Como 10 milhões de americanos sem emprego mexem com o Brasil

Osni Alves
Jornalista | osni.alves@euqueroinvestir.com
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Foto: Como 10 milhões de americanos desempregados mexem com Brasil

Cerca de 10 milhões de trabalhadores norte-americanos recorreram ao seguro-desemprego oferecido pelo governo de Donald Trump nos últimos 15 dias.

Outro indicador que veio bastante alarmante foi o payroll. Ele mostrou que a taxa de desemprego saltou de 3,5% para 4,4%, sendo 3,8% acima do esperado. Já a U-6 (medida de desemprego amplo), também saltou de 7% para 8.7%.”

Este é mais um reflexo da crise do coronavírus que como medida de contenção, paralisou indústrias, comércios e serviços, deixando muitas companhias com problema de caixa.

Para ajustar o custo-mensal das operações, em vista da suspensão dos trabalhos, empresas de todos os portes recorreram ao congelamento de contrato ou demissão.

Esse volume de gente sem trabalho e renda impacta diretamente no consumo e cria efeito cascata: se ninguém compra não há faturamento e, consequentemente, não gera imposto.

Significa dizer que a pandemia mexeu diretamente no bolso do trabalhador, no caixa das empresas, e na arrecadação do governo.

Para salvar a economia, Trump injetou 2 trilhões de dólares. A ação segura o efeito de maneira provisória, mas pode incidir em liquidez ou inflação futura.

Desemprego e arrocho nos EUA

Estrategista-chefe do banco Modalmais, Felipe Sichel afirma que o número de payroll (folha de pagamento) nos EUA, provavelmente o indicador macroeconômico mais acompanhado pelo mercado, veio significativamente abaixo do esperado.

Segundo ele, as expectativas à frente para a economia norte-americana são semelhantes ao restante do mundo: a retomada depende de um choque positivo de confiança para voltarem a um dia-a-dia normal. Isto, por sua vez, depende de avanços médicos consistentes.

“O que pode ser dito para amenizar o tom negativo, é que uma vez que ocorra este choque de confiança, a retomada poderá ocorrer em velocidade acelerada”, disse.

Conforme o especialista, os salários parecem afetados pela produção de bens duráveis  (+0.775%), que subiram no comparativo mensal mais do que em qualquer outro momento da década. Portanto, há razoável chance de retração significativa na próxima leitura.

“A grande queda em emprego ocorreu na parte de serviços, ainda que manufatura e construção também tenham registrado leituras negativas. Especificamente, lazer e hospitalidade, que contempla restaurantes, apresentou fechamento de 459 mil vagas.”

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Patamares de 2008/09

De acordo com ele, ao se observar o gráfico do Payroll, constata-se uma volta consistente para os patamares da crise de 2008-2009.

“Diferentemente da crise anterior, a queda não se iniciou de forma gradual, mas foi um choque abrupto sobre o mercado de trabalho, consistente com a narrativa de parada súbita.”

Para Sichel, há indicativos de que esses efeitos são apenas impactos iniciais do coronavírus na economia e no mercado de trabalho.

“Ou seja, há supostamente uma subestimação do real impacto no mercado de trabalho, dado que as últimas duas semanas do mês não entraram na amostragem.”

E acrescentou: “ao longo dos próximos meses, veremos uma escalada na taxa de desemprego e manutenção das vagas. Isto, por sua vez, resultará em retração nos salários.”

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Tá, e Aí?

Estrategista-Chefe do Grupo Laatus, Jefferson Laatus explica que tudo o que acontece nos EUA reflete quase que imediatamente no Brasil.

“É sempre assim, o que acontece lá refleti aqui, mas o que acontece aqui não reflete lá”, disse, acrescentando que no cenário de hoje o Brasil está sofrendo e vai sofrer mais porque se trata de uma crise global, não local.

E acrescentou: “a Bolsa brasileira caiu quase 50% desde o inicio da pandemia e a tendência é cair mais. Hoje, por exemplo, ela está caindo mais 4% refletindo o cenário externo.”

De acordo com ele, o Brasil vai sofrer mais que os EUA porque se trata de um país emergente, mais frágil e com menos recursos.

“Num panorama como esse, se defender acaba sendo bem complicado. A situação é tensa, paralisar a produção e resguardar a população em casa ajuda, mas, economicamente o impacto é gigantesco”, frisou.

O que cabe nesse momento, segundo Laatus, é o governo tomar medidas protetivas, embora isso incida diretamente na Lei Fiscal. “Não tem jeito”, disse, em referência ao Executivo injetar recursos acima do teto de gastos, bem como qualquer previsão orçamentária.

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China X EUA

O estrategista explica que nesse momento, a crise que mais afeta o Brasil é a norte-americana. “Até porque a China está retomando as atividades enquanto que os EUA estão literalmente parados.”

E diz mais: “se os EUA ficarem parados por muito mais tempo, a gente vai ver reflexo disso na própria China, visto que é lá o mercadão do mundo.”

Significa dizer que a China é um grande produtor de tudo, enquanto que os EUA são grandes consumidores. Se a América frear ainda mais seu comércio internacional, a China sentirá o tranco.

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Investimentos

De acordo com Laatus, em vista desse cenário alarmante, não há muito que fazer. Porém, ele recomenda uma ação que pode fazer a diferença tanto para o poder público, quanto para a iniciativa privada, bem como para investidores, poupadores e assalariados: decisões sensatas.

Significa dizer que qualquer ação deve ser pensada uma, duas, três vezes e, se possível, com auxilio, orientação e conselho de gestores, assessores, analistas e todos que de alguma forma possam jogar um facho de luz num ambiente tão sombrio como o atual.