Em ata, Copom confirma “novo plano de voo”, com altas de 1,5 pp da Selic

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.
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Crédito: Wikimedia

Em ata divulgada na manhã desta quarta-feira (3), o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central reiterou a alta de 1,5 ponto porcentual para a Selic, que chegou a 7,75%, mas admitiu que uma elevação ainda maior chegou a ser cogitada pelos membros.

Até então, o Copom vinha adotando como “plano de voo” – como definiu o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto – altas de 1 ponto porcentual a cada reunião. No entanto, diante do avanço da inflação e do risco fiscal, a trajetória da Selic foi acelerada.

“(O Copom) avaliou, inclusive, cenários com ritmos de ajuste maiores do que 1,50 ponto percentual. Prevaleceu, no entanto, a visão de que trajetórias de aperto da política monetária com passos de 1,50 ponto percentual, considerando taxas terminais diferentes, são consistentes, neste momento, com a convergência da inflação para a meta em 2022, mesmo considerando a atual assimetria no balanço de riscos”, afirmou em ata.

No mercado, havia casas de análise apostando em alta de até 3 pontos na reunião da última semana. Mas, segundo o Copom, o ritmo de ajuste é o mais adequado para garantir a convergência da inflação para as metas no horizonte relevante (2022 e 2023). “Neste momento, o cenário básico e o balanço de riscos do Copom indicam ser apropriado que o ciclo de aperto monetário avance ainda mais no território contracionista”, afirma o comitê.

Para a próxima reunião, o Copom antevê mais um ajuste da mesma magnitude. Mas, novamente, afirma que “os passos futuros da política monetária poderão ser ajustados para assegurar o cumprimento da meta de inflação e dependerão da evolução da atividade econômica, do balanço de riscos e das projeções e expectativas de inflação para o horizonte relevante da política monetária”.

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Copom: avaliação do cenário externo

Quanto ao cenário externo, o Copom reconhece que o ambiente tem se tornado menos favorável aos emergentes: “O próximo ano deve ser caracterizado por menor crescimento, com a reversão dos impulsos fiscais e avanço nos processos de normalização da política monetária”, diz.

Copom: avaliação do cenário interno

Em relação à atividade econômica brasileira, indicadores recentemente divulgados da produção industrial e do comércio apresentaram resultados negativos e abaixo do esperado, segundo o Copom.

Por outro lado, os segmentos do setor de serviços mais atingidos pela pandemia continuam em trajetória de recuperação robusta. O Comitê manteve a expectativa de uma retomada da atividade no segundo semestre, ainda que menos intensa e mais concentrada no setor de serviços.

A inflação ao consumidor segue elevada e tem se mostrado mais persistente que o previsto pelo comitê. “A alta dos preços está mais disseminada e abrange também componentes mais associados à inflação subjacente. A alta nos preços dos bens industriais ainda não arrefeceu e deve persistir no curto prazo, enquanto a inflação de serviços acelerou, refletindo a gradual normalização da atividade no setor, dinâmica que já era esperada”.

Além disso, desde a última reunião houve alta substancial dos preços internacionais de commodities energéticas, cujo impacto inflacionário é amplificado pela depreciação do real, sendo essa combinação o fator preponderante para a elevação das projeções de inflação do Comitê tanto para 2021 quanto para 2022, diz o comitê.

Cenários para a inflação

O cenário básico do Copom para a inflação envolve fatores de risco em ambas as direções.

Por um lado, uma possível reversão, ainda que parcial, do aumento recente nos preços das commodities internacionais em moeda local produziria trajetória de inflação abaixo do cenário básico.

Por outro lado, novos prolongamentos das políticas fiscais de resposta à pandemia que pressionem a demanda agregada e piorem a trajetória fiscal podem elevar os prêmios de risco do país.

Fiscal: questionamentos elevam risco de inflação

Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o comitê afirma que “recentes questionamentos em relação ao arcabouço fiscal elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação”. Isso implica maior probabilidade de trajetórias para inflação acima do projetado de acordo com o cenário básico.

E admite: “surgiram, entre as reuniões do Comitê, questionamentos relevantes em relação ao futuro do arcabouço fiscal atual, resultando em elevação dos prêmios de risco. Esses questionamentos também elevaram o risco de desancoragem das expectativas de inflação, aumentando a assimetria altista no balanço de riscos”.

Projeção da Selic segundo o último Boletim Focus

Selic

Reprodução/BTG