Boeing encerra acordo; Embraer (EMBR3) alega ato indevido

Marcello Sigwalt
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Crédito: Site Mercado e Eventos

A Boeing anunciou neste sábado (25) que encerrou suas tratativas de acordo para compra da área de jatos comerciais da Embraer (EMBR3), por US$ 4,2 bilhões.

Segundo o comunicado da fabricante de aeronaves americana, a companhia exerceu seu direito de rescisão depois que a Embraer não satisfez as condições necessárias.

“A Boeing trabalhou diligentemente ao longo de mais de dois anos para finalizar sua transação com a Embraer. Nos últimos meses, tivemos negociações produtivas, mas sem sucesso, sobre condições insatisfatórias do MTA (Master Transaction Agreement). Todos pretendíamos resolvê-los até a data inicial de término, mas não o fizemos”, afirmou Marc Allen, presidente da Embraer Partnership & Group Operations.

“É profundamente decepcionante”, acrescentou.

A parceria planejada entre a Boeing e a Embraer recebeu aprovação incondicional de todas as autoridades reguladoras necessárias, com exceção da Comissão Europeia.

A Boeing e a Embraer manterão seu contrato existente, originalmente assinado em 2012 e ampliado em 2016, para comercializar e apoiar em conjunto as aeronaves militares C-390 Millennium, acrescentou a Boeing.

Embraer responde

Entretanto, em comunicado, a Embraer afirmou que a Boeing rescindiu “indevidamente” o MTA.

Segundo a fabricante brasileira, a Boeing “fabricou falsas alegações” como pretexto para tentar evitar seus compromissos de fechar a transação e pagar à Embraer o preço de compra de U$ 4,2 bilhões.

A empresa acredita que a Boeing adotou um padrão sistemático de atraso e violações repetidas ao MTA, devido à falta de vontade em concluir a transação, por sua condição financeira, ao 737 MAX e outros problemas comerciais e de reputação.

“A Embraer acredita que está em total conformidade com suas obrigações previstas no MTA e que cumpriu todas as condições necessárias previstas até 24 de abril de 2020”, afirmou.

De acordo com o comunicado, a empresa buscará todas as medidas cabíveis contra a Boeing pelos danos sofridos como resultado do cancelamento indevido e da violação do MTA.

Repercussão

Na sexta-feira (24), as ações da Embraer recuaram 10,68%, cotadas a R$ 8,28 – em meio à noticia do britânico Financial Times de que as empresas encerrariam o acordo.

Segundo comunicado ao mercado enviado na última terça-feira (21), a Embraer havia informado que as duas fabricantes mantêm em suas discussões a prorrogação da data limite inicial, conforme previsto

Originalmente, o acordo global da operação tinha como data limite de 24 de abril deste ano.

Crise pesou

Pesaram muito na decisão da companhia americana, segundo apuração da Veja, os efeitos da crise global provocada pela pandemia do novo coronavírus (Covid-19) sobre a aviação comercial mundial.

Caso a fusão das duas empresas fosse selada, a Boeing ficaria com 80% das ações da nova companhia.

Diretoria atenta

Depois de aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o acordo teria de ser fechado até esta sexta-feira (24), mas a diretoria da Embraer já havia sido avisada de que a Boeing estava prestes a desistir do negócio.

Trump pressiona

Outra motivação para o desenlace empresarial foi a pressão exercida pelo presidente norte-americano, Donald Trump, “para manter a Boeing viva, em meio às dificuldades sofridas pelo setor aéreo, devido à pandemia.

Sem impactos relevantes

O fim do acordo, porém, não deve provocar “impactos relevantes à situação da Embraer”, avalia à Veja Richard Aboulafia, vice-presidente de análise do Teal Group, consultoria de aviação norte=americana.

Falta concorrente

Para a Boeing,  “o maior problema é que ela não terá uma aeronave para concorrer com o modelo A220 da Airbus”, assinala o executivo, ao acrescentar, no entanto, que “isso não é  prioridade para ela”.

Multa milionária

Por causa da desistência, a Boeing terá de pagar entre US$ 75 milhões e US$ 100 milhões.

Além das dificuldades da crise e das pressões políticas, as negociações ainda dependiam do aval da União Europeia, que havia anunciado, em setembro do ano passado, a intenção de abrir investigação sobre a compra da divisão comercial da Embraer.

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Sobreviver é preciso

Dona de um passivo gigantesco – aí incluídas as perdas financeiras pela queda de duas aeronaves novíssimas 737 MAX – e com US$ 25 bilhões em caixa, a Boeing “teme não sobreviver até o fim do ano”, admitiu o presidente recém-empossado Dave Calhoun.

Para fazer frente à crise, a Boeing teria pedido ao governo dos EUA um auxílio da ordem de US$ 60 bilhões.

Duas transações

A fusão das companhias brasileira e norte-americana previa duas transações. A primeira, a aquisição pela Boeing de 80% do capital de aviação comercial – englobando a produção de aeronaves regionais e comerciais grande porte.

Join venture

Já a segunda consistia na criação de uma joint venture entre a Boeing e a Embraer para produzir a aeronave de transporte militar KC-390, que teria participações de 49% e 51%, respectivamente – para a operação de defesa.

(Com Rodrigo Petry)

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