Censura online se agrava na China com o surto do coronavírus

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
1

Crédito: Pixabay

O governo de Xi Jinping deu um breve alento à liberdade de expressão em janeiro, afrouxando a censura nas redes sociais para que as pessoas tratassem sobre o novo coronavírus, recém-batizado de Covid-19. Pequim procurou não sofrer as críticas que sofreu quando do surto da SARS, em 2003. Mas a liberdade durou pouco.

Entre 19 de janeiro e 1º de fevereiro, quando a preocupação da comunidade internacional com o coronavírus se intensificou, os mercados procuravam saber informações e os chineses estavam se preparando para o feriado do Ano Novo Lunar, que é conhecido como o mais intenso êxodo de pessoas do mundo, o país viu um afrouxamento na censura.

Segundo a Reuters, “o burburinho online sobre o surto aumentou, com os internautas bastante livres para criticar as autoridades locais – mas não os líderes do governo central – pela maneira como lidaram com a crise. Esse afrouxamento chegou ao fim, com os censores na semana passada fechando grupos do WeChat e apagando posts em redes sociais, de acordo com repórteres chineses. As autoridades também repreenderam empresas de tecnologia que não controlaram o discurso online”.

Censura aumenta

Passado o feriado e com o controle sobre a doença aparentemente estando dentro dos padrões de tranquilidade, a censura pôde voltar a endurecer. O analista Fergus Ryan, do Instituto de Políticas Estratégicas da Austrália (ASPI), que estuda as mídias sociais chinesas, disse à Reuters que “Xi Jinping deixou claro que espera que os esforços para fortalecer ‘a orientação da opinião pública’ sejam aumentados”.

Ele segue: “já vimos cerca de 300 jornalistas enviados para Wuhan e arredores para relatar o surto. É muito provável que a orientação deles seja mostrar uma imagem mais positiva dos esforços do governo, em vez de se envolver em reportagens investigativas ou críticas”.

Uma das formas mais eficientes de identificarmos o nosso perfil de investidor, é realizando um teste de perfil.

Você já fez seu teste de perfil? Descubra qual seu perfil de investidor! Teste de Perfil

Segundo a Reuters, “a Administração do Ciberespaço da China (CAC) não respondeu a pedidos de comentários”.

Morte de Wenliang

O caso mais simbólico da censura em torno do surto aconteceu com a morte de Li Wenliang, médico chinês que alertou sobre a possível epidemia. Ele foi repreendido pelo alerta. Mas ele morreu em decorrência do Covid-19 e causou indignação.

“Os meios de comunicação online tiveram permissão para relatar a morte de Li, mas não as repercussões que provocou”, diz a Reuters, “e as primeiras discussões nas mídias sociais pedindo que o governo de Wuhan pedisse desculpas ao médico sumiram mais tarde”.

Um alerta enviado aos editores que trabalhavam em um canal de notícias chinês online e visto pela Reuters pediu que eles não “comentassem ou especulassem” sobre a morte de Li. Além disso, não podiam usar hashtags e isso fez com que o assunto simplesmente desaparecesse.

Uma das causas do descontrole inicial da disseminação do vírus pode ter sido justamente essa tentativa de reprimir a informação. Em janeiro, pessoas foram repreendidas por “espalhar boatos” sobre o surgimento do vírus, tal como o médico Wenliang havia feito. As autoridades não queria passar a ideia de que não tinham a situação sob controle, o que obviamente não era verdade.

“Um alerta divulgado pela CAC na semana passada, que foi visto pela Reuters, pediu a veículos jornalísticos que intensificassem o controle sobre ‘informações e boatos prejudiciais’ relacionados ao vírus”, diz a matéria.

Ao fim, a CAC pede que as pessoas apenas leiam e compartilhem notícias de fontes oficiais do governo sobre o surto.