por exemplo para um grande projeto ferroviário, para 1 grande projeto portuário ou para 1 grande projeto de barragem”, disse à DW Agatha Kratz, principal autora do relatório.

“Os bancos chineses que estão enfrentando turbulências domésticas podem não ter tanta liquidez para fazer grandes novos empréstimos para os países em desenvolvimento. Além disso, eles podem ser criticados na opinião pública chinesa por desviar recursos muito importantes do mercado interno para mercados externos”, acrescentou Kratz.

As instituições financeiras da China já tinham iniciado a desaceleração na liberação de crédito para projetos da ICR muito antes da crise atual, à medida em que o governo chinês tentava melhorar suas práticas de concessão de empréstimos em reação a críticas globais. Acredita-se que o coronavírus acelere essa tendência.

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“Um em cada US$ 5 que a China emprestou já estava potencialmente com problemas. Acrescentando-se isso à covid-19, o que se tem é uma enorme percepção de que os padrões e a qualidade dos empréstimos devem melhorar”, disse Kratz.

Plano Marshall da China

Segundo projeção anterior da mineradora BHP, os desembolsos totais em projetos relacionados à ICR podem chegar a quase US$ 1,3 trilhão (R$ 6,8 trilhões) na década até 2023, mais de 7 vezes o investimento feito durante o Plano Marshall dos EUA para reconstruir a Europa após a Segunda Guerra Mundial.

O projeto chinês foi apelidado de “novo Plano Marshall”, a iniciativa pode diminuir expressivamente os custos comerciais, aprimorar a conectividade e auxiliar definitivamente a tirar vários países da pobreza.

Mas alguns especialistas acusam a China de financiar países pobres para assegurar influência na região, mesmo que tenha que liberar crédito a projetos economicamente inviáveis.

Os críticos mencionam o Porto de Hambantota, no Sri Lanka, como um alerta para armadilhas de dependência de recursos chineses. A China assumiu o controle do porto após o Sri Lanka não conseguir pagar o empréstimo.

Segundo a Rhodium, em 40 casos de renegociações de dívidas chinesas com 24 nações, apenas o Sri Lanka teve que ceder um ativo para China.

Por outro lado, a China, não dispensa oportunidades para conseguir apoio diplomáticos e se projetar como parceiro de desenvolvimento número 1, especialmente num momento em que os EUA parecem estar cedendo esse papel.

De acordo com o relatório da Rhodium, em meio aos impactos econômicos do coronavírus, a China pode obter o mesmo efeito de “benfeitor”, desembolsando menos que no passado.

“Dado o estresse provocado pela covid-19, qualquer apoio da China será bem-vindo”, disse Kratz. “Basta fazer doações, disponibilizar equipamentos para países em necessidade, fazer pequenos empréstimos a juros baixos para construir hospitais de campanha”, explicou.

A China já enviou equipamentos e médicos para as nações da ICR afetados pela pandemia, incluindo a Itália. Os chines ficaram irritados sobre as acusações ocidentais de que seus esforços de auxílio foram motivados pela vontade de aumentar sua influência.

Renegociação de dívida

Os chineses podem usar as reestruturações de dívidas para pedir favores políticos, através de adiamentos ou ampliações do período de carência.

Muitos países da América Latina e da África possuem de 30% a 40% de sua dívida externa à China. E muito provavelmente alguns não conseguiram arcar com os compromissos devido ao coronavírus.

Mesmo com a dificuldades de instituições credoras, a China está bem posicionada para realizar empréstimos “altruístas”.  A maioria dos empréstimos externos que os chineses concederam nos últimos 15 anos aconteceram por meio de bancos de desenvolvimento, como o BDC (Banco de Desenvolvimento da China) e o Exim (Banco de Importação e Exportação da China), que estão intimamente ligados ao governo chinês e têm enormes balanços patrimoniais.

“Muitos desses bancos contam com apoio do governo. E assim, se o governo chinês pensa que politicamente, devido à imagem que projeta para o mundo, é uma boa ideia fazer novos empréstimos ou adiar o pagamento, ou talvez perdoar parte da dívida, o que é altamente improvável, então esses bancos o farão”, finalizou Kratz.

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