Campos Neto: BC se antecipou à crise e conta com arsenal

Rodrigo Petry
Editor-chefe, com 18 anos de atuação em veículos, como Estadão/Broadcast, InfoMoney, Capital Aberto e DCI; e na área de comunicação corporativa, consultoria e setor público; e-mail: rodrigo.petry@euqueroinvestir.com.
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Crédito: O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, concede entrevista coletiva para apresentar os resultados de implementação da Agenda BC#.

O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse neste sábado (4) que o país se antecipou à crise e que conta com arsenal de medidas a serem adotadas.

Segundo ele, o sistema brasileiro é sólido, provisionado e líquido; e que isso irá se manter independente da gravidade da crise.

Para Campos Neto, é melhor o país ter uma maior perda no resultado fiscal, mas garantir recursos para que as empresas honrem os seus contratos.

“Se tivermos quebras de contratos isso terá um efeito mais danoso no médio e longo prazo (à economia)”, disse, reforçando que isso poderia gerar um colapso no sistema.

As declarações foram dadas em live organizada pela XP Investimentos.

Campos Neto reforçou que é preciso haver uma união, neste momento de “guerra”.

Segundo ele, as críticas sobre a velocidade de implementação das medidas do BC não fazem sentido, sobretudo comparada a outros países. “O Brasil não está atrasado e pedimos paciência.”

Acrescentou ainda ser importante uma coordenação entre governos, e que é preciso esquecer as dificuldades de trato pessoal, se focando no coletivo.

Liquidez

O presidente do BC disse que a autoridade monetária tem certas limitações, pois sua interface com o sistema financeiro se dá por meio de fornecer liquidez. Adicionalmente, salientou, em monitorar o custo do crédito.

“Entendemos que é uma crise de liquidez, que está sendo atacada com o compulsório e um bloco de medidas”, disse.

Segundo ele, os bancos precisam oferecer liquidez, mas reforçou os desafios: “os bancos têm modelos de risco e as variáveis acenderam a ‘luz amarela’”.

“Precisamos dar liquidez para que o custo caia, que os recursos cheguem para que as empresas possam honrar seus compromissos, e não se tornem mal pagadoras, pois aí o custo sobe”.

PME

Sobre os recursos às PME’s, ele afirmou que a distribuição ainda não aconteceu, mas que isso deverá acontecer dentro do prazo estipulado, que é de 15 dias – o que seria nesta próxima semana.

Em relação à PEC que proporciona ao BC a compra de ativos, ele reforçou ser uma medida com efeito monetário.

Entretanto, o principal componente é proporcionar à autoridade monetária chegar aonde não consegue, garantindo que os recursos cheguem aos setores fundamentais.

Regulamentação

De acordo com Campos Neto, o projeto em tramitação no Congresso é mais amplo, mas que em sua regulamentação serão definidos aspectos sobre o tipo de crédito a ser comprado e o tipo de intervenção que poderá ser adotada, assim como o seu alcance.

A regulamentação fica com o Conselho Monetário Nacional (CMN).

Nas palavras do presidente da autoridade monetária, “é preciso comprar crédito para fazer a desobstrução dos canais de crédito”, onde o privado não quer entrar, pelos fatores de risco.

Sobre a fiscalização, Campos Neto destacou que o BC tem as ferramentas e todas as estatísticas necessárias para fazer a supervisão e fiscalização. Segundo ele, é possível saber se a liquidez chegou onde é necessário.

Comunicação

Segundo Campos Neto, a comunicação com o mercado tem sido em linha com uma cadeia lógica, reforçando pontos como reformas, cenário internacional e nacional – que sempre são citados.

“Há várias variáveis que são levadas em consideração”, afirmou, exemplificando ainda não ser possível saber o impacto ao certo da pandemia do novo coronavírus no resultado fiscal.

“Antes de melhorar (o resultado fiscal) ele ainda vai piorar”, disse.

“O mercado vai ter que interpretar (as medidas monetárias). O trem vai sair dos trilhos, e nós vamos explicar como vamos coloca-lo novamente (nos trilhos)”, acrescentou, reforçando, porém, “não poder comentar” o que o BC vai fazer com os juros.

Câmbio

Sobre o câmbio, RCN afirmou ser importante controlar a liquidez do mercado e manter o câmbio flutuante”.

“Temos vendido moeda e vamos continuar”, afirmou, reforçando que o país conta com uma proporção de 20% do PIB em reservas, o que “é bastante”.

“Como não sabemos a extensão da crise, precisamos fazer (as vendas de dólar) com parcimônia. Temos atuado, e podemos intensificar as intervenções. Só isso podemos falar”.

Resumo dos impactos das medidas

O conjunto de medidas, que somam R$ 1,216 trilhão, ou equivalente a 16,7% do PIB – como comparação, em 2008, foram liberados R$ 117 bilhões, representando 3,5% do PIB.

Liberação de liquidez:

  • Compulsório + Liquidez de curto prazo = R$ 135 bi;
  • Liberação adicional de compulsório = R$ 68 bi;
  • Flexibilização de LCA – R$ 2,2 bi;
  • Empréstimo com lastro em LF garantidas = R$ 670 bi;
  • Compromissadas com títulos soberanos brasileiros = R$ 50 bi;
  • Nova DPGE = R$ 200 bi;
  • Empréstimo com lastro em debêntures = 91 bi.

Liberação de capital:

  • Overhedge = R$ 520 bi;
  • Redução do ACCP = R$ 637 bi.

Outras medidas:

  • Linhas de swap de dólar com o FED = R$ 60 bi;
  • Criação de linha de crédito especial para PMEs = R$ 40 bi.

Atuação da autoridade monetária vai no sentido de:

  • Manter o sistema bancário líquido e estável;
  • Garantir um sistema capitalizado para que o crédito siga funcionando com normalidade;
  • Oferecer condições especiais para que bancos possam rolar dívidas dos setores afetados pela crise;
  • Garantir que o mercado de câmbio funcione com normalidade, e sem disfuncionalidade de liquidez;
  • Manter condições monetárias estimulativas, para que o crédito sirva como canal de impulso ao crescimento.