Coronavírus: os investidores devem temer uma recessão global?

Marcelo Hailer Sanchez
Jornalista, Doutor em Ciências Sociais (PUC-SP) e Mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Pesquisador em Inanna (NIP-PUC-SP). Trabalhei nas redações do Mix Brasil, Revista Junior, Revista A Capa e Revista Fórum. Também tenho trabalhos publicados no Observatório da Imprensa e revista Caros Amigos. Sou co-autor do livro "O rosa, o azul e as mil cores do arco-íris: Gêneros, corpos e sexualidades na formação docente" (AnnaBlume).

Relatório divulgado pelo banco britânico Barclays faz um balanço obre os impactos do coronavírus na economia global até este momento. A análise também lança luz sobre o futuro da economia dos EUA e qual pode ser o papel dos bancos centrais diante de tal situação.

Para o grupo, a maré está melhorando na China, pois, tem havido menos mortes diárias e o número de novos casos caíram de maneira acentuada.

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O estudo relata que investidores da Ásia estão vendo com bons olhos o anúncio da reabertura de escolas nas regiões mais afetadas pela Covid-19 na China. Além disso, outro fator que tem animado os investidores asiáticos é o fato de o governo chinês ter reiterado que está tomando o controle da situação.

Porém, o lado ruim da notícia é que o coronavírus se expandiu e outros surtos surgiram: Coreia do Sul, com mais de mil casos, e a Itália, com mais de trezentos infectados.

Outra questão é que, além do vírus estar, neste momento, presente em quase todo o planeta, não há uma solução médica a curto prazo.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) contestou a teoria de que o clima quente vai conter a propagação do vírus. Tese que tem sido, inclusive, utilizada no Brasil.

A Organização Mundial da Saúde (OMS), em boletim, também ressaltou o fato de que, até agora, existe apenas um medicamento com potencial para barrar a expansão do vírus: o Remdesivir da Gilead Sciences. Porém, os estudos em torno da medicação estão em fase inicial e ainda deve levar algum tempo para o remédio chegar no mercado.

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Do ponto de vista da macroeconomia, qual deve ser a preocupação?

O melhor cenário: as próximas devem ser o pico da disseminação do vírus, porém, sem surtos concentrado em nenhuma outra grande economia, com a exceção da Itália.

Porém, mesmo neste cenário, ressalta o relatório, já ocorreram alguns danos econômicos e não foi apenas na China.

No início do surto havia uma forte preocupação com o impacto na manufatura, isso tanto pela produção perdida quanto pelas fábricas que ficaram fechadas por várias semanas na China, mas também por conta do impacto nas cadeias de suprimentos globais em indústrias de automóveis e eletrônicos, dependentes da china.

Porém, o impacto na cadeia de suprimentos não é linear e as próximas semanas devem ser observadas com atenção. Se a interrupção nas referidas produções continuar por mais semanas, aí o dano será mais severo.

Qual setor deve ser mais afetado na economia global?

A análise da Barclays estima que o setor mais atingido será o do turismo internacional.

O tamanho do setor do turismo é variado e estima-se que a indústria global do turismo ultrapassava 10% do PIB global, ou mais de US$ 8 trilhões, em 2019, com a região Ásia-Pacífico sendo o principal destino, seguido a Europa e América do Norte.

Não exige credulidade estimar que, 3% dessa atividade pode acabar sendo perdida em 2020. 75% das viagens à Ásia, entre os meses de fevereiro e março foram canceladas.

De acordo com a estimativa da IATA (International Air Trnsport Association), houve uma perda de 13% dos passageiros do setor de turismo dentro e fora da Ásia-Pacífico.

Por fim, mesmo que o coronavírus tenha atingido o seu pico, a recuperação do setor pode levar muitas semanas para que a economia do setor de serviços normalize. E até isso acontecer, haverá perda significativa do PIB.

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O coronavírus pode levar os Estados Unidos à uma recessão?

Outra questão de fundamental importância que o relatório da Barclays levanta é sobre a possibilidade do coronavírus levar os Estados Unidos à uma recessão econômica. O fato é que, o temor por uma recessão, e não apenas nos EUA, mas na economia global assombra boa parte do mercado e dos investidores.

Porém, o relatório afirma que as chances de os EUA entrarem em uma recessão são baixas, visto que, comparando com as outras economias desenvolvidas, é a mais robusta. Isso por conta da boa taxa de poupança das famílias, o mercado interno está acima da tendência há vários anos.

Diante de tal cenário, as chances do coronavírus arrastarem os EUA para uma recessão são poucas, afirma o relatório.

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Qual deve ser o papel dos bancos centrais na atual conjuntura?

A análise da Barclays atenta para o fato de que não é segredo que a capacidade de boa parte dos bancos centrais de ajudar as suas respectivas economias é severamente limitada, dado onde estão as taxas de apólice.

Afinal, a maneira tradicional como um banco central ajuda a economia nacional é porque uma decisão de investimento ou consumo que não parece atraente por exemplo, taxas de juros de 3%, parece mais atraente em 1% ou zero.

Todavia, nas principais economias (especificamente na zona do euro e no Japão), a taxa política já foi negativa por vários anos. Ou seja, é improvável que reduzir ainda mais as taxas de juros tenha um grande impacto de primeira ordem.

Porém, a política monetária pode ajudar em outras áreas, principalmente a partir do canal financeiro. Uma política monetária mais fácil pode frequentemente ajudar a colocar um piso nos preços de ativos financeiros, ajudar a apoiar as expectativas de inflação e trabalhar para compensar o impacto na economia diante da contração das condições financeiras.

Em uma recessão, geralmente há um ciclo de feedback negativo entre os mercados financeiros e a economia. Os dados enfraquecem, os mercados financeiros caem e as condições financeiras pioram, os consumidores recuam e as empresas lutam para tomar empréstimos, o que afeta a economia e, em seguida, os preços dos ativos financeiros recuam novamente.

A política pode desempenhar um papel importante na quebra desse ciclo de feedback, mesmo quando, aparentemente, o efeito de alívio das políticas possa parecer limitado.