Bolsonaro: Moro toparia troca na PF por indicação ao STF

Paulo Amaral
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Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro fez pronunciamento de mais de 40 minutos na tarde desta sexta-feira (24) para “restabelecer a verdade sobre a demissão” do agora ex-Ministro da Justiça, Sergio Moro.

Acusado por Moro de querer interferir politicamente na Polícia Federal, o que causou a repentina exoneração do diretor-geral, Maurício Valeixo, Bolsonaro – cercado pelos seus ministros e vice-presidente Hamilton Mourão, resolveu contra-atacar – deu sua versão do episódio da demissão de Moro e fez acusações ao ex-ministro.

No longo discurso em que o presidente pretendeu se defender das declarações de Moro, Bolsonaro acusou o ex-ministro da Justiça de fazer uma chantagem: Moro aceitaria a demissão de Valerio se, em novembro, o presidente indicasse para uma vaga no STF – no lugar do ministro Celso de Mello, que deixará o Supremo após completar 75 anos.

“Mais de uma vez [Moro] me disse que aceitaria a exoneração se eu o indicasse para uma vaga no STF”, afirmou Bolsonaro.

Moro já rebateu a acusação em tuíte postado agora há pouco:

Ego

Bolsonaro reforçou também, a respeito da interferência da PF, citada por Moro no discurso de saída do governo: “Não são verdadeiras informações de que pedi para interferir nas investigações que estavam sendo realizadas pela PF”

Depois de contar, longamente, o histórico de como conheceu Sergio Moro e de assegurar, repetidamente, que o agora ex-ministro não participou de sua campanha para a presidência da República, Bolsonaro fez críticas ao ego do ex-juiz.

“Sabia que não seria fácil. Uma coisa é você admirar uma pessoa, a outra é conviver com ela, trabalhar com ela. Hoje, pela manhã, tomando café com alguns parlamentares, eu lhes disse: hoje vocês conhecerão aquela pessoa que tem um compromisso consigo próprio, com o seu ego, e não com o Brasil”, disparou o presidente.

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“Estou decepcionado e surpreso com seu posicionamento. O senhor disse que tinha uma biografia a zelar. Eu digo à Vossa Senhoria que eu tenho um Brasil a zelar. Tenho dado mais do que a vida à minha pátria”, avisou.

Carta branca

O presidente repetiu parte do que disse na saída de Luiz Henrique Mandetta do Ministério da Saúde ao assegurar, em outras palavras, que “a caneta dele funciona”, negando que tenha dado carta branca a Moro quando este assumiu o ministério.

“Autonomia não é sinal de soberania. Cargos-chaves teriam que passar pela minha mão e eu daria o sinal verde. Foi assim com o senhor Valeixo, até ontem, diretor da nossa ilustre Polícia Federal. A indicação foi do senhor Sergio Moro, apesar de a lei de 2014 dizer que a indicação e nomeação é exclusiva do senhor presidente da República. Abri mão disso, porque confiava no Moro e ele trouxe a sua equipe aqui pra Brasília”.

Bolsonaro disse também que “a confiança tem que ter dupla mão” e que não pode conviver com quem pensa de forma diferente.

Moro se manifestou novamente sobre o pronunciamento de Bolsonaro:

Troca de favores?

Em outro momento da fala, Bolsonaro insinuou que Sergio Moro não foi completamente honesto em seu pronunciamento por não ter revelado que negociou com ele uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) já no fim de 2020, ocasião em que Celso de Mello deixará o cargo por completar 75 anos.

“Mais de uma vez, o senhor Sergio Moro disse para mim: ‘Você pode trocar o Valeixo sim, mas em novembro, depois que o senhor me indicar para o STF’, disparou. “Me desculpe, mas… não é por aí”, complementou.

O time de Moro

Bolsonaro também colocou em dúvida o fato de Moro ter escolhido para formar seu “time” seus ex-companheiros de Curitiba, chegando a questionar se “a nata da Polícia Federal estaria mesmo toda reunida em um só lugar”.

“Moro trouxe sua equipe para Brasília. Todos os cargos-chaves da Justiça são de Curitiba, inclusive a Polícia Rodoviária Federal. Lógico, me surpreendeu, será que os melhores da PF estavam em Curitiba? Mas, vamos confiar, dar um crédito. E assim nós começamos a trabalhar”, lembrou.]

Interferência na PF?

Bolsonaro também retrucou Moro quando abordou a acusação do ex-ministro sobre querer interferir na Polícia Federal. E relembrou do incidente em que levou uma facada durante campanha presidencial e o assassinato da vereadora Marielle Franco para criticar o trabalho de Moro.

“Falava-se em interferência minha na Polícia Federal. Se eu posso trocar o ministro, por que não posso trocar o diretor da PF? Não tenho que pedir autorização pra ninguém pra trocar o diretor ou qualquer outro que esteja na pirâmide hieráriquica do poder Executivo. Será que interferir na PF é quase que exigir e implorar que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo”, disparou.

“Cobrei muito deles aí (a resposta sobre a facada). Acho que todas as pessoas de bem do Brasil querem saber. Desculpa, ministro, mas entre o meu caso e o da Marielle, o meu tá muito menos difícil de solucionar. ”

Bolsonaro admitiu, no entanto, que precisava ter em sua mesa, “a cada 24 horas”, relatórios da Polícia Federal para “decidir o futuro da Nação”. “Eu sempre cobrei informações dos demais órgãos de inteligência oficiais”.

Disse também que abriu seu coração para o ex-ministro, mas duvida que Moro tenha feito o mesmo. E voltou a dizer que a Polícia Federal seguirá tendo sua autonomia.

“Queremos que a PF seja usada em sua plenitude. No que depender de mim, as operaç!oes da Polícia Federal serão potencializadas”.

 

Processos contra os filhos

Mesmo que brevemente, o presidente da República garantiu ainda que nunca pediu a Sergio Moro qualquer detalhe sobre investigações em andamento na Polícia Federal.

Atualmente, dois filhos de Jair Bolsonaro – Carlos e Flávio – são alvos da PF na CPI das Fake News.

Flávio também responde por suposta participação em um esquema de propina batizado de “rachadinha”, na época em que era deputado pelo Rio de Janeiro.

“Nunca pedi pra ele o andamento de qualquer processo, até porque, a inteligência, com ele, perdeu espaço na Justiça, quase que implorando informações. Nunca pedi para blindar ninguém da minha família e jamais faria isso”.

Falsidade ideológica

O presidente da República não se aprofundou, no entanto sobre uma declaração dada por Moro em sua despedida, na qual afirmou que ele não teria assinado o decreto de exoneração de Valeixo, que caracterizaria crime de falsidade ideológica por parte de Bolsonaro.

“Conversei com Valeixo e ele concordou que contasse no Diário Oficial da União ‘demissão a pedido. Ele [Moro] fez acusações infundadas, que eu lamento”.

Encerramento

Para encerrar o longo pronunciamento, Bolsonaro pediu licença e leu três páginas de um documento, no qual repetiu praticamente tudo o que falou nos 40 minutos iniciais, com mais uma cutucada no agora ex-ministro Sergio Moro.

“Desculpe, seu ministro, mas o senhor não vai me chamar de mentiroso. Essa é a acusação mais grave para um homem como eu, militar, cristão e presidente da República. Não posso aceitar minha autoridade confrontada por qualquer ministro”, disparou.

“Continuarei fiel a todos os brasileiros, no combate à corrupção, às organizações criminosas. O governo continua. Vamos levar, no sentido figurado, muito tiro na cara, mas vamos cumprir a missão. O Brasil é muito maior que qualquer um de nós”, concluiu.

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