BTG (BPAC11): varejo sob pressão; veja previsões para Magalu (MGLU), Renner (LREN3) e mais

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
1

Crédito: Reprodução/Pixabay

Na semana passada, a equipe do BTG Pactual (BPAC11) realizou uma série de reuniões com alguns dos principais varejistas brasileiros. O setor continua sob pressão devido à volatilidade macro e caiu 24% no acumulado do ano. Mas, assim como no 2TRI21, o terceiro trimestre deve marcar a continuidade do ponto de inflexão para a maioria das empresas.

Nos últimos meses, o consumo global (especialmente para itens discricionários) foi impulsionado pela demanda reprimida e pelo aumento da poupança a partir de 2020, provavelmente se estendendo gradualmente ao consumo de serviços. E a aceleração da vacinação no Brasil deve significar ventos favoráveis.

Praticidade e precisão, saiba quais melhores investimentos e como melhorar rentabilidade de suas ações

No entanto, diz o BTG, embora os maiores varejistas (mais capitalizados) tenham uma vantagem comparativa por terem mais acesso a indústria (reduzindo assim o risco de falta de produtos para a Black Friday e a temporada de compras de Natal), é claro que a pressão inflacionária deve significar uma desaceleração da recuperação em alguns segmentos e crescimento às custas de pressão sobre as margens.

Tendências dissonantes entre setores

Em resumo, após a reunião com os varejistas, o BTG dividiu o setor em três partes:

  • Varejistas de vestuário/calçados estão otimistas com a tendência de recuperação, especialmente empresas mais expostas ao segmento de alta de renda,
  • Players de e-commerce enfrentam um base comparativa mais difícil (especialmente em categorias como eletrônicos) e uma perspectiva competitiva/inflacionária (mas sem grandes restrições na disponibilidade do produto);
  • Players como Lojas Quero Quero e Assaí são afetados por pressões inflacionárias (e, no caso da LJQQ, com alguns problemas em termos de disponibilidade de produtos nas lojas), mas ainda reforçam seus planos de crescimento para 2022.

Para empresas mais expostas à reabertura da economia, embora haja uma tendência de desaceleração em relação aos meses anteriores, os resultados ainda devem ser destaque em nosso universo de cobertura.

De fato, alguns dos maiores varejistas estão se abastecendo de produtos para as festas de fim de ano, em uma forte demonstração de confiança na demanda do consumidor, mesmo com a variante Delta e as interrupções na cadeia de suprimentos adicionando incerteza aos esforços de reabastecimento.

O que fazer no setor de varejo após a correção contínua?

O BTG ainda vê investidores se concentrando em quatro tendências principais do setor nos próximos meses:

  • Desempenho dos players de e-commerce, após grande crescimento em 2020 / início de 2021, vis-à-vis investimentos em aquisição de clientes e restrições na cadeia de suprimentos;
  • Recuperação de segmentos discricionários como vestuário (que teve desempenho inferior no ano passado);
  • Resiliência de segmentos que se beneficiaram com o Coronavoucher, como varejo de alimentos e materiais de construção, também diante de fortes pressões inflacionárias;
  • Consolidação de segmentos entre os maiores / mais capitalizados varejistas. E a volatilidade político-econômica no Brasil deve continuar a desempenhar um papel fundamental nas forças motrizes para o setor e suas ações de beta mais elevado. Assim, após a recente correção, a carteira de curto prazo do BTG oferece um mix de exposição à reabertura da economia e resiliência em meio a perspectivas ainda voláteis: Arezzo, Track & Field, Grupo Soma, Renner e Assaí.

Destaques das reuniões com varejistas

Assaí

Embora os últimos meses tenham visto uma grande aceleração na inflação de alimentos no Brasil, o BTG espera que o Assaí volte a apresentar um desempenho resiliente no 3T21, reportando um crescimento de SSS de 4,5% a/a no 3T21 (vendas totais aumentando 15% a/a) e margem bruta estável.

A empresa se beneficia do contínuo trade-down por parte dos consumidores (de super e hipermercados para lojas de atacado).

O Assaí, apesar de ser um verdadeiro player nacional (presente na maioria dos estados), tem desenvolvido um toque regional, adequando preços, sortimento e implementando uma estratégia de crescimento assertiva (incluindo diferentes formatos / tamanhos de lojas e expansão nacional, inclusive no Nordeste), um importante diferencial competitivo vantagem à medida que cresce (principalmente organicamente).

Tem investido fortemente no Norte e Nordeste nos últimos anos. E embora as fusões e aquisições não estejam fora da mesa, a expansão orgânica ainda é o foco principal.

Americanas

Enquanto a Americanas está em processo de integração (entre os ativos da Lojas Americanas e da B2W, após a combinação no 1S21), o BTG espera que a divisão online cresça 37% a/a no 3T21 (com a operação de marketplace superando adivisão 1P, enquanto esperamos que o take-rate permaneça estável em 10,5%).

Como resultado dos esforços de integração, a empresa deve capturar sinergias – em agosto, já havia anunciado que a combinação de LAME e B2W deve gerar sinergias de R$ 2,3 bilhões até 2024 (custos ex-fusão), ou VPL de R$ 1,6 bilhão (4 % do valor de mercado da AMER), relacionado à otimização de entregas, investimentos em marketing e tecnologia, bem como na estrutura financeira da empresa resultante.

Até o final do ano, a empresa deve ter 100% de suas áreas internas (operações online e offline) integradas, enquanto tem acelerado o ajuste de layout das lojas (com pelo menos 250 lojas até o final de 2021 com “dark spaces” para a plataforma O2O).

Grupo SBF

O tráfego nas lojas está se recuperando gradativamente em relação aos níveis de 2019 (e o BTG espera que as vendas da Centauro cresçam ~20% no 3T21 em relação ao 3T19, com o canal online crescendo ~50% durante este período).

Em relação a potenciais interrupções na cadeia de abastecimento (especialmente com a produção da Nike no Sudeste Asiático), a falta de produtos nas lojas deve ser mínima até o final do ano (35% dos produtos da Nike são produzidos no Brasil para sua operação local, com a meta de atingir ~50% em três anos; para a operação consolidada, ~40% do sourcing é local).

A SBF vê uma perspectiva mais positiva para as margens em sua operação da Nike no país (subindo para 8-9% de margem EBITDA em menos de cinco anos) e com EBITDA já positivo em 2021 (acima das expectativas).

Arezzo

A empresa deve reportar um forte desempenho no 3T21 (~70% a/a de expansão de receita, incluindo Reserva, ou ~15% sem a Reserva), com produção recorde de calçados em setembro (com a maior parte da produção no Brasil, na região do Vale dos Sinos).

Em relação às pressões inflacionárias e à cadeia de suprimentos, a empresa conseguiu mudar parte de sua estratégia de matéria-prima para algumas linhas de produtos (de couro de vaca para pele de carneiro, por exemplo, refletindo as crescentes pressões de custo dos itens de couro).

Além das marcas já consagradas, a Arezzo se beneficia de um amplo portfólio de marcas para diversificar as fontes de receita: Vans (com faturamento de R$ 400-R$ 450 milhões em 2021) e Brisa (~R$ 100 milhões em vendas, segundo estimativas do BTG), assim como a Bambini e o forte desempenho da Reserva.

Magazine Luiza

Apesar da pressão inflacionária sobre as categorias de eletroeletrônicos nos últimos meses (o que limita o espaço para aumentos de preços por parte dos varejistas), o BTG não espera grandes interrupções para MGLU durante a Black Friday e a temporada de compras de Natal, enquanto o GMV online deve crescer 23% no 3T21.

No que diz respeito à logística, a MGLU já é uma referência na sua operação 1P, com 53% das entregas em 24 horas a partir de julho (e 70% em 48 horas), muito melhor do que os níveis pré-pandemia, mas também com foco em um melhor nível de serviço no 3P (~ 100 mil sellers) com o objetivo de taxas de conversão mais altas (em média, entrega expressa, em 1 hora, aumenta as taxas de conversão em 60%) e usando sua abordagem omnichannel para atrair sellers antes restritos ao canal offline.

O desafio para os próximos trimestres é o crescimento de seu marketplace, que envolve uma estratégia tripla: (i) Magalu Coletas (iniciado em 2020, apenas em São Paulo e Espírito Santo, mas agora em 15 estados, ou 60% dos pedidos de marketplace), (ii) envio do seller (usando Pontos de Venda dos vendedores / CDs e estrutura de última milha do MGLU para entregar produtos no mesmo dia, com 300 sellers, em menos de três meses de lançamento) e (iii) vasta base de lojas (1.339 no 2º trimestre).

Track&Field

A empresa deve reportar um crescimento de SSS de dois dígitos no 3T21 vs. 3T19, com a receita líquida crescendo 30% a/a, menos descontos, preços mais altos (~8%) devido à inflação mais alta (absorvida pelos consumidores) e manutenção do e-commerce um desempenho resiliente (penetração de 6% no 2T21 e ~12% considerando o ship-fromstore).

Embora existam preocupações com a cadeia de abastecimento (ou seja, custos de envio mais elevados e prazos de entrega mais longos) conforme a temporada de férias se aproxima, o nível de estoque está sob controle.

Na frente omnichannel, esperamos: (i) ship-from-store deve representar cerca de 50% das vendas online, visto que +200 lojas de 268 têm esse recurso habilitado; (ii) 33% das vendas de sell-out oriundas do social commerce; e (iii) prateleira infinita com início no 4T21.

Lojas Quero Quero

A empresa tem enfrentado algumas rupturas no segmento de eletrônicos (com a indústria priorizando os maiores marketplaces do Brasil em meio a restrições de produção), tendência que esperamos persistir nos próximos meses (na categoria de materiais de construção, os problemas são menores).

A empresa tem utilizado sua carteira de financiamento ao consumidor para compensar parcialmente a alta de preços dos produtos (alongamento do prazo de pagamento ao consumidor), mas sem grande crescimento nos índices de inadimplência (que permanecem abaixo da média dos últimos cinco anos, embora acima dos trimestres anteriores). No geral, esperamos que a LJQQ registre um crescimento de SSS de ~ 1,5% a/a (vs. expansão de 35% a/a no 3T20), com margem EBITDA de 9,5% no 3T21.

Burger King Brasil

Apesar de uma tendência de recuperação para o segmento de restaurantes no Brasil, o BTG espera que o BKBR atinja os níveis de vendas de 2019 apenas no final de 2021 (com desempenho de SSS ligeiramente negativo no 3T21).

Em 2022, a empresa deve abrir de 40 a 50 lojas Burger King (e cerca de 30 lojas Popeyes).

Para a bandeira da Domino’s, a expectativa é de “1 mil lojas em dez anos” (vs. ~300 atualmente).

Embora a entrega via agregadores (Rappi, Ifood e UberEats) deva continuar a desempenhar um papel fundamental, o BKBR tem se focado em aumentar a participação de sua operação online proprietária, com a implantação de seu CRM, que identifica 20% de sua base de clientes, e o desenvolvimento de seu programa de fidelidade.

Um dos desafios dos operadores de restaurantes é equilibrar a margem inferior nas vendas por meio de canais online e atrair novos consumidores em meio à mudança digital mais rápida.

CVC

Embora nos últimos trimestres, como esperado, a CVC tenha sido impactada negativamente pela da Covid-19, a tendência mais fraca do que o esperado no segundo trimestre (com taxas de compra mais baixas) pesou sobre as ações.

A maioria desses efeitos devem ser temporários (por exemplo, os take rates mais baixos no segmento B2C e reembolsos – esse efeito negativo nas margens deve ser sentido até o 2T22).

Depois de chegar ao fundo do poço operacional no ano passado, a CVC deve ser um dos principais beneficiários da vacinação, além de alavancar seu vasto relacionamento de longo prazo com a fragmentada indústria hoteleira, bem como com as companhias aéreas, nos segmentos B2B e B2C.

O BTG também elogia o turnaround da administração desde o ano passado, a enorme escala e o poder de barganha da CVC com os fornecedores (especialmente operadores de hotéis).

“Mas vemos grandes desafios (alinhamento entre base de franqueados e crescimento online/competição com OTAs, que ainda é um trabalho em andamento), enquanto o mercado de turismo se prepara para uma recuperação apenas gradual nos próximos trimestres – assumimos que as reservas de B2C atingem os níveis de 2019 em 2022, com as reservas de B2B fazendo o mesmo apenas em 2023”, dizem os analistas.

Lojas Renner

Enquanto a LREN3 caiu 22% no acumulado do ano, o 2T21 foi o ponto de inflexão (o BTG espera que a LREN acelere o crescimento em relação aos trimestres anteriores, com vendas totais no varejo crescendo 15% no 3T21 vs. 3T19), abrindo espaço para uma potencial valorização de curto prazo.

E os analistas ainda veem a Renner bem posicionada para ganhar participação de mercado no fragmentado segmento de varejo de vestuário do Brasil, dada sua (i) estrutura de cadeia de suprimentos de ponta (uma vantagem, pois a indústria enfrenta uma tendência disruptiva de curto prazo, enquanto qualquer efeito sobre a LREN deve ser menor); (ii) execução premium; e (iii) iniciativas omnichannel, que sustentam nossa visão positiva de longo prazo.

Investimentos adicionais para impulsionar sua plataforma multicanal devem pressionar o EBITDA e os resultados financeiros, enquanto as futuras fusões e aquisições (usando alguns recursos do recente follow-on) são fundamentais para um re-rating mais forte.

Money Week 5ª Edição

5 Dias de Evento | 70 Autoridades do Mercado Financeiro | 20 Horas de Conteúdo