Companhias aéreas dos EUA sofrem com crise do coronavírus

Paulo Amaral
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Crédito: Reprodução / Canva - Avião - Tempo estimado de leitura 2"30'

A crise causada pelo novo coronavírus acertou em cheio as companhias aéreas de todo o mundo, mas causou um verdadeiro caos nos Estados Unidos.

De acordo com a CNBC, apesar do forte apoio do governo de Donald Trump ao setor ter impedido algumas empresas de quebrar, muitas podem vir a pedir falência nos próximos meses.

A empresa de dados de viagens Cirium constatou que 43 companhias aéreas comerciais “falharam” desde janeiro deste ano, em comparação com 46 em todo o ano de 2019 e 56 em todo o ano de 2018.

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A “falha” em uma companhia aérea, de acordo com a Cirium, é considerada quando a mesma interrompe momentaneamente ou suspende por completo as operações.

“Sem a intervenção e o apoio do governo, teríamos sofrido falhas em massa nos primeiros seis meses desta crise. Em vez disso, tivemos um número administrável de falhas e muito poucos colapsos ”, disse Brendan Sobie, analista independente da Sobie Aviation.

A especialista acrescentou que muitas companhias aéreas já estavam lutando antes de a pandemia chegar, mas agora têm uma “chance maior de sobrevivência” por causa da ajuda do governo.

“Se há alguma fresta de esperança em tudo isso, é que as coisas estavam tão ruins que os governos não tinham outra opção a não ser apoiar”, disse Rob Morris, chefe global de consultoria da Cirium.

Ameaça a outras companhias aéreas

De acordo com Rob Moris, apesar da ajuda financeira, as perspectivas para o restante de 2020 “não são nada animadoras”, e novas “falhas” podem acontecer.

“Muitas falhas de companhias aéreas geralmente ocorrem nos últimos meses do ano”, disse ele à CNBC, por e-mail. “O primeiro e o quarto trimestres são os mais difíceis, porque a maior parte da receita é gerada no segundo e terceiro trimestres”, completou.

“Eu normalmente caracterizaria que as companhias aéreas passam os verões construindo ‘baús de guerra’ para que possam sobreviver aos invernos”, acrescentou.

Segundo o chefe global da Cirium, a meta das companhias aéreas agora é “sobreviver a qualquer custo” e ver se o verão de 2021 traz soluções ou maior demanda.

“Com a recuperação da demanda estagnada na maioria das regiões e as companhias aéreas ainda lutando com a geração de receita e saída de caixa, esperamos ver mais falhas no último trimestre de 2020 e no primeiro trimestre de 2021, pelo menos”, pontuou.

Brendan Sobie, da Sobie Aviation, concordou com a previsão e disse que alguns governos podem relutar em resgatar as companhias aéreas pela segunda vez.

“Mas ainda não espero falências em massa. O número de falências e colapsos deve ser administrável e também espalhado por um período de tempo relativamente longo ”, disse ele.

“Grandes” do setor aéreo foram afetadas

O levantamento divulgado pela Cirium mostrou que, das 43 empresas aéreas afetadas pela crise em 2020, 20 delas podem ser consideradas “grandes” do setor.

A avaliação do tamanho da companhia é feita em cima do número de aeronaves que cada uma possui.

Segundo Morris, 20 das que “falharam” em 2020 operavam com ao menos 10 aeronaves, em comparação com 12 em todo 2019 e 10 ao longo de 2018, mostraram os dados da Cirium.

“Embora tenhamos visto menos falências de companhias aéreas este ano, o número de companhias aéreas falidas que operaram dez ou mais aeronaves já é maior do que vimos em qualquer um dos últimos seis anos completos. Portanto, está claro que a pandemia está afetando as grandes companhias aéreas e fazendo com que falhem ”, disse Morris.

Aviões parados

O reflexo dessas “falhas”, segundo o relatório, foi que um número maior de aeronaves também parou de operar. Cerca de 485 aviões ficaram inativos por causa de falhas de companhias aéreas até agora, contra 431 em 2019 e 406 em 2018.

“Saindo da parte de trás de dez anos de expansão contínua da demanda, que resultou na base de tráfego global quase dobrando naquele tempo, esse choque repentino deixou as companhias aéreas sem receita e com custos estruturalmente altos”, acrescentou Morris.

IATA: iminente crise de caixa ameaça as companhias aéreas

A Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) alertou esta semana que a indústria vai queimar US $ 77 bilhões em dinheiro no segundo semestre de 2020.

Mesmo com a retomada das operações de muitas companhias, a conta da IATA dá uma média de quase US$ 13 bilhões pode mês mês ou US$ 300 mil por minuto.

A lenta recuperação das viagens aéreas fará com que a indústria continue a queimar caixa a uma taxa média de US$ 5 bilhões a US$ 6 bilhões por mês em 2021.

É um dinheiro que engrossa as perdas já estabelecidas desde o começo da pandemia, e que já somam US$ 84,3 bilhões.

O transporte aéreo foi o primeiro a ser afetado, ainda em janeiro, com proibições de e para a China.

E provavelmente será um dos últimos a retomar os níveis pré-crise.

IATA pede ajuda dos governos

Ainda assim, a IATA pediu aos governos nacionais que ajudassem as companhias aéreas.

A preocupação da associação internacional está especialmente com a próxima temporada de inverno no Hemisfério Norte.

Ela pede medidas de alívio adicionais: ajuda financeira que não acrescente mais dívidas ao já altamente endividado balanço da indústria.

Até o momento, governos em todo o mundo forneceram US$ 160 bilhões em apoio.

Isso inclui ajuda direta, subsídios salariais, isenção de impostos corporativos e isenção de impostos específicos da indústria, incluindo impostos sobre combustíveis.

“Agradecemos este apoio, que visa garantir que a indústria do transporte aéreo permaneça viável e pronta para religar as economias e apoiar milhões de empregos em viagens e turismo”, disse Alexandre de Juniac, Diretor Geral e CEO da IATA.

“Mas a crise é mais profunda e mais longa do que qualquer um de nós poderia ter imaginado”, ele lamentou.

Ele afirma que os programas de suporte iniciais estão se esgotando.

A associação, então, ligou o alarme de novo.

“Se esses programas de suporte não forem estendidos, as consequências para uma indústria já prejudicada serão terríveis”, ressaltou.

Caixa

“Historicamente, o caixa da alta temporada de verão ajuda as aéreas durante os meses de inverno”, disse o CEO da IATA.

Como na história da cigarra e da formiguinha, as aéreas enchem o bolso no verão.

Infelizmente, a primavera e o verão de 2020 foram “desastrosos”, segundo Juniac.

Ao contrário, as companhias aéreas queimaram dinheiro ao longo do período.

“Sem que os governos reabram as fronteiras, não podemos contar com a recuperação do fim de ano para fornecer um pouco de dinheiro extra para nos manter até a primavera”, disse.

E o caixa vai sendo queimado.

A IATA estima que, apesar de cortar custos em pouco mais de 50% durante o segundo trimestre, a indústria gastou US$ 51 bilhões em dinheiro, já que as receitas caíram quase 80% em comparação com o mesmo período do ano anterior.

O setor não deve ter um caixa positivo até 2022.

Reação em cadeia

É preciso salientar que no mundo atual, um setor ir mal tem efeito sobre muitos outros setores.

“O impacto se espalhou por toda a cadeia de valor de viagens”, lembrou.

São aeroportos e parceiros de infraestrutura de navegação aérea que dependem das aéreas.

E haverá pouco apetite entre os consumidores por aumentos de custos.

Em uma pesquisa recente da IATA, cerca de dois terços já indicaram que adiarão a viagem até que a economia ou sua situação financeira pessoal se estabilize.

Do jeito que as coisas vão, isso pode demorar.

“Aumentar o custo da viagem neste momento atrasará o retorno dos passageiros e manterá os empregos em risco”, alertou.

De acordo com os últimos dados da IATA, a severa desaceleração deste ano, combinada com uma lenta recuperação, ameaça 4,8 milhões de empregos em todo o setor de aviação.

Como cada emprego na aviação oferece suporte a muito mais na economia em geral, o impacto global é de 46 milhões de perdas de empregos potenciais.

E, segundo a IATA, são US$ 1,8 trilhão de atividades econômicas em risco.

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