Companhias brasileiras planejam migrar para bolsa dos EUA

Felipe Moreira
Editor na EuQueroInvestir, cobre temas que vão desde o mercado de ações ao ambiente econômico nacional e internacional.
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Empresas brasileiras listadas na Bolsa de São Paulo, como Inter (BIDI11), Locaweb (LWSA3), Americanas (AMER3) e Natura (NTCO3) se preparam para migrar suas ações para o mercado dos Estados Unidos. Após o País ter visto um movimento de companhias abrindo capital diretamente em Nova York, como a Stone, agora companhias tradicionais, que já têm papéis listados na B3 (B3SA3), procuram migrar para o mercado americano.

De acordo com especialistas, a mudança busca por estabilidade e menor exposição ao risco Brasil, além da facilidade de acesso a novos investidores para financiar planos de expansão.

No acumulado do ano até sexta-feira (26), o índice S&P 500 tinha ganhos de 22%, enquanto a Nasdaq registrava alta de 20%. Por outro lado, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuava 14%.

As companhias com interesse de listagem nos EUA precisam transferir suas sedes para o exterior. O Conselho de Administração do Inter, por exemplo, já aprovou a mudança.

A Natura, por sua vez, avalia a criação de uma holding no exterior. Enquanto a Locaweb e Americanas estão se organizando para trilhar o mesmo caminho.

Inter (BIDI11) aprova migração para Nasdaq

O Inter (BIDI11) aprovou a reorganização societária em assembleia realizada na semana passada. A operação visa a migração da listagem das ações para Nasdaq, bolsa de valores americana, onde estão listadas as grandes empresas de tecnologia.

A reorganização enseja direito de reembolso para os acionistas dissidentes no valor de até R$ 45,84 por unit ou o acionista pode optar pela conversão de ações em recibos de ações (BDRs).

Conforme o Inter, a migração ajudará no fortalecimento da marca como companhia global de tecnologia no setor financeiro e o aumento de sua base de investidores.

Em relatório, o BTG escreveu que à medida que o engajamento aumenta, levando a uma melhoria do ARPU (receita média
por usuário) nos próximos trimestres, a lucratividade deve mostrar melhorias relevantes, especialmente em 2023 e além. Dessa forma, o banco reitera recomendação de compra para as units (BIDI11) e preço-alvo de R$ 65,00.

Natura (NTCO3) estuda listagem na NYSE

A Natura (NTCO3) informou, em fato relevante no dia 11 de novembro, que iniciou estudos para realçar sua presença global com uma mudança de sua listagem primária para a NYSE, ao mesmo tempo em que mantém a dupla listagem por meio de BDRs listados na B3.

Para viabilizar esse processo, a companhia informou que está considerando a criação de uma nova companhia holding do Grupo, a ser domiciliada preferencialmente no Reino Unido, onde o Grupo já possui uma presença relevante e onde a The Body Shop e a Avon estão sediadas.

Para Bradesco BBI, a mudança de domicílio da Natura para fora do Brasil, provavelmente tornará a varejista mais eficiente em termos fiscais.

O BTG recomenda compra para ações da Natura (NTCO3) e preço-alvo de R$ 70,00.

Tá, e aí?

Com a migração, as companhias brasileiras passariam a ter uma dupla listagem em Bolsa – com recibos de suas ações (BDRs, na sigla em inglês) listados na B3 (B3SA3), mas tendo os EUA como o mercado principal para a negociação dos seus ativos.

Além disso, as empresas estariam sujeitas a legislação americana e deveriam se reportar a Comissão de Valores Mobiliários americana (SEC).

Já os investidores não negociariam mais diretamente as ações da empresa na Bolsa brasileira. Eles negociariam através de recibos de ações, o que resultaria em mais risco, porque teriam que lidar com risco de mercado e flutuações do câmbio.

Caso a mudança se concretize, o investidor brasileiro terá duas opções: receber reembolso das ações ou convertê-las em BDRs.

Benefícios da listagem nos EUA

As companhias brasileiras acreditam que a listagem de suas ações nos EUA acelerará a captação de recursos para avançar em estratégias de internacionalização, visto que terão acesso ao mercado de capitais mais líquido e maduro do mundo.

A mudança de listagem também ajuda a fugir da aversão do mercado internacional ao Brasil em tempos de turbulência política e econômica, além do sistema societário frágil.

Com regras diferentes do Brasil, a listagem em bolsas americanas também permite a emissão de ações preferenciais. E nisto difere do mercado brasileiro. Por aqui, o segmento do Novo Mercado da B3 permite apenas o lançamento de ações ordinárias.

E isso acaba sendo um fator relevante para companhias que não abrem mão do controle acionário da empresa.

Especialistas afirmam ainda que as burocracias excessivas da B3 costumam ser motivos que pesam na hora de decidir onde fazer a listagem das ações.

Além disso, as bolsas americanas oferecem dispositivos mais avançados de governança corporativa. Isso porque os requisitos exigidos pela SEC são mais rigorosos.

Companhias brasileiras que fizeram IPO nos EUA

Entre as brasileiras que realizaram realizaram o IPO em bolsas americanas nos últimos anos, os principais destaques ficaram para:

PagSeguro: entre os maiores IPOs de tecnologia

PagSeguro (PAGS), companhia que pertence ao grupo UOL, levantou cerca de US$ 2,27 bilhões em sua oferta pública inicial de ações na Bolsa de Nova York, em 2018.

Na época foi considerado o quarto maior IPO de tecnologia da história.

Líder no mercado brasileiro de meios de pagamentos online, a companhia consolidou-se como a maior plataforma de pagamento online do Brasil.

É possível investir na PagSeguro através dos Brazilian Depositary Receipts (BDRs), disponíveis na B3. O código de negociação é PAGS34.

Stone

A Stone (STNE) é uma fintech de meios de pagamentos multibandeira, que atua por intermédio de máquinas de cartões, processadoras de transações realizadas por cartões de crédito, débito e voucher.

Em 2018, as ações da companhia dispararam mais de 30% em sua estreia na Nasdaq, em um IPO que captou US$ 1,22 bilhão.

O IPO teve a participação de grandes investidores internacionais como Warren Buffett, por meio da holding de investimentos Berkshire Hathaway, e a Ant Financial da chinesa Alibaba.

A empresa já anunciou investimento de R$ 2,5 bilhões no Banco Inter, por meio de follow-on.

Afya Educacional

A Afya Educacional (AFYA) abriu seu capital na Nasdaq em 2019 com ações subindo 20% na estreia.

O grupo brasileiro de educação, especializado em cursos de medicina, levantou US$ 300 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) com o IPO.

A Afya foi criada pela união da NRE Educacional, maior grupo de faculdade de medicina do Brasil, e da Medcel, marca de cursos digitais preparatórios para provas de residência médica.

Azul: IPO no Brasil e nos EUA

Há situações ainda em que a empresa opta por abrir seu capital em mais de uma bolsa.

A Azul, por exemplo, abriu seu capital em 2017 na B3 (AZUL4) e na Nyse (AZUL) e, ao todo, a companhia captou R$ 2,02 bilhões.

Companhias brasileiras que fizeram IPO nos EUA este ano

Vinci Partners

Em janeiro de 2021, a gestora de private equity Vinci Partners lançou sua oferta pública inicial de ações nos EUA.

A gestora, listada na Nasdaq com o ticker VINP, levantou ao menos US$ 250 milhões.

Pátria

Outra gestora brasileira de private equity que lançou IPO nos EUA em janeiro de 2021 é a Pátria Investimentos.

O total levantado foi de US$ 625 milhões. A gestora será listada na Nasdaq, com o ticker PAX.

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