BTG (BPAC11): “Recuperação em ‘V’ será rápida e forte”, diz Esteves

Paulo Amaral
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Crédito: Reprodução

André Esteves, sócio-sênior do BTG Pactual (BPAC11) e fundador do BTG, foi um dos palestrantes do 1º dia do Advisors Day 2020, evento promovido em parceria com a Eu Quero Investir.

Responsável por abordar o tema Cenário Macroeconômico, o especialista do BTG Pactual conversou com Marcelo Flora, sócio e responsável pelo BTG Pactual digital.

Esteves analisou a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus.

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Abordou temas que foram  da influência da eleição presidencial nos Estados Unidos na economia global ao papel do BTG no novo cenário bancário que vem se desenhando no Brasil.

Também falou da retomada do país após a crise sanitária. E se mostrou otimista sobre recuperação da economia.

“Indicadores apontam para recuperação relativamente forte e relativamente rápida”, opinou.

Confira como foi o bate-papo clicando nesse link.

Sistema financeiro no Brasil

Um dos pontos altos da conversa entre Marcelo Flora e André Esteves foi sobre o sistema financeiro do país.

De acordo com o fundador do BTG, o atual momento vivido no Brasil é comparável à época pré-plano real, em meados da década de 1990.

Na ocasião, os principais bancos “se aproveitavam” da inflação para ganhar dinheiro, mas tiveram que se reinventar quando o cenário mudou, com a adoção do real como moeda.

“Acho que o sistema financeiro no Brasil vai passar por uma transformação profunda. Vai vir uma desconcentração bancária. Novos players vão surgir”, apostou.

O executivo mostrou-se satisfeito com o crescimento do BTG e com a adaptação da instituição às novas exigências do mercado. E assegurou que a ideia é seguir crescendo e apostando no sucesso do país.

“A gente já faz parte do S1, que são as instituições mais importantes, junto dos cinco maiores bancos. Estamos comprometidos com o Brasil e vamos construir uma parceria muito bacana”, prometeu.

“É uma enorme oportunidade de entregar um serviço diferenciado. Temos tudo para fazer isso. Apetite e capital para isso. Estamos refletindo 12 horas por dia no que de melhor podemos entregar de uma maneira simples e barata”, emendou Esteves.

“Estamos aprendendo a atuar no varejo. Nascemos como banco de investimento, mas tem sido uma alegria e um privilégio servir ao consumidor final de uma maneira mais direta”, completou.

Momento do mercado brasileiro

O executivo do BTG analisou o atual momento vivido pelo mercado brasileiro e o posicionamento do governo em meio à crise causada pelo novo coronavírus.

Na visão de André Esteves, o país adotou as medidas corretas para tentar ajudar à população mais vulnerável, mas os gastos extras precisarão parar assim que possível, para que o mercado não veja isso como um sinal de irresponsabilidade fiscal.

“Demos uma resposta muito agressiva para a crise. O Brasil talvez tenha sido o mercado emergente que mais agressivamente respondeu à crise, expandindo os gastos sociais”, pontuou.

“Foi necessário e não tem nada de errado com isso, mas, para continuar em um ambiente de economia estável, precisamos sinalizar para os agentes econômicos a nossa disciplina. O país é como a nossa casa, nossa empresa. Às vezes pode gastar um pouco mais do que ganha, mas, se fizer isso sistematicamente, vai quebrar. Acho que nossas lideranças políticas, que foram proativas em apoiar a expansão de gastos, agora precisam voltar à disciplina”, completou.

Segundo o criador do BTG, caso o governo hesite em tomar essa atitude com a pandemia controlada, “os problemas serão mais sérios do que os de hoje”.

Criador do BTG aposta em recuperação em “V”

Termo usado com frequência pelo Ministro da Economia Paulo Guedes para ilustrar o cenário econômico do Brasil, a recuperação em “V” também foi citada por André Esteves em sua análise.

De acordo com o executivo do BTG, a resposta brasileira à crise causada pela pandemia será proporcional aos estragos causados pela Covid-19 no setor econômico.

“O Brasil vem ganhando confiança gradual dos mercados e está no meio de uma recuperação positiva. Gastamos mais, mas nossa economia está voltando mais rápido. Estamos com uma retomada que se chama em V. Queda muito abrupta, mas volta também forte. Indicadores apontam para recuperação relativamente forte e relativamente rápida”, opinou.

“O PIB nesse ano deverá fechar com queda de 4,% a 4,5% e, ano que vem, ter um crescimento de até 3,5%. Diante desse desastre mundial, isso é bastante significativo. Só que, para manter essa trajetória, tem sinalizar disciplina fiscal”, repetiu.

Os juros no Brasil

A disciplina fiscal tão frisada por André Esteves consiste também em lutar pela manutenção de uma taxa básica de juros baixa. Atualmente, a Selic está em 2% ao ano.

“Estamos no mundo do solid single digits. Juros de um dígito com previsibilidade. Isso dispara um fenômeno excepcional, que é a transferência de renda do rentista para o empreendedor, majoritariamente no mercado de capitais”, discursou.

“Para ele se perpetuar, tem que manter condições de taxa de juros baixa. Está excessivamente baixa e amanhã vai voltar à normalidade. Que a normalidade seja 4, 5%. Não seja 10%. Para isso, precisamos ter um ambiente fiscal saudável. Acho que essa é a discussão agora em Brasília”, apostou.

A volta de juros altos, superiores aos 5% citados, pode fazer o cenário econômico do Brasil guinar novamente. Só que para pior.

“A gente vive uma dicotomia. Se escolhermos o caminho de ampliar o gasto, faremos uma tremenda bobagem. Vai trazer mais insegurança, os mercados vão ficar nervosos, o BC vai subir os juros. Em vez de promover desenvolvimento, vai promover subdesenvolvimento”.

Reformas

André Esteves foi questionado sobre a agenda de reformas no Brasil. Para o presidente do BTG, o país está em um bom caminho.

“Tem uma agenda muito boa de reformas pela frente, como a administrativa. A tributária eu prefiro chamar de simplificação tributária. Não é feita para aumentar ou diminuir a arrecadação. No fundo, o que estamos fazendo é simplificar o sistema. Tornar a vida de todos nós mais simples no âmbito tributário”, analisou.

Mais do que as grandes reformas, como a administrativa, o executivo vê com bons olhos o que rotulou de “micro” reformas. E admitiu que espera ver três assuntos resolvidos até o fim de 2020.

“Algumas estão maduras para serem votadas. Gostaria de ver o Congresso votando. Terminar o ano com lei do gás aprovada, lei de falência aprovada, qui sá um Banco Central independente”.

Privatizações

Ao defender as privatizações de empresas-chave, como Correios, Eletrobras e Banco do Brasil, André Esteves viajou no tempo e lembrou da época em que as linhas de telefone fixas tinham até que ser declaradas no Imposto de Renda.

“Alguém tem dúvida de que melhorou a produtividade nas telecomunicações? [a privatização] É outro assunto que deveria ser incontroverso. Ao privatizar a Telebras, criou competição, o custo caiu. Fizemos isso tarde”, lamentou.

“Na siderurgia, a CSN, a Usiminas, todas eram estatais. Abaixo da Siderbras. Obviamente quebrou. Ainda temos alguns gigantes vagando por aí, como Correios, Eletrobras. Totalmente desnecessário. O próprio Banco do Brasil. Por que precisa ser estatal?”, questionou.

“A própria Petrobras. Petrobras é nossa. Nossa de quem? Não tem necessidade. Como sociedade, temos que cobrar essa eficiência”, completou.

Biden x Trump: o efeito das eleições no cenário global

André Esteves não falou apenas de Brasil em seu bate-papo desta terça-feira.

Durante a conversa com Marcelo Flora, o fundador do BTG esmiuçou os cenários possíveis para a economia global após a eleição presidencial nos Estados Unidos.

Para Esteves, uma possível vitória de Joe Biden, hoje favorito, mudaria inclusive o preço do dólar, não somente no Brasil, mas em outros lugares do mundo.

“Há algum tempo temos um dólar muito forte. Há a sensação de que esse ciclo pode estar perto do fim. Há uma validade nisso e pode ser que venha à tona com a eleição de um presidente democrata”, confirmou.

“Pode haver maior expansão fiscal, tributação nos gigantes digitais, medidas anti-trust. Tudo isso é possível e pode fazer com que, em nível global, vivamos um ciclo com um dólar mais fraco. Se o Trump for reeleito, no entanto, acho que nada muda”.

Bolsonaro e Trump

O executivo não acredita que o Brasil possa ser “penalizado” comercialmente no caso de uma vitória de Joe Biden pelo fato de o presidente Jair Bolsonaro ser apoiador declarado de Donald Trump.

“A despeito da afinidade do presidente Bolsonaro com o presidente Trump, a política americana é pragmática, O Brasil é um player relevante e tem histórico com os EUA. Pouca coisa vai mudar”, assegurou.

“Lula tinha afinidade com Bush. Um de esquerda, outro de direita. Tem um pouco de afinidade pessoal, mas, do ponto de vista macro, EUA são muito pragmáticos sobre política externa e pouca coisa vai mudar em relação ao Brasil”, repetiu.

Mercado instável x eleições norte-americanas

Se para o Brasil “pouca coisa” deve mudar, independentemente de quem vencer as eleições, para o mercado financeiro a resposta é um pouco diferente.

Por conta do sistema eleitoral norte-americano, que, em casos de pleitos muito disputados, pode demorar semanas para declarar o vencedor, o clima de insegurança preocupa.

“O pior cenário é um resultado muito dividido, pois pode levar semanas para sair o resultado. O mercado pode ficar inseguro”, apontou.

“Todos sabem do ligeiro favoritismo de Biden nesse momento e o mercado está animado a princípio com esse pacote de apoio mais amplo às vítimas de Covid”.

Briga EUA x China

Ao abordar o futuro das relações entre Estados Unidos e China, André Esteves fez uma rápida comparação sobre o que deve ocorrer nos dois cenários: com a permanência de Trump ou com a vitória de Biden.

“Acho que a eleição de Biden significa um mundo novamente andando na direção multilateral. O Trump foi um inimigo do multilateralismo. Trouxe o American first, em prejuízo do mundo e dos Estados Unidos. No fundo, joga contra a própria América. Uma eleição democrata significa a volta ao multilateralismo. Bom para o mundo, inclusive para o Brasil”, apostou.

“Em relação à China, não acho que vá alterar muito. Quando a segunda potência ascende à primeira, é momento de turbulência mundial. Mesmo com Biden eleito, esse contraponto à ascensão vai continuar, até porque é uma demanda da sociedade americana como um todo”.

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