Bolsonaro ameaça demitir Mandetta, mas é pressionado e volta atrás

Paulo Amaral
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Crédito: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro ameaçou demitir o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, nesta segunda-feira, mas não cumpriu.

Uma reunião com todos os ministros, com mais de três horas de duração, e que se encerrou por volta das 19h30, acabou selando a permanência de Mandetta no cargo.

O presidente da República deixou o Palácio sem falar com os jornalistas sobre Mandetta ou o teor da reunião, mas trocou rápidas palavras com os apoiadores que estavam no local antes de entrar no carro oficial.

De acordo com Gerson Camarotti, colunista da GloboNews, Bolsonaro e Mandetta teriam selado um acordo de “união” antes da reunião ministerial começar e aparado as arestas.

Andreia Sadi, outra jornalista do canal, confirmou, em conversa com o vice-presidente Hamilton Mourão, que a reunião geral foi apenas para avaliar os cenários da crise e que Mandetta segue no cargo.

Pressão por Mandetta

A pressão pela permanência de Mandetta começou logo depois que os primeiros boatos sobre a demissão do ministro pipocaram na imprensa.

A hashtag #ficaMandetta subiu rapidamente para os trends do Twitter, panelaços foram registrados em diversos pontos do País e a comoção chegou ao poder público.

Segundo alguns dos principais jornais do Brasil, como O Globo e O Estado de S. Paulo, a saída de Mandetta do ministério da Saúde só não se concretizou porque Bolsonaro enfrentou forte resistência da Câmara, do Supremo Tribunal Federal e do Senado e, por isso, voltou atrás.

O mandatário, antes de desistir da exoneração de Mandetta, teria até discutido possíveis substitutos para a pasta e sondado três nomes para ocupar o ministério no lugar do atual dono do cargo (veja o perfil de cada um deles abaixo).

Os rounds da briga Bolsonaro x Mandetta

Mandetta e Bolsonaro não vêm falando a mesma língua desde que o ministro da Saúde assumiu papel de protagonista na pandemia de coronavírus.

A insistência de Mandetta em seguir as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e pregar a necessidade do isolamento social acabou desgastando sua imagem junto a Bolsonaro, que continua com vontade de desligá-lo do cargo.

Bolsonaro já havia ameaçado Mandetta publicamente na última quinta-feira. Em entrevista ao programa Os Pingos nos Is, da Jovem Pan, o presidente afirmou “estar faltando humildade” ao então Ministro da Saúde.

No domingo pela manhã, ao conversar com apoiadores no Palácio da Alvorada, voltou a cutucar o médico ao afirmar que “alguns ministros estavam se achando demais” e que “de repente viraram estrelas”.

Os “herdeiros” de Mandetta

Apesar de Mandetta ter seguido no cargo, três nomes foram ventilados – e seguem no radar – do presidente da República.

Osmar Terra, deputado federal e ex-Ministro da Cidadania, seria o grande favorito da presidência da República para assumir a pasta.

Outros nomes cogitados seriam os de Nice Yamaguchi, oncologista e imunologista, e Antônio Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Todos os três seguem a mesma linha de raciocínio de Bolsonaro no que se refere à pandemia, e são defensores do isolamento vertical – apenas para pessoas idosas ou com doenças pré-existentes.

Segundo a CNN Brasil, nenhum deles ainda foi convidado oficialmente para a vaga de Mandetta, que balançou, mas continua no cargo.

Yamaguchi, inclusive, teria dito para interlocutores que, caso seja convidada para a função no futuro, declinará da convocação de Bolsonaro.

Quem é Antônio Barra Torres

Antônio Barra Torres é médico, contra-almirante, e trabalhou para barrar o processo de plantio de Cannabis medicinal dentro da Anvisa.

Ele assumiu o cargo na Agência Nacional de Vigilância Sanitária em janeiro deste ano, no lugar de William Dib, mas estava interinamente no cargo desde julho.

Antônio Barra Torres sempre defendeu que medidas drásticas para conter a propagação do coronavírus tinham que ser evitadas para não criar um clima de pânico no Brasil.

Dias antes de a Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmar que a propagação do coronavírus atingiu o estado de pandemia, Barra Torres minimizou os efeitos da Covid-19.

Alinhado com Bolsonaro, que dizia se tratar de “uma gripezinha”, o candidato ao cargo de Ministro da Saúde afirmava que a hora era de manter a tranquilidade para não permitir a “disseminação do pânico”.

Quem é Nice Yamaguchi

Nise Yamaguchi é médica oncologista e imunologista. A doutora tem pensamento similar ao do presidente Jair Bolsonaro e da ala “olavista” do Governo no que diz respeito à pandemia de coronavírus.

Em entrevista recente ao portal Brasil Sem Medo, Nise Yamaguchi chegou a falar abertamente sobre quais medidas considera fundamentais no combate à Covid-19. E defendeu o uso da cloroquina.

“É importante construir UTIs, aumentar os leitos hospitalares, promover o isolamento vertical e adotar medidas de prevenção ― mas não podemos nos limitar a isso. O tratamento precoce com hidroxicloroquina pode ser feito em larga escala, como fizemos com o Tamiflu durante a epidemia de H1N1”, argumentou.

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Segundo Yamaguchi, o uso prematuro da cloroquina será tratado como “ovo de Colombo” quando passar a ser adotado em larga escala.

“Quando se aplica o método precoce com a hidroxicloroquina, as pessoas percebem que é como um ovo de Colombo. Como não havíamos pensado nisso antes? Por que tantos tiveram de morrer? Agora precisamos desenhar padrões que possam ser replicados e beneficiar o maior número de pessoas. Ao final, podemos mudar o curso da epidemia. Esse é o meu sonho para o Brasil”.

A utilização do medicamento no combate ao coronavírus é um dos pontos de discórdia entre o presidente Jair Bolsonaro e o ainda Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.

Enquanto Bolsonaro cita, sem comprovação científica, a eficácia da cloroquina, Mandetta defende que a população não deve se auto-medicar para não prejudicar os doentes que já necessitam do composto, usado, por exemplo, para o combate à malária.

Quem é Osmar Terra

Osmar Terra foi demitido do cargo de Ministro da Cidadania pelo presidente Jair Bolsonaro há pouco mais de um mês, no dia 13 de março.

Apesar de ter ficado fora da cúpula durante a pandemia, Terra, na verdade, jamais se distanciou realmente de Bolsonaro.

Não foram poucas as entrevistas em que o deputado federal rasgou elogios ao presidente e disse, entre outras coisas, que “Bolsonaro é a possibilidade de mudança que tem no País”.

Visão diferente (e equivocada?) sobre o coronavírus

Osmar Terra tem uma visão diferente do que deve ser feito em relação ao controle da pandemia de coronavírus do que a que era defendida por seu antecessor.

No último sábado, o deputado federal tuitou um gráfico mostrando o número de novos casos da Covid-19, na Itália antes e depois do país instituir medidas de quarentena.

Segundo ele, isso provaria a ineficiência da medida.

“Insisto que a quarentena aumenta os casos do coronavírus. A curva da epidemia nos países que a adotaram mostra isso. Isso porque o contágio se transfere da rua para dentro de casa e fica mais fácil”, argumentou.

De acordo com reportagem da Agência Lupa, no entanto, o argumento de Osmar Terra não tem qualquer embasamento científico.

A matéria publicada no site da agência mostra que, embora os números citados pelo sucessor de Mandetta estejam corretos, eles não indicam a ineficiência da quarentena.

Na verdade, o que ocorre é exatamente o contrário: a manutenção da tendência de crescimento no número de casos nos dias imediatamente depois da instituição da medida é esperada.

Segundo as pesquisas mais recentes sobre o assunto, o efeito da quarentena só começa a ser sentido entre oito e 11 dias depois de seu início. A tese do ex-ministro é falha por dois motivos: primeiro, ignora o tempo de incubação da doença. Segundo, ignora o fato de que o registro do resultado dos testes não é imediato.

A data marcada em verde no gráfico publicado pelo deputado é o dia 9 de março. Neste dia, o governo italiano estendeu para todo o território do país medidas de restrição (quarentena).

Até então, elas eram exclusivas para partes do norte do país, região na qual a crise era mais severa, incluindo a Lombardia, a região de Veneza, o norte da Emília-Romanha e o leste de Piemonte.

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