BTG (BPAC11): reduzir mistura de etanol anidro na gasolina traria pouca mudança no preço das bombas

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Reprodução/Agência Brasil

Os preços da gasolina e do diesel subiram 35% e 29% no acumulado do ano nas bombas brasileiras. Mas, segundo relatório publicado pelo BTG Pactual (BPAC11), reduzir a mistura de etanol anidro na gasolina traria pouca mudança no preço das bombas.

Enquanto o governo brasileiro luta para reduzir a pressão da inflação dos combustíveis, e o foco político tem sido historicamente relacionado ao diesel, na semana passada o presidente Jair Bolsonaro especulou sobre uma redução potencial nos mandatos de mistura de etanol na gasolina. Hoje, a gasolina é misturada com 27% de etanol anidro. A lei permite que o governo mude essa mistura para algo entre 18% e 27%.

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Com alta nos preços do etanol ainda mais do que a gasolina nos últimos meses, em parte devido ao efeito negativo do clima na safra de cana-de-açúcar, que é de onde vem ~ 90% da produção do etanol brasileiro, o etanol agora está ajudando de forma polêmica a encarecer a gasolina.

Redução de 5p.p. da mistura leva a uma pequena mudança de 0,4% nos preços da bomba

A análise sensível do BTG mostra que uma redução de 5p.p. na mistura de etanol anidro na gasolina geraria uma redução de 0,4% nos preços da gasolina na bomba.

Este cálculo é com base em preços e alíquotas de impostos no estado de São Paulo. Se o governo cortasse a mistura ao mínimo permitido de 18%, a redução do preço na bomba seria de 0,6%, ou apenas R$ 0,04 por litro.

Apenas como referência, isso é o equivalente a insignificantes 2% da variação do preço da Petrobras na refinaria, ou não muito mais do que a variação do preço do brent todos os dias.

“Então, claramente, isso faz muito pouco para efetivamente impulsionar uma mudança na percepção da inflação ou mesmo ajudar a popularidade do governo”, afirmam os analistas do BTG.

Debate é mais do que apenas sobre o preço

Assim, embora o BTG veja o impacto do preço efetivo como insignificante e possivelmente implicando muito esforço com muito pouco ganho, também vê que o governo pode estar olhando para outra coisa.

“Com a safra de cana-de-açúcar do Brasil decepcionando significativamente as estimativas iniciais, e apontando para um declínio anual de até dois dígitos devido à combinação de seca, geadas e incêndios florestais, acreditamos que as autoridades também podem estar começando a temer o risco do abastecimento de etanol durante o período de entressafra”, diz o BTG.

Segundo o Ministério da Agricultura, os estoques do Brasil de etanol giravam em torno de 8 bilhões de litros em meados de agosto, o que é 9% acima da média dos últimos cinco anos.

Ao olhar para ações em relação ao consumo LTM, os estoques em agosto estavam em 31,9%, acima da média de 5 anos de 28%.

Além do mais, claramente a indústria priorizou a produção de anidro em vez de hidratado. Com base em dados da Unica, a produção acumulada de hidratado até meados de setembro está baixa em 15% contra um aumento de 26% a/a para anidro.

“A matemática é óbvia: com a produção mais baixa de cana, faz mais sentido reduzir a produção de etanol hidratado, deixando os preços disparem e obrigando os consumidores a migrarem a demanda para a gasolina até os preços acomodarem mais uma vez. No caso do anidro, que é aquele misturado à gasolina (27% ou E27), a indústria deve garantir que o abastecimento seja suficiente durante a entressafra”, diz o BTG.

Nas estimativas do BTG, o Brasil produzirá cerca de 11,5 bilhões de litros de etanol anidro na

Safra de 2021/22, acima dos 10 bilhões de litros do ano passado.

Impacto no açúcar da menor demanda por etanol

No caso de ocorrer a redução da mistura, o BTG estima que poderia criar uma pressão sobre os preços do açúcar.

“Estimamos que o Brasil estará produzindo 36 milhões de toneladas de açúcar na safra 2021/22 no Norte, considerando uma moagem total de cana de 582 milhões de toneladas (520 milhões na região Centro-Sul) e mix de produção de 46%/54% entre açúcar/etanol. Em termos de balanço global de açúcar, estimamos déficit de 2,5 milhões de toneladas na Safra 2021/2022 (finalizado em setembro de 2022), que consideramos favorável aos preços do açúcar próximos à marca de c20/lb”, afirma o BTG.

Se o Brasil reduzir o etanol anidro dos atuais 27%, o BTG vê uma potencial quantidade relevante de açúcares redutores totais (TRS) sendo desviadas para o açúcar em vez de etanol.

“Em teoria, cada 1% de redução na mistura de etanol anidro traduziria em um aumento de 700 mil toneladas de produção de açúcar. Se assumirmos uma redução total para 18%, a quantidade de ATR disponível para a produção de açúcar seria de 6,3 milhões de toneladas, facilmente transformando o déficit global em superávit”, afirma o BTG.

No entanto, também observa-se que a capacidade de produção de açúcar é limitada. No momento, a mistura de açúcar MAX do Brasil é estimada em 50% contra cerca de 45% na safra atual.

“Então, com base na atual produção de cana-de-açúcar, vemos o Brasil capaz de adicionar 4 milhões de toneladas de açúcar ao mercado, e não muito mais do que isso”, afirmam os analistas.

Muito por pouco

As estimativas do BTG sugerem que a possibilidade de redução do anidro à mistura de etanol na gasolina não é uma boa ideia.

“Não só seria quase teria impacto irrelevante nos preços da bomba de gasolina, mas também não parece necessário para evitar a escassez considerando o que vemos como a oferta potencial de etanol anidro. Também criaria um desequilíbrio de preços (incluindo açúcar) em uma indústria que realmente precisa de mais incentivo econômico para investir em mais capacidade para ajudar o Brasil a cumprir suas metas de longo prazo de descarbonização”, afirma o BTG.

A necessidade de importar mais gasolina para atender menores exigências de anidro também sugere maior necessidade de ajustar o preço da gasolina no nível da refinaria, com diferença de preço atual para paridade de preços de importação (IPP) estimada em 15% (agora mais do que o desconto de preço que a mistura inferior geraria).

“Então nós não cremos que essa medida vai passar. Também nos tornamos mais otimistas sobre as perspectivas de preço de longo prazo do açúcar nos últimos meses. Embora a perspectiva de curto prazo também tenha melhorado com base na redução dos suprimentos por causa de vários culpados do clima (seca, geada e incêndios florestais), também vemos razões para acreditar que os preços futuros do açúcar podem experimentar uma nova e mais alta posição”, dizem os analistas do BTG.

O mercado brasileiro de etanol também viveu seus altos e baixos ao longo do curso das últimas décadas. Mas o futuro também parece muito mais brilhante do que nos últimos anos.

O programa RenovaBio, aprovado no Brasil pela lei nº 13.576, define metas de descarbonização de longo prazo que visam aumentar a utilização de combustíveis renováveis como etanol e biodiesel em detrimento de combustíveis fósseis como energia e diesel.

Com base na suposição de um crescimento anual da demanda de combustível de automóveis leves de 2%, o BTG estima que o etanol crescerá de 42% em relação à gasolina no ano passado para 55% em 2030.

A demanda local implícita de etanol CAGR é de 4%, com mercado total crescendo mais de 50% ao longo da próxima década.

Além disso, espera-se que RenovaBio reduza os riscos de baixa ao preço de longo prazo do etanol relacionado às variações do preço do petróleo.

Assim, o BTG tem uma classificação de compra para Raízen (RAIZ4), Jalles Machado (JALL3) e AGRO (Adecoagro). Para São Martinho (SMTO3) a recomendação é neutra.

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