Em reunião ministerial, Bolsonaro avisou: “Vou interferir, ponto final”

Fernando Augusto Lopes
Redator e editor

Crédito: Divulgação / Palácio do Planalto

Na reunião ministerial de 22 de abril, citada pelo ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Sergio Moro, em depoimento à Polícia Federal (PF), o presidente da República Jair Bolsonaro disse “vou interferir, ponto final”, referindo-se ao comando da PF.

A Advocacia-Geral da União (AGU) entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) transcrição da reunião apenas dos trechos em que o presidente fala, omitindo as intervenções dos demais ministros, alegando que eles não são alvos da investigação.

Moro acusou Bolsonaro de interferir politicamente na PF para proteger sua família, amigos e apoiadores. O presidente queria trocar o diretor-geral da instituição, Maurício Valeixo, e o superintendente do Rio de Janeiro,
Carlos Henrique Oliveira de Sousa, estado onde sua família tem negócios.

Isso efetivamente ocorreu: Bolsonaro exonerou Valeixo, levou Rolando Alexandre de Souza para o cargo e Souza trocou a superintendência do Rio de Janeiro. Moro acabou fora do governo.

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Trechos transcritos

São apenas dois trechos transcritos pela AGU e enviados ao STF.

No primeiro, Bolsonaro reclama que não recebe informações: “Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações; eu tenho as inteligências das Forças Armadas que não têm informações; a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) tem os seus problemas, tem algumas informações, só não tem mais porque tá faltando realmente… temos problemas… aparelhamento etc. A gente não pode viver sem informação. Quem é que nunca ficou atrás da… da… da… porta ouvindo o que o seu filho ou a sua filha tá comentando? Tem que ver pra depois… depois que ela engravida, não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes. Depois que o moleque encheu os cornos de droga, não adianta mais falar com ele: já era. E informação é assim. (fala ocultada por ser sobre outros países). Então, essa é a preocupação que temos que ter: ‘a questão estratégica’. E não estamos tendo. E me desculpe o serviço de informação nosso – todos – é uma vergonha, uma vergonha, que eu não sou informado, e não dá pra trabalhar assim, fica difícil. Por isso, vou interferir. Ponto final. Não é ameaça, não é extrapolação da minha parte. É uma verdade”.

No segundo trecho, Bolsonaro fala sobre não esperar “f.” sua família: “já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro oficialmente e não consegui. Isso acabou. Eu não vou esperar f. minha família toda de sacanagem, ou amigo meu, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence à estrutura. Vai trocar, se não puder trocar, troca o chefe dele; não pode trocar o chefe, troca o ministro. E ponto final. Não estamos aqui para brincadeira”.

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Defesa de Bolsonaro

A AGU argumenta que o termo “segurança nossa” refere-se à segurança da família do presidente, que estaria a cargo do Gabinete da Segurança Institucional (GSI), do general Augusto Heleno, e não à PF.

A advocacia-geral ainda reforça que não há uso, nos dois trechos transcritos, dos termos “superintendência”, “Polícia Federal” ou “diretor-geral”, o que mostra que Bolsonaro não se referia à interferência no órgão.

“As declarações presidenciais com alguma pertinência (à investigação) não estão no mesmo contexto, muitíssimo pelo contrário: estão elas temporal e radicalmente afastadas na própria sequência cronológica da reunião”, diz a manifestação da AGU, assinada pelo advogado-geral da União, José Levi, reforçando que em cada trecho de fala do presidente se mostra “literal e objetivamente equivocado” afirmar que Bolsonaro está insatisfeito com o recebimento de informações de órgãos do governo e haja tentativa de obter informações sigilosas de investigações da Polícia Federal.

Defesa de Moro

Advogados de Sergio Moro discordam da AGU. Para eles, o que foi transcrito omite trechos importantes e relevantes da reunião. “A transcrição parcial revela disparidade de armas pois demonstra que a AGU tem acesso ao vídeo, enquanto a defesa não tem. A petição contém transcrições literais de trechos das declarações do Presidente, mas com omissão do contexto e de trechos relevantes para a adequada compreensão, inclusive na parte da ‘segurança do RJ'”, dizem.

Para os advogados, o trecho completo mostra que as referências eram à PF e não ao GSI.

Moro pede no STF que o vídeo da reunião seja divulgado na íntegra, sem cortes.

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