Pressionado, Bolsonaro promete 500 milhões de doses de vacina até o fim de 2021

Felipe Alves
Jornalista com experiência em reportagem e edição em política, economia, geral e cultura, com passagens pelos principais veículos impressos e online de Santa Catarina: Diário Catarinense, jornal Notícias do Dia (Grupo ND) e Grupo RBS (NSC).
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Crédito: Isac Nóbrega/PR

Em pronunciamento curto feito em rede nacional na noite desta terça-feira (23), o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o país, em poucos meses, será autossuficiente na produção de vacinas contra a Covid-19.

“Não sabemos por quanto tempo teremos que enfrentar essa doença, mas a produção nacional vai garantir que possamos vacinar os brasileiros todos os anos, independentemente das variantes que possam surgir”, destacou o presidente.

Bolsonaro disse que até o fim de 2021 estarão disponíveis mais de 500 milhões de doses para vacinar toda a população do país.

O pronunciamento aconteceu no dia em que o país registrou 3.158 mortes, maior número desde o início da pandemia. Foi a primeira vez que o Brasil ultrapassou o patamar dos 3 mil óbitos em 24 horas.

Pressão e agravamento da pandemia

A declaração ocorre em momento de pressão sobre o governo. O presidente vinha colocando em dúvida a eficiência da vacinação e chegou a questionar e ironizar o imunizante Coronavac, importado da China e agora produzido pelo Instituto Butantan. O governo foi acusado de demorar no acerto de contratos para a compra de vacinas.

A pandemia se agravou, com recordes seguidos no número de mortos e aumento descontrolado em diagnósticos de Covid.

Hospitais e unidades de atendimentos de 24 estados mais o Distrito Federal vêm relatando diariamente o colapso do sistema de saúde, com filas de pacientes à espera de atendimento, além de relatos recorrentes de falta de oxigênio e de insumos.

O governo vem sendo criticado por políticos de oposição e aliados, médicos, cientistas e economistas, além da OMS (Organização Mundial da Saúde), pela lentidão na aquisição de vacinas e pelo programa de imunização —  pouco mais de 6% da população recebeu a primeira dose.

Governadores e prefeitos têm se mobilizando para adquirir mais imunizantes e marcaram uma reunião nesta quarta com membros do Executivo e com Bolsonaro para discutir medidas de restrição da circulação de pessoas — a exemplo de lockdows, criticados pelo presidente — e planos para agilizar a vacinação.

Os governadores pedem solução urgente para reduzir o caos no sistema de saúde do Brasil.

Bolsonaro nunca incentivou o uso de máscaras — medida que é consenso na comunidade científica como forma de evitar a contaminação — e vinha pedindo a volta ao trabalho em cidades que adotaram regras de isolamento social e decretos contra aglomerações.

O Ministério da Saúde reduziu nesta terça a previsão de vacinas para o mês de abril. O cronograma de imunização contra covid-19 sofreu diminuição de quase 10 milhões de doses.

A estimativa anterior era de que seriam entregues 57,1 milhões de vacinas, mas o número foi agora para 47,3 milhões.

Até o início da noite de hoje, haviam sido distribuídas 29,9 milhões de doses de vacinas. Deste total, foram aplicadas 15 milhões de doses, sendo 11,4 milhões da 1ª dose e 3,6 milhões da 2ª dose.

Vírus e o desemprego

“Estamos fazendo e vamos fazer de 2021 o ano da vacinação dos brasileiros. Somos incansáveis na luta contra o coronavírus. Essa é a missão e vamos cumpri-la”, afirmou.

Bolsonaro voltou a afirmar que o Brasil enfrenta dois grandes desafios: o vírus e o desemprego. “Em nenhum momento o governo deixou de tomar medidas importantes tanto para combater o coronavírus como para combater o caos na economia, que poderia gerar desemprego e fome”, ressaltou.

Bolsonaro destacou ainda que o Brasil usaria qualquer vacina aprovada pelos órgãos competentes e falou sobre os contratos assinados ao longo de um ano para a produção de imunizantes.

Contrato com a Universidade de Oxford

O presidente citou o contrato com a Universidade de Oxford para a produção, na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), de 100 milhões de doses da vacina AstraZeneca e o acordo com o consórcio Covax Facility para a produção de 42 milhões de doses.

O Valor Econômico apurou que o discurso de Bolsonaro, radicalmente diferente de seu estilo, foi quase todo escrito pelo ministro Fábio Farias (Comunicações). Segundo a reportagem, seriauma tentativa do núcleo mais próximo do presidente de afastá-lo da imagem de negacionista e antivacina.

O governo vive momento de queda de popularidade nas pesquisas. Mas Bolsonaro não mencionou o lockdown defendido por muitos governadores como medida urgente para reduzir o caos no sistema de saúde do Brasil

O presidente disse que intercedeu pessoalmente junto à Pfizer para a antecipação de 100 milhões de doses que serão entregues até setembro e também com a Janssen, garantindo 38 milhões de doses.

O pronunciamento de Bolsonaro foi alvo de panelaços. Os protestos, que ocorreram sob os gritos de “Fora Bolsonaro” e “Bolsonaro Genocida”, foram registrados em diversos bairros de São Paulo e nas principais capitais do país, informa o Estadão.

Distorções, mentiras e omissões

Os principais jornais e portais do país acusaram Bolsonaro de omitir, distorcer e mentir nas informações repassadas em rede nacional.

O G1, por exemplo, disse que Bolsonaro omitiu a informação de que em agosto de 2020 o governo recusou 70 milhões de doses oferecidas pela Pfizer que seriam entregues em dezembro. O portal cita ainda que em dezembro Bolsonaro afirmou que não tinha que “ir atrás” de vacinas, contrastando com o pronunciamento de hoje.

Já a Folha disse que Bolsonaro distorceu ações do governo e mentiu sobre sua atuação na pandemia. O jornal cita que, nos últimos meses Bolsonaro minimizou a pandemia, provocou aglomerações, falou contra o uso de máscaras e brecou imunizações de imunizantes – contrariando o discurso desta terça-feira.

Segundo a Folha, ao considerar dados do projeto Our World Data, da Universidade de Oxford, o Brasil está em 58º lugar em vacinação – posição bem menor do que o 5º lugar destacado por Bolsonaro no discurso.

Em meio à crise causada pela escassez de medicamentos para intubação de pacientes com Covid-19, o Ministério da Saúde deixou de enviar um representante para a reunião da Comissão Externa da Câmara dos Deputados realizada nesta terça-feira para debater o assunto.

A ausência de um integrante da pasta foi duramente criticada por parlamentares e por representantes de hospitais que participaram da reunião, segundo o Estadão.

Brasil registra mais de 3 mil mortes em 24h

Com o registro nesta terça-feira do novo recorde de mortos em 24 horas em decorrência do coronavírus  (3.158 óbitos, segundo o Consórcio de Veículos de Imprensa), o país totaliza 298.843 mortes desde o início da pandemia.

Com o novo número, a média móvel de mortes no país nos últimos 7 dias também teve novo recorde: chegou a 2.349, conforme o consórcio de vimprensa.

O país registra há 62 dias seguidos média de mortes acima de 1mil em 24 horas.

Ministério da Saúde confirma a aceleração da pandemia

O registro das últimas 24 horas, consolidados pelo Ministério da Saúde, são ainda maiores. Entre ontem e hoje, foram anotadas, de acordo com o governo, 3.241 vidas perdidas para a pandemia.

Ainda há 3.396 mortes em investigação por equipes de saúde. Isso porque há casos em que o diagnóstico sobre a causa só sai após o óbito do paciente.

O total de registros de pessoas diagnosticadas com covid-19 em 24 horas, segundo o governo, foi de 82.493. Com estas adições às estatísticas, a soma de infectados pela pandemia desde o seu início alcançou 12.130.019.

O número de pessoas recuperadas chegou a 10.601.658. Já a quantidade de pacientes com casos ativos, em acompanhamento por equipes de saúde, ficou em 1.229.685.

Os dados em geral são menores aos domingos e segundas-feiras pela menor quantidade de trabalhadores para fazer os novos registros de casos e mortes. Já às terças-feiras eles tendem a ser maiores, já que neste dia o balanço recebe o acúmulo das informações não processadas no fim-de-semana.

O ranking de estados com mais mortes pela covid-19 é liderado por São Paulo (68.623), Rio de Janeiro (35.331), Minas Gerais (22.123), Rio Grande do Sul (17.499) e Paraná (14.281). Já as Unidades da Federação com menos óbitos são Acre (1.201), Amapá (1.243), Roraima (1.290), Tocantins (1.838) e Sergipe (3.322).

*Com Agência Brasil