Cielo (CIEL3) cai 55% no ano: há chance de se recuperar?

Carla Carvalho
Graduada em Ciências Contábeis pela UFRGS, pós-graduada em Finanças pela UNISINOS/RS. Experiência de 17 anos no mercado financeiro, produtora de conteúdo de finanças e economia.
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Crédito: Cielo

Líder em maquininhas de cartão no País, a Cielo (CIEL3) já esteve entre as melhores opções na bolsa brasileira. Em julho de 2016, suas ações chegaram a valer R$ 30,6. Atualmente, estão na casa dos R$ 3. No ano, a empresa acumula queda de 55%.

Não é de agora que os papéis da companhia estão pressionados pela mudança no mercado de adquirência e aumento da concorrência.  Ela tem tentado se adaptar, o fato é que o cenário tende a ficar ainda mais difícil para a Cielo, com a nova forma de pagamentos lançada pelo Banco Central, o PIX. A novidade , impõe uma nova  realidade em seu mercado de atuação e pode pressionar ainda mais as ações.

  • Entenda o que a Cielo faz, suas estratégias e o que pode afetar seu desempenho na bolsa.

Origem e evolução da Cielo

A Cielo é uma empresa de tecnologia e serviços para o varejo. A maior parte de sua receita vem da adquirência, que é o processamento das operações de débito e crédito dos cartões.

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A companhia foi fundada em 1995, a partir de uma joint venture entre Visa International, Bradesco, Banco do Brasil e os antigos bancos Real e Nacional. Essa união deu origem à VisaNet Brasil, que se tornou Cielo somente em 2009. O objetivo da empresa era a captura, transmissão e liquidação financeira.

Primeiramente, a empresa só aceitava pagamentos da bandeira Visa. Entretanto, em 2010, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) determinou o fim dessa exclusividade.

Desse modo, as maquininhas de cartão da companhia passaram a aceitar também outras bandeiras, como Diners e Mastercard. Atualmente, são mais de 80 bandeiras aceitas nas transações de crédito e débito.

Em 2012 a Cielo realizou alguns importantes investimentos. Na ocasião, lançou a opção crediário em suas máquinas e, também, uma plataforma de prevenção a fraudes no comércio eletrônico. Ainda nesse ano, firmou parceria com a Cyber Source, empresa de soluções em gestão de pagamentos.

Já em 2014, foi feita uma parceria com a BB Elo Cartões Participações, subsidiária do Banco do Brasil, para a criação da Cateno. A nova empresa nasce para fazer a gestão dos recebíveis da Ourocard, e tem participação majoritária da Cielo, que detém 70% de seu capital social.

Por fim, em 2019, a companhia lançou a Cielo Pay, uma plataforma que reúne várias funcionalidades de pagamentos. Isso reduziu a necessidade do uso de maquininhas e, também possibilitou vendas por meio de QR Code.

Resultados

Durante muito tempo, a Cielo dominou de forma disparada o mercado nacional de cartões. Isso se refletiu nas elevadas margens operacionais da empresa ao longo de sua história.

Porém, nos últimos anos, o aumento da concorrência no segmento fez com que a companhia perdesse parte de seu market share. Para conseguir manter a liderança, passou a sacrificar margens operacionais, o que a tornou menos lucrativa do que outros players do setor.

No segundo trimestre de 2020, a Cielo apresentou o primeiro prejuízo de sua história desde o IPO, ocorrido em 2009. No período, o resultado negativo foi de R$ 75,2 milhões.

Nesse sentido, as sucessivas reduções nas margens foram um dos motivos desse prejuízo. Além disso,  as restrições de funcionamento do comércio impostas pela pandemia também tiveram grande impacto no resultado do período.

Com isso, o volume financeiro capturado pela Cielo foi de R$ 128 bilhões, o que representa uma redução de 22,2% em relação ao mesmo período do ano passado.

No período, a base ativa de clientes também apresentou retração. Isso porque, no final de junho, eram aproximadamente 1,3 milhão de clientes, o que representa redução de 7,3% em relação ao mesmo período de 2019.

Estratégias da Cielo

A fim de tentar recuperar margens, a Cielo vem promovendo algumas modificações em suas operações. Nesse sentido, uma delas foi o final do subsídio para a compra das maquininhas anunciada em abril.

Outra ação diz respeito ao aumento da participação de pequenas empresas e empreendedores em seu portfólio.

Isso porque, até o final de 2019, as grandes companhias representavam 70% dos clientes da Cielo, contra 30% de varejistas menores. Ao investir na mudança de perfil dos clientes, a companhia espera ter maior poder de negociação sobre os preços de seus serviços. Logo, a expectativa é de que isso tenha reflexo positivo nas margens operacionais.

Por último, a companhia aposta na parceria com o Facebook para oferecer o WhatsApp Pay. O aplicativo permitirá o envio de dinheiro e a realização de pagamentos utilizando a infraestrutura da rede social. O acordo, no entanto, ainda depende do aval do Banco Central.

 Perspectivas para as ações

Até o final de setembro, as ações da Cielo acumulavam desvalorização de 55% no ano.  Com a participação de mercado pressionada, a empresa tem sido vista com desconfiança pelos investidores.

Além disso, a procura pelo PIX  também traz incertezas em relação aos papéis, pois ainda não há como  mensurar qual o impacto da novidade nas operações da Cielo.

Em setembro, o  JPMorgan mudou a recomendação para a companhia de neutra para venda, com preço alvo de R$ 4. No relatório, o banco destacou a queda na participação de mercado da Cielo. Passou de 48%, em 2016, para 34% no primeiro semestre deste ano. Para os analistas do JPMorgan, a recuperação não está próxima e o market share tende a ficar abaixo dos 30%.

Já o Banco Safra olha para a Cielo com mas otimismo. Em relatório divulgado em setembro, os analistas mantiveram a recomendação neutra, com preço alvo de R$ 6. Isso porque o Safra aposta que o pior da crise do coronavírus já passou para a empresa, que deve ver uma recuperação nos resultados nos próximos trimestres.