Campos Neto faz comunicação mais hawkish de olho em 2022

Matheus Gagliano
Colaborador do Torcedores
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Crédito: Agência Senado

Apesar do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) ter trazido um tom mais neutro, preocupado em balancear pressões altistas e baixistas de inflação, o presidente do Banco Central (BC), Roberto Campo Neto, trouxe um tom mais hawkish, em coletiva para comentar o resultado.

Saiba neste artigo as diferenças entre um Banco Central hawkish ou dovish com a taxa de juros. 

A avaliação é do BTG Pactual (BPAC11), que escreveu em relatório sobre o RTI, que Campos Neto fez uma “comunicação mais hawkish, reforçando as preocupações com a contaminação das expectativas de inflação para 2022 e reiterando o objetivo do BC de ancorar o IPCA do próximo ano na meta”.

“Na coletiva de imprensa, ficou mais evidente o tom hawkish dos membros do Copom, que afirmaram suas
preocupações com a contaminação das expectativas de inflação para 2022 e que utilizarão todos os
instrumentos necessários de política monetária para ancorar as expectativas de IPCA”, escreveu o BTG.

Adicionalmente, o diretor do BC Fabio Kanczuk afirmou que, considerando o balanço de riscos, a política monetária deve seguir em patamar menos estimulativo do que o Focus, o que pode fazer com que o comitê eleve a taxa Selic para algo acima de 6,5%

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“Com tudo na mesa, entendemos que o BC enxerga um cenário misto pela frente para a inflação e para a
atividade, mas a direção é para mais aperto monetário”, avaliou o BTG.

Assim, em nossa visão, com a mudança do tom desde a última reunião e ata, o Copom pode exercer um movimento mais acelerado de redução dos estímulos com o intuito de manter o IPCA de 2022 ancorado na meta, o que pode contribuir para uma performance relativa melhor do Real e, por conseguinte, diminuir a pressão sobre alguns componentes inflacionários”, reforou o BTG, no relatório.

Para Bernardo Mota, economista chefe da EQI Asset, a expectativa da inflação para 2022 possa ser mais confortável, trazendo a possbilidade de que as projeções indiquem alguma estabilização em patamar acima da meta ou até mesmo mostrando algum recuo.

“Essa dinâmica seria compatível com a disposição que o Banco Central mostrou na última reunião do Copom em perseguir a meta para 2022. Ao abandonar a ideia de um ajuste parcial de juros e ainda sugerir que poderá inclusive acelerar o ritmo de retirada dos estímulos monetários”, afirmou ele.

Mota disse ainda que os indicativos de atividade têm surpreendido. O que mostra uma resiliência da economia em relação às medidas de isolamento social.

Com isso, ele considera que as principais casas de pesquisa no país convergiram para previsões de do PIB acima de 5% em 2021.

Inflação: riscos de curto prazo explicam projeção

A projeção abaixo do mercado pode ser explicada por alguns fatores, de acordo como o BTG. O primeiro deles seria o surgimento de uma nova variante da covid-19.

O segundo fator seria o atraso na resolução das disfunções nas cadeias produtivas globais. Isto poderia resultar em custos elevados para os produtores. O cenário hídrico, com poucas chuvas e reservatórios das hidrelétricas em níveis baixos, seria mais um fator.

“Por outro lado, um cenário de atividade econômica mais branda pode gerar pressões inflacionárias abaixo das vislumbradas no contexto atual”, pontua o relatório do banco.

Projeção central acima do teto da meta

Já a projeção central da inflação passou de 5% para 5,8%. Este é um nível acima do teto da meta, de acordo com o banco. Porém, fica abaixo da média das projeções de mercado.

A projeção central combina a taxa Selic da pesquisa Focus e taxa de câmbio seguindo a Paridade de Poder de Compra (PPC).

“A revisão nas expectativas ocorre a luz da retomada econômica mais forte no cenário nacional, que pressiona os preços dos bens industriais, dos administrados e dos serviços”, revela outro trecho do relatório.

Para o ano que vem, o RTI manteve uma projeção de 3,5%, dentro do centro da meta. Isto reflete as expectativas do Banco Central de uma normalização completa da Selic. O que pode manter o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) no centro da meta.

Por fim, de acordo com o banco, a projeção de mercado é que o PIB encerre o ano entre 5% e 6%.

Enquanto isso, o autoridade monetária estima um PIB de 4,6% para o fim do ano. A previsão anterior era de 3,6%.