Coronavírus dos dois casos confirmados no Brasil têm genomas diferentes

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/Wikimedia Commons

Após realizar a decodificação do genoma do coronavírus dos dois infectados no Brasil em tempo recorde, cientistas do Instituto Adolfo Lutz (IAL) disseram, nessa segunda-feira (2), que o do primeiro caso é diferente do segundo. Isso pode indicar que há transmissão interna nos países da Europa e que o vírus já não é mais o da China.

“O primeiro isolado se mostrou geneticamente mais parecido com o vírus sequenciado na Alemanha. Já este segundo genoma assemelha-se mais ao sequenciado na Inglaterra. E ambos são diferentes das sequências chinesas. Tal fato sugere que a epidemia de coronavírus está ficando madura na Europa, ou seja, já está ocorrendo transmissão interna nos países europeus. Para uma análise mais precisa, porém, precisamos dos dados da Itália, que ainda não foram sequenciados”, disse Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical (IMT) da Universidade de São Paulo (USP), que fez o sequenciamento em parceria com o IAL.

O primeiro caso foi confirmado em 26 de fevereiro e o segundo, três dias depois, em 29. Os dois não possuem relação entre si, a não ser o fato de morarem em São Paulo.

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O sequenciamento completo do segundo isolado viral foi concluído em apenas 24 horas. O primeiro havia sido em 48 horas. Os dados do estudo devem ser divulgados em breve, segundo informa a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que também participa do projeto.

Da dengue ao coronavírus

A Fapesp conta que “após a publicação da primeira sequência brasileira do Covid-19 no site, no dia 28 de fevereiro, pesquisadores italianos entraram em contato com a equipe da USP para solicitar o compartilhamento dos protocolos usados”.

O trabalho tem sido conduzido com apoio do Centro Conjunto Brasil-Reino Unido para Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE), rede de pesquisadores dedicada a responder e analisar dados de epidemias em tempo real, coordenada por Sabino e Nuno Faria, da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

“Nosso objetivo inicial era treinar a equipe do Adolfo Lutz e implementar a tecnologia necessária para o monitoramento em tempo real da epidemia de dengue em curso no Brasil. Quando foram divulgados os casos de coronavírus na China, em janeiro, começamos a nos preparar para também monitorar em tempo real essa nova doença”, contou Sabino.

“Essa agilidade só está sendo possível agora graças ao financiamento contínuo que nosso grupo no IMT-USP recebeu desde 2016. Os protocolos para sequenciamento foram desenvolvidos por uma aluna durante estágio de pesquisa em Birmingham (Reino Unido). Conseguimos baixar o custo do teste molecular de US$ 500 para US$ 20. É um ganho tecnológico enorme para o país”, disse.

Segundo ela disse à Fapesp, “a principal vantagem do monitoramento em tempo real de uma epidemia é a possibilidade de identificar de onde exatamente veio o vírus que chegou ao país. Tal informação pode orientar ações de contenção e ajudar a reduzir a disseminação da doença”.

Todos os casos confirmados no estado de São Paulo serão sequenciados. Caso os testes positivos comecem a se multiplicar em larga escala, o trabalho passará a ser orientado pelo Centro de Vigilância Epidemiológica (CVE) da Secretaria de Estado da Saúde, que também integra o Projeto CADDE.

No Brasil

Além dos dois casos confirmados, o país estava monitorando, até as 13h desta segunda-feira (2), 433 casos suspeitos. Os dados foram repassados pelas Secretarias Estaduais de Saúde. Até o momento, 162 casos suspeitos de coronavírus já foram descartados em todo o Brasil.

O ministério monitora 15 países, além da China, por apresentarem transmissão ativa do novo coronavírus. Com isso, os critérios para a definição de caso suspeito enquadram agora, as pessoas que apresentarem febre e mais um sintoma gripal, como tosse ou falta de ar e tiveram passagem pela Alemanha, Austrália, Emirados Árabes, Filipinas, França, Irã, Itália, Malásia, Japão, Singapura, Coreia do Sul, Coreia do Norte, Tailândia, Vietnã e Camboja, além da China, nos últimos 14 dias.

Os tipos de coronavírus conhecidos até o momento são o Alpha coronavírus 229E e NL63, o Beta coronavírus OC43 e HKU1, esses dois os mais comuns entre humanos, além do SARS-CoV (causador da Síndrome Respiratória Aguda Grave ou SARS), o MERS-CoV (causador da Síndrome Respiratória do Oriente Médio ou MERS) e agora o SARS-CoV-2, que surgiu na China em 31 de dezembro de 2019.

Segundo informa o Ministério da Saúde, alguns coronavírus podem causar doenças graves com impacto importante em termos de saúde pública, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), identificada em 2002, e a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), identificada em 2012.

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