Com dois acidentes trágicos, Modelo 737-MAX já apresentava falhas no simulador, mostram mensagens de texto

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Issouf Sanogo / AFP Photo

Mensagens de texto que a própria Boeing disponibilizou ao Congresso dos Estados Unidos mostram que funcionários faziam críticas ao processo de certificação do modelo 737-MAX e ao regulador de aviação norte-americano.

Esse é o modelo de avião envolvido em dois acidentes recentes. O primeiro aconteceu em 29 de outubro de 2018, na Indonésia, com 189 mortos. A aeronave pertencia à Lion Air e tinha três meses de uso. O segundo aconteceu alguns meses depois, quando um modelo da Ethiopian Airlines caiu em março de 2019, na Etiópia, e causou a morte de seus 157 ocupantes. Total de mortos: 346.

O avião ucraniano que caiu recentemente no Irã não era deste modelo, mas um Boieng 737-800.

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Desenhado por palhaços

Nas mensagens, os pilotos falam de falhas nos simuladores do aparelho e ainda fazem escárnio com a situação: “este avião é desenhado por palhaços, que por sua vez são supervisionados por macacos”, lê-se numa mensagem datada de 2017, numa aparente referência à Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla inglesa).

Em outra mensagem, de 2018, um funcionário admite a um colega que não deixaria a família voar numa aeronave 737-MAX: “ainda não fui perdoado por Deus pelo que escondi no ano passado”.

Transparência

As mensagens foram disponibilizadas por congressistas norte-americanos que investigam o processo de certificação do 737-MAX. Os dois trágicos acidentes levaram a Boeing à mais grave crise de sua história.

“Algumas dessas comunicações dizem respeito ao desenvolvimento e à qualificação dos simuladores Boeing 737-MAX, em 2017 e 2018”, esclareceu a empresa. “Essas comunicações não refletem a empresa que somos e que precisamos ser, e são completamente inaceitáveis”, continuou a Boeing, em comunicado.

A companhia alega ter divulgado as mensagens devido ao seu compromisso com a transparência. Mas os críticos enxergam na ação uma manobra de contenção de danos.

Mudança no comando

Segundo matéria da portuguesa RTP, com texto da Agência Brasil, “no fim de dezembro, o presidente executivo da Boeing, Dennis Muilenburg, foi afastado do cargo devido a tensões com a reguladora, sendo substituído por David Calhoun”.

Peter DeFazio, democrata de Massachusetts, do Comitê dos Transportes da Câmara dos Representantes, que investiga o 737-MAX, diz que as comunicações “mostram um esforço concertado, datado dos primeiros dias do programa do 737-MAX, para esconder informação crítica dos reguladores e do público”.

Por sua vez, a FAA, o regulador da aviação nos EUA, disse que “qualquer deficiência potencial identificada nos documentos foi tratada”.