BTG Pactual (BPAC11) projeta dólar a R$ 5,20 no final do ano

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/ Pixabay

O Brasil está menos atrativo do que seus pares emergentes, como Colômbia e México, dada sua fragilidade fiscal.

O real brasileiro mantém sua característica instável, como ocorre com as divisas colombianas e mexicanas — seguindo ainda o índice de volatilidade do mercado americano (VIX).

É que diz o relatório do BTG Pactual (BPAC11) sobre o cenário de câmbio atual.

“As últimas semanas do mercado local têm se destacado pela volatilidade em quase todas as classes de ativos”, lembra a análise do BTG.

Isso é resultado do quadro desafiador sobre a trajetória fiscal do Brasil, “tornando o cenário futuro mais turvo e as expectativas igualmente receosas”.

Com essa premissa, o BTG mantém a projeção de R$ 5,20 por dólar para o final de 2020.

Na perspectiva pessimista, a moeda norte-americana poderia ir a R$ 5,60. Na otimista, no máximo, a R$ 5,00.

Real versus moedas emergentes

Em agosto, o real teve a segunda maior desvalorização dentre as principais moedas emergentes.

“Em nossa opinião, a frágil situação fiscal do Brasil frente seus pares em desenvolvimento refletem ambos os movimentos de desvalorização e volatilidade”, diz o relatório.

“A falta de convergência entre os três poderes em uma agenda política que permita uma credibilidade na trajetória e composição da dívida pública é o principal ponto de desconfiança dos investidores estrangeiros ao comparar o Brasil com outros países emergentes com democracia estabelecida e situação fiscal saudável”, analisa.

Na comparação com as moedas emergentes, a lira turca puxa a fila da desvalorização, com 5,3% de variação. O real vem em seguida, com 5,2%.

O peso argentino teve variação de 2,6% e o peso colombiano, 0,2%.

Na outra ponta, o peso mexicano puxa a valorização, com 1,7% em agosto.

No ano, a desvalorização do real já é de 36,0%. O peso colombiano perdeu 17,0% e o mexicano, 14,7%.

BTG traça cenário macro

“A despeito de um cenário global ainda desafiador por conta da pandemia, é fundamental dizer que a incerteza, por mais presente que ela esteja nos mercados internacionais, tem razões para estar ainda maior nos ativos brasileiros”, abre o relatório.

A política econômica e os atritos entre os poderes da República têm causado preocupações nos investidores.

Há desconfiança se a pauta de ajuste nas contas públicas ainda permanece como prioritária no Executivo e no Congresso Nacional.

“Em termos práticos, a incerteza sobre a trajetória fiscal tem levado dificuldades ao Tesouro Nacional em rolar dívida, seja por um maior desejo de prêmios de risco pelo mercado, seja pela fuga do investidor estrangeiro – este, aliás, hoje possui apenas 9% da dívida pública brasileira, diferente dos mais de 20% em meados de 2014”, lembra.

É a menor participação em 10 anos do investidor estrangeiro na dívida pública.

Em outras palavras, “o Brasil está menos atrativo que seus pares emergentes”.

Risco-país

É válido observar como as taxas de câmbio e a da NTN-B 2035 se comportaram nos últimos 12 meses em relação ao risco-país (CDS 5 anos).

“Sobre as taxas de juros da B-35”, diz o relatório, “a queda acentuada até meados de julho reflete a expansão do grau de estímulo monetário, mas que já mostrou um repique pelo cenário menos favorável aos títulos públicos”.

O câmbio, por sua vez, ressalta o BTG, manteve-se desvalorizado mesmo com o risco-país em queda.

Na opinião do BTG, “o câmbio desvalorizado já refletia a preocupação do investidor estrangeiro com a trajetória fiscal do país e o repique das taxas de juros ocorreu em um segundo momento”.

Política monetária brasileira, segundo o BTG

O diferencial de taxa de juros entre Brasil e EUA ainda é o menor da série histórica, lembra o banco.

Isso “ajuda na fuga de capital de curto prazo e altera o nível estrutural da taxa de câmbio”.

Contudo, lembra o BTG, a preocupação do Banco Central é quando a desvalorização do real refletirá em elevação de preços ao consumidor.

“Nos preços mais atrelados à variação cambial já é possível ver esta transmissão para os preços ao produtor e nos preços ao consumidor no segmento de alimentos”.

É o caso do arroz e do feijão.

“Logo, um cenário de maior stress fiscal de retomada econômica que permita maior repasse de preços, é possível que o diferencial de juros se eleve em um horizonte menor que 12 meses, podendo ter um impacto positivo para o real frente o dólar”, diz.

Por fim, o BTG lembra que 2020 “tem se caracterizado por fluxo mais positivo da balança comercial em relação a 2019, mas superado pelo fluxo mais negativo da conta financeira”.

É o que constantemente a EQI tem mostrado ao reportar o fluxo cambial.

O fluxo cambial de 2020 soma uma fuga de aproximadamente US$ 15 bi, o dobro em comparação ao ano anterior.

No acumulado de 12 meses, o fluxo negativo supera a marca dos US$ 50 bi.

Já em relação às reservas internacionais, agosto fechou em US$ 356 bilhões.

“Podemos destacar uma leve recomposição da conta a partir de abril deste ano, auge da crise, quando as reservas atingiram US$ 339 bilhões: queda de US$ 44,5 bilhões em relação a abril do ano anterior.

“Sobre a posição cambial líquida, descontando os gastos com swap cambial, recompras e outras operações, o patamar atual é de US$ 300 bi”, aponta o BTG.