Copom define Selic nesta quarta-feira: mercado aposta em alta dos juros

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/BC

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), iniciou nesta terça-feira sua 237ª reunião, que segue até esta quarta-feira (17). Dela, deve sair a decisão quanto à taxa básica de juros (Selic).

A expectativa do mercado é por alta da Selic, após sete meses de taxa básica de juros em seu piso histórico: 2%.

É grande a aposta no aumento de 2% para 2,5% e até 2,75%. Mas há quem acredite em leve ajuste de 0,25 ponto porcentual, na crença de que o Banco Central está mais preocupado com a atividade fraca do país do que com a inflação. Entretanto, até mesmo estes esperam um comunicado mais forte do BC, sugerindo que vai acelerar o passo nas próximas reuniões.

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Em levantamento feito pelo jornal Valor com 87 instituições financeiras e consultorias, a alta da Selic para 2,5% é projetada por 76 casas.

BTG Pactual (BPAC11) vê Selic a 2,5%

Para o BTG Pactual (BPAC11), o BC deverá optar por Selic a 2,5% e adotando tom hawkish no comunicado.

“O mercado, que chegou a esticar suas apostas em 0,75 pontos porcentuais para esta reunião, arrefeceu o estresse com a aprovação da PEC Emergencial no Senado e na Câmara, além de entender as entrelinhas das recentes e intensas intervenções do BC no mercado cambial”, pondera o banco.

No relatório, o banco salienta que, desde a última reunião do Copom, em janeiro, o quadro geral para o país piorou, fazendo com o que o mercado acelerasse suas apostas no ciclo de alta da Selic.

De lá para cá, dois fatores importantes contribuíram para este novo cenário, dizem os analistas do banco. O Brasil encontra-se na pior fase da pandemia, com UTIs lotadas, recordes nas médias móveis de novos casos e óbitos, retornando para medidas mais severas de isolamento. E a retomada da economia americana com dados de atividade acima das expectativas e a rápida evolução da vacinação nos americanos piora o interesse do investidor estrangeiro pelos emergentes, com migração de investimentos e alta do dólar – o que, consequentemente, impacta diretamente na inflação.

Como ficam os investimentos com a iminente alta da Selic?

Paulo Filipe de Souza, sócio e assessor daEQI Investimentos, é outro a considerar que a Selic deve ir para 2,5% a partir de amanhã.

“Alguns agentes acham prudente 0,75 pontos porcentuais de ajuste. Porque se a gente observar o Boletim Focus, ele mostra uma aceleração absurda para inflação e também subida da Selic. Então, nos resta esta dúvida. O Copom vai fazer o ajuste mais fortes de 0,75 e mostrar que estava errado na meta de inflação? Ou vai andar no consenso do mercado e começar com essas leves altas de 0,5 ponto porcentual a cada reunião?”, avalia.

Para ele, ainda é cedo para precisar qual o nível de taxa de juros saudável para o Brasil. Mas ela gira em torno de 4% a 4,5% até o final do ano.

Para o investidor, ele diz, o comunicado que virá da reunião do Copom terá dois pontos principais de atenção: as perspectivas para a inflação e a velocidade com que as altas da Selic serão promovidas.

“O investidor deve observar que a inflação segue preocupante. E que os investimentos atrelados à Selic começam a ficar mais interessantes a partir daqui”, diz. “Minha sugestão é alocar parte dos recursos em títulos pré-fixados atrelados à taxa, mas também nos indexados ao IPCA, para se precaver de eventuais aumentos de preços”, complementa.

Histórico da Selic

Foram cinco manutenções de Selic a 2% definidas pelo Copom desde 17 de junho de 2020, quando a taxa foi reduzida de 2,25% para 2%.

Mas a sequência de quedas começou bem antes. Desde julho de 2015, a Selic sofreu uma série de reduções, indo de 14,25% para os atuais 2%.

Tais medidas sempre serviram para estimular a economia, já que quanto menor a taxa básica de juros, mais acesso a crédito barato tem as empresas e as famílias, com incentivo ao consumo e à produção.

A decisão de aumentar a Selic agora atende a um cenário diferente: de baixa produção e de alta inflacionária no país.

Indicador oficial de inflação do Brasil, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro trouxe alta de 0,86%, 0,61 ponto percentual acima da taxa de janeiro (0,25%).

E a projeção, captada pelo último Boletim Focus, dá conta de IPCA a 4,60% até o fim do ano – a última leitura era de 3,98%.

O controle da inflação era uma das condicionantes do BC para manter a Selic a 2%. Vale lembrar que, na última reunião, de janeiro, o Copom definiu pela retirada do forward guidance, justamente porque a inflação não se comportou como esperado pelo comitê.

A outra condição era que o regime fiscal não fosse alterado, o que, até aqui, não aconteceu no país.

Evolução Selic ao longo dos anos

Selic

Reprodução/BC

Por que a taxa afeta os investimentos?

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Para o investidor, a Selic deve ser um norte para montar uma boa carteira de investimento. Com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos.

Neste contexto, o mercado de ações ganha destaque, assim como os fundos imobiliários.

Em sentido contrário, quando a Selic sobe, a renda fixa volta a ficar mais atraente.

Como são as reuniões do Copom?

As reuniões do Copom acontecem a cada 45 dias e são organizadas para durar um período de dois dias.

No primeiro dia, são apresentados os dados mais importantes sobre as condições de mercado em uma reunião. Temas como condições de liquidez, mercado monetário, mercados internacionais e câmbio são apresentados nesta etapa. Depois disso, a reunião começa, no período da tarde. Os membros discutem a conjuntura econômica nacional e internacional.

No segundo dia, ocorre a deliberação. Os membros debatem e fazem uma votação para definir um posicionamento. A decisão é publicada para o mercado por meio da internet, na página do Banco Central, acompanhada de explicações.

A ata desta reunião do Copom será divulgada na próxima terça-feira, dia 23.