Inflação e juros futuros em alta elevam pressão para aumento da Selic

Cláudia Zucare Boscoli
Jornalista formada pela Cásper Líbero, com pós-graduação em Jornalismo Econômico pela PUC-SP, especialização em Marketing Digital pela FGV e extensão em Jornalismo Social pela Universidade de Navarra (Espanha), com passagens por IstoÉ Online, Diário de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e Editora Abril.

Crédito: Reprodução/Pixabay

Contra as projeções, a inflação fechou o ano de 2020 em 4,52%, sendo esta a maior alta desde 2016. Em dezembro, ela acelerou para 1,35%, a variação mais intensa desde fevereiro de 2003 (1,57%) e a maior para um mês de dezembro desde 2002 (2,10%). A divulgação foi feita nesta terça, pelo IBGE.

Como consequência, os juros futuros dispararam. Eles representam uma estimativa do mercado para o valor dos juros em um momento futuro, podendo ser meses ou anos.

Atualmente estão em tendência de alta, devido ao cenário de instabilidade e alta inflacionária. Na prática, os juros sobem quanto maior a percepção de risco dos investidores.

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Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) negociados na Bovespa para janeiro de 22 subiram a 3,305% na manhã de hoje. Para janeiro de 2023, a 4,990%, tendo chegado a máxima de 5,025%. Para janeiro de 2025, chegam a 6,580%. E em janeiro de 2027, a 7,290%.

Tais números ficam acima das projeções feitas pelo Boletim Focus, divulgado semanalmente pelo Banco Central e que é elaborado com base em entrevistas feitas com instituições financeiras.

De acordo com o Focus, a Selic, taxa básica de juros, deve chegar a 3,25% até o final deste ano. Em 4,75% em 2022. E em 6% em 2023. Ainda assim, o próprio Focus trouxe um leve ajuste em sua última publicação, subindo a Selic de 2021 de 3% para 3,25%. Para 2022, ela estava anteriormente em 4,5% e, agora, em 4,75%.

Focus descolado da realidade?

A percepção do momento é a de que o Focus está um tanto descolado da realidade.

“O mercado acredita que a alta da Selic pode ser mais alta do que a projetada pelo Focus, pela inflação e também pelo dólar, que tinha reagido de R$ 5,40 para R$ 5, mas voltou para R$ 5,40”, explica Paulo de Souza, assessor e sócio da EQI Investimentos.

“O mercado acredita que esses dados não estão sendo precificados corretamente e os juros devem subir mais rápido neste primeiro semestre, apesar de o BC acreditar que não vai precisar mexer nisso agora”, diz.

Pedro Galdi, analista de investimentos da Mirae Asset, acredita que o aumento da Selic deve vir dentro de três meses. “O Banco Central deve retirar em breve o forward guidance, preparando o mercado para o aumento da Selic”, ele diz.

“O aumento deve acontecer daqui uns três meses. Se o IPCA não recuar, o Banco Central deve aumentar a taxa sim”, avalia.

O forward guidance, que quer dizer prescrição futura, é uma ferramenta de política monetária usada pelo Banco Central para sinalizar a taxa de juros de determinado período, deixando o cenário mais previsível. Ao retirar a ferramenta implantada durante a pandemia, o BC sinalizaria uma subida iminente da Selic.

Selic

Meta para Selic – Reprodução/BC

BC deve retirar forward guidance em março, prevê UBS

A previsão de retirada do forward guidance também foi feita por um economista da UBS.

Em entrevista ao site Investing, ele estimou que o Banco Central deve mudar, na reunião da próxima semana, a comunicação da decisão de política monetária em relação a dezembro.

Segundo ele, as políticas monetária e fiscal do país conseguiram controlar o impacto da Covid-19 no PIB no curto prazo.

Porém, o desempenho veio às custas de um aumento do déficit e da dívida pública. Assim, segundo ele, o cenário só vai se alterar quando o país chegar a um consenso político em torno dos temas mais relevantes para a economia. Entre eles estão as reformas necessárias para avançar.

Previsões para 2021

O UBS prevê um IPCA de 3,4% para o fim do ano, mas elevado a 6% entre maio e junho antes de desacelerar. Para a Selic a previsão é de 4%, com altas em junho. Já o PIB deve ficar em 3,5%, apesar de cair 0,7% no primeiro trimestre. Já para câmbio a expectativa é R$ 4,95 até o fim do ano.

“Antes, a inflação estava muito abaixo da meta, principalmente durante a pandemia. O que aconteceu de uns dois ou três meses para cá foi que a economia mostrou mais sinais de aceleração, a inflação em tempo real, do dia a dia, subiu mais que o esperado e, principalmente, as expectativas de inflação para frente começaram a subir um pouco e a diminuir a diferença em relação à meta oficial. As expectativas para 2022 estão na meta e as de 2021 começaram a ficar mais próximas”,  disse Fabio Ramos ao Investing.

IPCA: inflação avança

A inflação oficial do país, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acelerou em dezembro, fechando 2020 a 4,52%. Esta é a maior alta desde 2016.

O indicador de dezembro acelerou para 1,35%, a variação mais intensa desde fevereiro de 2003 (1,57%) e a maior para um mês de dezembro desde 2002 (2,10%).

Os dados foram divulgados nesta terça-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Com o resultado, o índice do ano ficou acima do centro meta, definido pelo Conselho Monetário Nacional, que era de 4,0%, mas dentro da margem de tolerância de 1,5 ponto percentual para baixo (2,5%) ou para cima (5,5%). Em 2019, a inflação foi de 4,31%.

IPCA

Inflação medida pelo IPCA ao longo do ano – Reprodução/IBGE

“Nos últimos meses do ano a inflação acelerou bastante. O primeiro fator importante foi a alta do dólar. A gente teve um ano de crise, com alta do dólar devido à procura pela moeda segura. O segundo ponto foi a alta muito forte das commodities, principalmente puxada pela China, com retomada econômica mais acelerada que os outros países. Consequentemente, tivemos alta nos produtos, minério, petróleo, o que afetou toda a cadeia e influenciou no resultado do IPCA. Os alimentos respondem por 50% do IPCA e os custos com moradia também aumentaram bastante”, explica o sócio e assessor da EQI, Paulo de Souza.

No entanto, ele afirma que a expectativa é que, nos próximos meses, a inflação desacelere, com a aceleração da produção.

Caso contrário, ele diz, a alternativa que o Banco Central vai ter será aumentar os juros. Atualmente, a Selic, taxa básica de juros, se encontra em seu piso histórico, 2%.

O que a inflação tem a ver com os investimentos?

A Selic é o principal instrumento de política monetária utilizado pelo BC para controlar a inflação.

Quando o Copom reduz a Selic, a tendência é que o crédito fique mais barato. O que incentiva a produção e o consumo, mas reduz o controle da inflação.

Em sentido contrário, quando o Copom aumenta a taxa básica de juros, seu objetivo é conter a demanda aquecida. Isso causa reflexos nos preços, porque os juros mais altos encarecem o crédito e estimulam a poupança.

Para o investidor, a Selic deve ser um norte para montar uma boa carteira de investimento. Com a taxa de juros baixa, os rendimentos da renda fixa deixam de ser tão atrativos.

Neste contexto, o mercado de ações ganha destaque, assim como os Fundos Imobiliários.

Em sentido contrário, quando a Selic sobe, a renda fixa volta a ficar mais atraente.

Recomendações para os investidores

A primeira recomendação dos especialistas no cenário atual de Selic a 2% é que o investidor proteja sua carteira da inflação, para não perder o poder de compra.

A rentabilidade dos investimentos deve ser sempre acima da inflação ou atrelada a ela (no caso de títulos públicos e CDBs, por exemplo), aponta Souza. Caso contrário, toda a rentabilidade será perdida.

Neste cenário, o destaque entre os títulos fica por conta do Tesouro IPCA+.

A segunda recomendação é ter atenção aos títulos públicos, especialmente se a intenção não for carregar os papéis até o vencimento.

Isto porque estes títulos estão sujeitos à marcação a mercado e, caso sejam vendidos antes do prazo, serão impactados negativamente, como já ocorreu com o Tesouro Selic no ano passado.

A recomendação é sempre levar os papéis até o vencimento, para evitar a volatilidade e as possíveis perdas na negociação no mercado secundário.

Apesar de a renda variável ser a mais atrativa em termos de rentabilidade, com o possível aumento da Selic ainda no primeiro semestre, a renda fixa volta a ficar interessante. No entanto, ela deve ficar bem abaixo dos 14,25% de agosto de 2016 ou dos 45% de março de 1999. Ou seja, em termos de rentabilidade, a renda variável segue como destaque.

Quando tem decisão sobre a Selic?

Quem decide a Selic é o Comitê de Política Monetária (Copom), órgão do Banco Central, formado pelo seu Presidente e diretores. O grupo decide, a cada 45 dias, a Selic.

As reuniões ocorrem ao longo de dois dias seguidos. O próximo encontro acontece dias 19 e 20 de janeiro, com divulgação da definição no final da tarde do dia 20.

Para se preparar em relação às mudanças de cenário econômico nada melhor do que consultar um assessor de investimentos, que pode te ajudar nas melhores escolhas de aplicação. Preencha o formulário que um especialista entrará em contato.