Bolsonaro teria vinculado troca na PF a proteção de filhos, diz mídia

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor
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Crédito: Reprodução/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro teria vinculado a troca no comando na Polícia Federal a proteção de seus filhos. Ele queria evitar que familiares e amigos fosse investigados pela PF. É o que relatam fontes ouvidas pela reportagem de O Estado de S. Paulo, em edição online, postada nesta terça (12).

As informações constam no vídeo da reunião ministerial citada pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, em seu depoimento à Polícia Federal (PF), em Curitiba, dia 2 de maio.

O vídeo foi exibido por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello para advogados de Moro, integrantes da Procuradoria Geral da República e da Advocacia Geral da União, que defendem o presidente, no Instituto Nacional de Criminalística em Brasília, nesta terça-feira (12).

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Sérgio Moro deixou o governo no último dia 24 de abril dizendo que Bolsonaro queria interferir no comando da PF. Por esse motivo foi aberto um inquérito na PGR, aceito pelo STF.

O vídeo da reunião é peça chave dessa investigação, ainda em curso. Bolsonaro negou que tenha citado a PF na reunião e disse que não está preocupado com o conteúdo da gravação.

Reportagens do portal UOL, da CNN Brasil e do jornal O Globo, que reportaram ter utilizado fontes da PF  do Palácio do Planalto, também dão conta de que o presidente pediu a troca no comando da instituição para proteger familiares e amigos.

Conteúdo devastador

Segundo o jornalista Fausto Macedo, do Estadão, o conteúdo da reunião ministerial é “devastadora para o governo do presidente Jair Bolsonaro”.

Macedo, do Estadão, informa ainda que o advogado de Moro, Rodrigo Sánchez Rios, “afirmou que o material ‘confirma integralmente’ as declarações dadas pelo ex-juiz tanto no anúncio de sua demissão quanto no depoimento prestado à Polícia Federal” no último dia 2.

Os relatos da reunião tiveram impacto no mercado financeiro. A bolsa fechou em baixa nesta terça, após altas durante a sessão.

A reunião do dia 22 de abril

A reunião ministerial aconteceu no dia 22 de abril, dois dias antes de Moro pedir demissão do cargo. Toda reunião ministerial é gravada e neste vídeo.

Bolsonaro teria afirmado, segundo fontes que tiveram acesso ao conteúdo contaram ao portal UOL, que os familiares estariam sendo perseguidos e que por isso deveria trocar o comando da PF.

O presidente não queria ser surpreendido com informações da PF sobre assuntos ligados à sua família, nem a “meus amigos”, segundo diz ele no vídeo.

Bolsonaro se defende

Em declaração a jornalistas após a exibição do vídeo, o presidente negou a interferência na PF e disse que só temia pela segurança de sua família, após ter sido atacado por faca durante a campanha presidencial de 2018.

Alegou que a investigação não foi concluída e que por isso temeu pela integridade dos familiares, Afirmou que não está preocupado com o teor dessa reunião.

O presidente declarou também que não há, na reunião, menção á “PF”: “Não existe essa ‘palavra’ no vídeo”, insistiu Bolsonaro,

“Desisti de divulgar [o vídeo] porque aconteceu o processo. Sou a última pessoa a ser ouvida. Não existe no vídeo todo a palavra Polícia Federal nem superintendência”, defendeu-se a jornalistas.

“Nunca estive preocupado com a PF”, afirmou também. “O vídeo foi entregue à PF porque meu interesse é na verdade.”

Mas, de acordo com pessoas que tiveram acesso ao vídeo, ouvidas pelo Estadão, Bolsonaro disse na reunião que gostaria de trocar o comando da PF no Rio de Janeiro, onde estão os negócios de sua família, além do diretor-geral da instituição, na época Maurício Valeixo, e, se fosse o caso, exoneraria até o ministro da Justiça, que era Sergio Moro.

De fato, no dia 24 de abril, saiu no Diário Oficial da União a demissão de Maurício Valeixo, que ocupava o cargo de diretor-geral da PF. Moro não concordou e pediu demissão.

Afinidade

Em depoimento nesta segunda (11), o ex-diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, disse que o presidente da República Jair Bolsonaro decidiu exonerá-lo para colocar no cargo alguém com quem tivesse “mais afinidade”.

A afirmação de Valeixo vai ao encontro do que foi dito pelo próprio Bolsonaro, no dia 24 de abril, logo após o ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro pedir demissão: “Quero um delegado, que pode não ser o seu, que pode não ser o meu, mas que eu sinta, além da competência óbvia, se bem que isso é uma coisa comum entre os delegados da Polícia Federal, que eu possa interagir com ele”.

E foi mais longe, tentando justificar a ação: “Por que não? Eu interajo com os homens de inteligência das Forças Armadas, se preciso for, eu interajo com a Abin (Agência Brasileira de Inteligência), interajo com qualquer um do governo”.

Advogado de Moro defende que vídeo venha a público

O que se vê no vídeo da reunião, ainda segundo essas fontes do Estadão e também de o Globo, é que o presidente Jair Bolsonaro defendeu trocas no comando da Polícia Federal do Rio para evitar que familiares e amigos seus fossem “prejudicados” por investigações em curso.

Em nota, o advogado afirmou ainda que o vídeo ‘não possui menção a nenhum tema sensível à segurança nacional’ e defendeu que a íntegra da gravação seja tornada pública”.

“O presidente afirmou que iria interferir em todos os Ministérios e quanto ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, se não pudesse trocar o Superintendente da Polícia Federal do Rio de Janeiro, trocaria o Diretor Geral e o próprio Ministro da Justiça”, disse Moro em seu depoimento já tornado público.

Moro comentou sobre a reunião: “O vídeo da reunião ministerial confirma o conteúdo do meu depoimento sobre a interferência na PF, o que me fez sair do governo. Defendo, respeitosamente, a divulgação do vídeo, na íntegra, para que os fatos sejam elucidados”.

A decisão sobre a divulgação ou não do vídeo será dada pelo ministro Celso de Mello, do STF.

Troca no RJ

Bolsonaro estava determinado a proteger sua família e seus amigos. “Sob esses argumentos”, reporta o jornal O Globo, “o presidente afirma que trocaria o superintendente do Rio, o diretor-geral da PF ou até mesmo o ministro da Justiça, para garantir ter acesso a informações e que pessoas próximas não seriam prejudicadas”.

“Na avaliação de investigadores, o presidente confirmou expressamente que trocaria postos-chave da Polícia Federal em troca de indicar uma pessoa de sua confiança que garantisse acesso a informações sobre investigações contra familiares e pessoas próximas”, segue a matéria.

Isso de fato ocorreu. Bolsonaro indicou Alexandre Ramagem para a direção-geral da PF. Mas outro ministro do STF, Alexandre de Moraes, em decisão monocrática, barrou a posse, alegando justamente interferência na PF.

Bolsonaro teve, então, que escolher outro nome. Rolando Alexandre de Souza acabou sendo empossado. Ele é bastante próximo a Ramagem e era o número 2 na Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que era dirigida por Ramagem.

O primeiro ato de Souza ao ser empossado foi exatamente o que pretendia Bolsonaro: trocar o comando da PF no Rio de Janeiro. O ocupante do cargo, Carlos Henrique de Oliveira, colocado no cargo por Valeixo, recebeu o convite para ser o diretor-executivo da corporação.

Acusações

O presidente diz que não tem nenhum parente investigado pela PF. Mas reportagem da Folha mostra que a PF no Rio de Janeiro “tem uma série de apurações e interesses que esbarram nele e em sua família”.

“A preocupação com investigações, desconhecimento sobre processos, síndrome de perseguição, inimigos políticos e fake news são alguns dos principais pontos elencados” pela Folha para tentar desvendar o que há no Rio.

Desde o episódio envolvendo um porteiro do seu condomínio na Barra da Tijuca, na investigação do assassinato de Mairelle Franco (PSOL), Bolsonaro passou a se preocupar ainda mais com o Rio, lembra o jornal.

Há ainda o caso da “rachadinha” do gabinete de Flávio Bolsonaro (Republicanos) na Assembleia do Rio, quando o filho do presidente era deputado estadual. Mas a investigação não está com a PF, e sim com o STF, já que Flávio tem foro privilegiado por ser senador eleito.

O vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos) também é investigado pela suspeita do uso de funcionários fantasmas em seu gabinete e da prática de “rachadinha”.

Maia comenta

Os relatos sobre o conteúdo da reunião fizeram aumentar debates sobre impeachment e pedidos de abertura do processo no Congresso por parlamentares e políticos de oposição. A questão foi discutida nas redes sociais durante a repercussão do vídeo.

O presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, porém, descartou aceitar um pedido pelo processo: “Impeachment é solução extrema”, disse ele.

De acordo com o o jornalista Fausto Macedo, do Estadão, Maia enviou manifestação ao Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), solicitando que o ministro Celso de Mello rejeite ação de dois advogados. Eles pedem “análise imediata do impeachment do presidente Jair Bolsonaro”.

Segundo Macedo, Maia ponderou: “O primeiro juiz das autoridades eleitas numa democracia deve ser sempre o voto popular.”