Citi: principal risco à economia é o medo do coronavírus

Joana Kurtz
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Crédito: Peggy und Marco Lachmann-Anke/ Pixabay

Analistas do Citi escreveram que o principal risco ao crescimento econômico não é o coronavírus em si, e sim o comportamento das pessoas diante do medo de contágio.

“O choque de demanda causado por respostas comportamentais em larga escala (voluntárias ou involuntárias, via quarentena) para evitar a infecção é provavelmente o fator dominante causador dos custos econômicos do surto”, diz o relatório, distribuído no dia 24 de janeiro.

Para os analistas, embora ainda seja cedo para afirmar, o atual surto de coronavírus parece menos assustador do que o Sars por três motivos.

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Em primeiro lugar, ao contrário do que ocorreu no episódio Sars, as autoridades chinesas parecem estar mais abertas e proativas ao lidarem com o surto, inclusive com a divulgação de relatórios imediatos e a implementação de proibições de viagens.

Em segundo lugar, os avanços científicos da China desde que o SARS também podem ajudar – o desenvolvimento de um teste de diagnóstico foi mais rápido.

Em terceiro lugar, até agora, este surto está mostrando menores taxas de letalidade (cerca de 3%) versus SARS (9,6%) ou MERS (34,4%). “Mas ainda é cedo”, alertam.

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A questão principal

“O curinga não é a taxa de fatalidade, mas o quão infeccioso é o vírus”, dizem.

“O MERS era muito mais mortal do  que o SARS, mas não gerava tanta atenção global porque era menos infecciosa e estava geograficamente contida.”

“Durante o episódio do Sars, foi só quando novos casos de infecção começaram a diminuir no final de abril de 2003 que o Índice Hang Seng, principal índice da Bolsa de Hong Kong, encontrou um piso (mesmo com as taxas de fatalidade continuando a subir).”

Agências de notícias internacionais reportaram neste final de semana que a capacidade de contágio do vírus parece ter ficado mais forte. O coronavírus é diferente do SARS neste sentido – ele pode contaminar durante o período de incubação, em que o organismo não apresenta sintomas, que dura de 1 a 14 dias.

Outra diferença na comparação com a epidemia de 2003 é que, naquela época, a infecção demorou de três a quatro meses para se transformar em epidemia. O coronavírus, entretanto, só precisou de um mês, noticiaram as agências.

A China mudou

Em comparação ao episódio do SARS, o governo chinês parece mais aberto e proativo, dizem os analistas do Citi. As autoridades chinesas haviam relatado o aparecimento da nova cepa de pneumonia à OMS relativamente cedo, em 31 de dezembro, quando havia apenas 27 casos predominantemente ligados ao mercado atacadista de Frutos do Mar localizado na cidade de Wuhan e nenhuma morte, na ocasião.

“Isso está em flagrante contraste com o episódio SARS. O primeiro caso de SARS de um fazendeiro em Guangdong em 16 de novembro de 2002, mas as autoridades chinesas não notificaram oficialmente a OMS até 11 de fevereiro de 2003, e até então haviam relatado 300 casos em toda a província de Guangdong com 5 mortes. Houve relatos de que as autoridades tentaram esconder o problema do SARS por meses e que a infecção tinha sido muito maior do que o revelado anteriormente”, diz o relatório.

No atual surto, porém, as autoridades chinesas parecem mais próximas, e logo depois que confirmaram a infecção entre humanos, o presidente Xi instruiu publicamente o governo a divulgar prontamente informações sobre o vírus e aprofundar a cooperação internacional.

Quando o número de mortos subiu para 17, em 22 de janeiro, o governo cancelou voos, trens e sistemas de transporte público da cidade de Wuhan. As proibições de transporte foram depois estendidas para mais seis cidades: Ezhou, Huanggang, Xiantao, Zhijiang, Chibi e Qianjiang.

Impacto econômico

O impacto econômico dependerá do nível de contenção do surto. As taxas atuais de infecção ainda estão altamente concentradas na cidade de Wuhan, que representa apenas 1,6% do Produto Interno Bruto (PIB) da China, e outras cidades da província de Hubei, que representa 4,3% do PIB da China.

Supondo que os temores mais elevados se concentrem na redução dos viajantes chineses, Hong Kong é a mais economicamente exposta a uma queda nos turistas chineses, seguida por Vietnã e Tailândia.

Mas como as chegadas turísticas chinesas já haviam recuado bastante em Hong Kong desde o ano passado, enquanto se recuperava acentuadamente no Vietnã e na Tailândia. Assim, um grande choque turístico pode gerar mais crescimento negativo para Vietnã e Tailândia.

E se o vírus se tornar uma pandemia?

Neste caso, considerando que as economias enfrentariam taxas semelhantes de infecção se esse o vírus se tornasse uma pandemia, a equipe de análise do Citi criou um “índice de vulnerabilidade econômica”, identificando quais economias estão mais expostas a setores mais propensos a mudanças comportamentais, devido à prevenção de infecções, usando como referência a experiência do SARS.

“Descobrimos que Tailândia, Hong Kong e Cingapura são as mais vulneráveis, enquanto a Coreia, a China e Taiwan são as menos vulneráveis na região.”