Copom: ata reforça necessidade de novo corte de até 0,75 pp

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Reprodução/Flickr

O Comitê de Politica Monetária (Copom) do Banco Central reforçou na ata da última reunião divulgada nesta manhã (12) a necessidade de um reajuste complementar de até 0,75 ponto porcentual.

De acordo com o documento, para a próxima reunião, diante do cenário fiscal e da conjuntura econômica, o “Comitê considera um último ajuste, não maior do que o atual, para complementar o grau de estímulo necessário como reação às consequências econômicas da pandemia da Covid-19”.

No entanto, diz o documento, “reconhece que se elevou a variância do seu balanço de riscos e ressalta que novas informações sobre os efeitos da pandemia, assim como uma diminuição das incertezas no âmbito fiscal, serão essenciais para definir seus próximos passos”.

Na última reunião, o Copom cortou os juros em 0,75 ponto porcentual. Com isso, a Selic alcançou seu nível histórico mais baixo, 3%.

Copom: conjuntura

Segundo a ata, os dados mensais de atividade econômica disponíveis até o mês de março repercutem apenas parcialmente os efeitos da pandemia da Covid-19 sobre a economia brasileira.

“Indicadores de maior frequência e tempestividade, referentes ao mês de abril, mostram que a contração da atividade econômica será significativamente superior à prevista na última reunião do Copom.”

Em relação ao cenário externo, o documento cita que a pandemia está provocando uma desaceleração significativa do crescimento global, queda nos preços das commodities e aumento da volatilidade nos preços de ativos.

Nesse contexto, a ata destaca as provisões adicionais de estímulos fiscal e monetário pelas principais economias.

Entretanto, ressalta que o ambiente para as economias emergentes segue desafiador. Isto devido à saída de capitais significativamente superior à de episódios anteriores.

Copom: deflação

Ainda conforme a ata, as projeções de curto prazo experimentaram revisões relevantes. E incorporam a perspectiva de deflação significativa nos próximos meses.

“Houve recuo adicional no preço do petróleo e queda acentuada nos preços do produtor doméstico de combustíveis. Eles seguirão repercutindo, nas próximas semanas, sobre os preços ao consumidor”, destaca.

“Os resultados mais recentes dos índices de preços evidenciaram efeitos desinflacionários significativos sobre preços de serviços e de bens industriais.”

Riscos inflacionários

Adicionalmente, o cenário básico do Copom para a inflação envolve fatores de risco em ambas as direções:

  • Por um lado, o nível de ociosidade pode produzir trajetória de inflação abaixo do esperado. Esse risco se intensifica caso a pandemia provoque aumentos de incerteza e de poupança precaucional. E, consequentemente, uma redução da demanda agregada com magnitude ou duração ainda maiores do que as estimadas.
  • Por outro lado, políticas fiscais de resposta à pandemia que piorem a trajetória fiscal do país de forma prolongada, ou frustrações em relação à continuidade das reformas, podem elevar os prêmios de risco. E gerar uma trajetória para a inflação acima do projetado no horizonte relevante para a política monetária.

Recuperação gradual a partir do terceiro trimestre

O comitê ressalta que enxerga uma recuperação gradual da economia brasileira a partir do terceiro trimestre de 2020. E que trabalha com um cenário básico de forte queda no Produto Interno Bruto (PIB), a menos que avanços médicos significativos no combate à pandemia sejam apresentados.

“É plausível um cenário em que a retomada, além de mais gradual do que a considerada, seja caraterizada por idas e vindas”, afirma o documento.

Corte de juros tem limite em países emergentes

A ata revela ainda que um tema bastante discutido pelo comitê foi o limite de corte das taxas de juros em mercados emergentes, como o brasileiro. De acordo com os integrantes do grupo, o Brasil já está perto de um nível onde reduções adicionais da Selic trariam instabilidade aos mercados.

O “limite” da taxa de juros, explica a ata, deve ser maior em economias emergências, devido ao prêmio de risco.

“A maioria dos membros ponderou que o limite (de corte de juros) seria significativamente maior em economias emergentes do que em países desenvolvidos. Isto devido à presença de um prêmio de risco. Foi ressaltado que esse prêmio tende a ser maior no Brasil, dadas a sua relativa fragilidade fiscal e as incertezas quanto à sua trajetória fiscal prospectiva”, explica.

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E complementa: “Nesse contexto, já estaríamos próximos do nível onde reduções adicionais na taxa de juros poderiam ser acompanhadas de instabilidade nos mercados financeiros e nos preços de ativos”. Ou seja, muito provavelmente um último corte de até 0,75 pontos porcentuais pode ser aguardado, mas este deve ser mesmo o limite do Banco Central.

Analistas vêem “porta aberta” para cortes além dos esperados para junho

Em relatório da corretora XP, os analistas destacam que a ata não trouxe muita novidade além das definições da reunião da última semana. No entanto, chamam atenção a três itens:

  • O Banco Central não vê uma recuperação da atividade econômica em V. O comitê prevê uma retomada gradual a partir do segundo semestre, mas com possíveis “reviravoltas”.
  • O Banco Central não deve zerar a taxa de juros, como alguns analistas defendem. Isto devido ao prêmio de risco. Mas qual seria este piso da Selic? A corretora questiona se 1% ou 1,5% seriam taxas viáveis.
  • O Copom demonstra preocupação com a inflação, afirmando que “o cumprimento da meta continua sendo o principal objetivo da política monetária”. “Isso é relevante!”, defende a corretora. Para a XP, o comitê deixa as portas abertas para cortes além do que já é esperado para a reunião de junho.

Apesar da indicação do Copom de que o próximo corte pode ser o último, a XP acredita que a complexidade do cenário indica uma probabilidade forte de estímulos adicionais.

Para o economista Victor Beyruti Guglielmi, da Guide, o Banco Central deve dar sequência ao movimento de estímulo monetário, possivelmente com um corte adicional de 0,5 ponto porcentual. Mas confirma que ele deixou as “portas abertas” para novos cortes. “Principalmente porque o cenário ainda não estará muito claro até a próxima reunião”, afirma.

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